Recentemente, atendi uma paciente que vive exatamente esse dilema que tantas pessoas enfrentam em silêncio: ela está presa a um relacionamento tóxico, com traços claros de narcisismo, não por amor — mas por carência.
Ela termina, sofre, promete a si mesma que não voltará… e volta. Sempre volta. Não porque a relação é boa, mas porque ficar sozinha parece insuportável.
Em sessão, ficou evidente algo fundamental:
👉 o problema não era apenas o relacionamento.
👉 o problema era que ela não tinha uma vida que gostasse de viver.
E quando a vida é vazia, qualquer afeto ruim parece melhor do que o vazio.
Foi a partir disso que eu entendi que não adiantava trabalhar apenas o término. Eu precisava ajudá-la a construir uma vida que tornasse esse retorno desnecessário.
Abaixo estão as orientações que passei a ela — e que podem ajudar muitas outras pessoas que vivem ciclos parecidos.
1. Primeiro: parar de sangrar emocionalmente
Antes de “seguir em frente”, é preciso interromper a ferida aberta.
Sugeri a ela algo simples, mas difícil:
bloquear o contato (mensagens, redes sociais, ligações) não como punição, mas como higiene emocional estabelecer um acordo consigo mesma: “Por 30 dias, eu não tomo nenhuma decisão afetiva.”
Também pedi que ela escrevesse uma lista com todos os episódios de dor, humilhação e desrespeito. Essa lista não é para alimentar rancor, mas para combater a idealização que sempre aparece quando a carência aperta.
2. Aprender a ficar sozinha — com cuidado, não com abandono
Ela acreditava que ficar sozinha era sinônimo de sofrimento. Então propus um treino diferente: associar a solidão ao cuidado.
rituais simples: um café em silêncio, um banho longo, uma caminhada sem celular uma noite por semana planejada para ficar sozinha, com comida escolhida por ela, filme escolhido por ela, ambiente preparado por ela
O objetivo era claro: ensinar ao corpo e à mente que estar só não é ser abandonada.
3. Reconstruir a própria identidade
Em relações narcisistas, a pessoa vai se apagando.
Por isso, trabalhamos perguntas essenciais:
“O que eu gostava antes desse relacionamento?” “O que eu deixei de fazer para não desagradar?” “Quem eu admiro e por quê?”
A partir disso, ela escolheu:
uma atividade corporal (para voltar a habitar o próprio corpo) uma atividade criativa ou de estudo (não por obrigação, mas por prazer)
Identidade se reconstrói na prática, não apenas na reflexão.
4. Criar uma vida que gere orgulho
Aqui está o ponto central de tudo.
Autoestima não nasce de frases motivacionais.
Ela nasce de ação repetida.
Sugeri que ela criasse uma rotina mínima:
horário para cuidar do corpo horário para aprender algo horário para lazer
Metas pequenas, possíveis, mensuráveis.
Porque cada pequeno compromisso cumprido gera algo poderoso: orgulho de si.
5. Trabalhar a carência na raiz
Em sessão, trouxe perguntas difíceis, mas necessárias:
“O que você tenta reparar ficando com alguém que te machuca?” “Qual abandono antigo isso tenta curar?” “Você quer companhia ou quer não se sentir sozinha dentro de você?”
Um dos exercícios mais profundos foi escrever uma carta para si mesma criança, oferecendo aquilo que sempre buscou no outro: proteção, validação e presença.
Quando isso começa a acontecer internamente, a dependência diminui.
6. Criar vínculos sem erotização
Outro ponto importante: ela confundia vínculo com relação amorosa.
Então incentivei:
fortalecimento de amizades atividades coletivas sem flerte contato com pessoas e ambientes que não reforcem a lógica da sedução e da validação constante
Vínculo também é troca, pertencimento e presença — não apenas romance.
7. Ressignificar o “voltar”
Trabalhamos uma frase que foi um divisor de águas para ela:
“Eu não volto porque amo.
Eu volto porque ainda não construí nada melhor para onde ir.”
Essa frase tira a culpa moral e devolve algo essencial: responsabilidade pela própria vida.
8. Um encerramento simbólico
Por fim, propus um ritual de fechamento:
apagar fotos escrever o que aprendeu agradecer pelo que existiu encerrar conscientemente
Sem fechamento simbólico, o inconsciente insiste em reabrir portas que já deveriam estar fechadas.
A verdade que poucos querem ouvir
Ninguém permanece em uma relação tóxica porque ela é boa. Permanece porque a própria vida ainda não é suficientemente boa.
Quando uma pessoa constrói uma vida que lhe dá orgulho, sentido e pertencimento, relações ruins deixam de ser tentadoras.
E talvez essa seja a maior libertação de todas:
não aprender apenas a ficar sozinha,
mas construir uma vida que valha a pena ser vivida — com ou sem alguém.


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