Todos os dias, atendo pessoas de todas as idades, histórias e lugares do mundo — mas o que mais me impressiona é o que não é dito. É curioso como, mesmo em atendimentos online, consigo sentir quando o corpo da pessoa está gritando por dentro. Às vezes, a voz treme. Outras vezes, é o olhar que se apaga. Tem gente que ri demais, como se o riso pudesse calar a dor. Mas o corpo não mente. Ele mostra. Ele denuncia. Ele cobra.
Com o tempo, aprendi que o corpo é o palco do inconsciente. E que quando a boca não dá conta de dizer o que precisa, o corpo entra em cena.
Hoje quero compartilhar com você algumas histórias reais (com nomes fictícios, claro) que vivi na clínica. Histórias que mostram como as dores físicas, muitas vezes, não são problemas do corpo, mas da alma. E como só quando cuidamos da alma é que o corpo encontra, enfim, algum alívio.
A dor que não era do estômago
A Amanda me procurou dizendo que sentia uma queimação constante no estômago. Já tinha feito endoscopia, exames, ido a gastroenterologistas, tomado remédios — mas nada resolvia. O ácido não era do estômago. Era do coração.
Nas primeiras sessões, falávamos da correria do dia a dia, da rotina puxada, do trabalho, das cobranças. Mas, aos poucos, o que realmente queimava veio à tona: a relação com a mãe. Uma mãe crítica, exigente, que sempre dizia que ela podia mais, que nunca elogiava, que controlava até o tipo de roupa que Amanda usava.
“Eu cresci com a sensação de que nada que eu fizesse era suficiente”, disse ela numa das sessões.
Essa fala me cortou por dentro. Porque eu sabia que aquela dor no estômago era, na verdade, o reflexo de uma digestão emocional mal feita. Amanda não conseguia digerir o desprezo, a ausência de afeto, a frieza. E o corpo, então, passou a gritar por ela.
Com o tempo, ela foi nomeando as dores, enfrentando os sentimentos e, pouco a pouco, a queimação cessou. E não foi por causa de um novo remédio, mas por causa de uma nova verdade: ela não precisava mais provar nada pra ninguém.
A enxaqueca que escondia a culpa
Pedro, 42 anos, era um empresário de sucesso. Mas sofria de enxaquecas incapacitantes. “Minha cabeça parece que vai explodir”, ele me disse logo na primeira sessão. Já tinha feito ressonância, exames de sangue, mapeamento cerebral. Tudo normal. Mas a dor persistia.
Com ele, o trabalho analítico foi mais demorado. Pedro era um homem racional, pragmático, não gostava de se aprofundar em emoções. Mas uma coisa me chamou atenção: sempre que falávamos sobre sua infância, ele desviava o assunto. Até que um dia, em silêncio, lágrimas caíram.
“Eu tinha 12 anos quando vi meu pai bater na minha mãe. E eu não fiz nada.”
Ali estava a origem da enxaqueca.
Pedro carregava uma culpa infantil por não ter protegido a mãe. Um menino que cresceu achando que ser forte era não sentir, não chorar, não demonstrar fraqueza. Um adulto que se cobrava sucesso, performance, excelência — mas cuja cabeça doía porque ele não suportava mais carregar o peso da culpa não elaborada.
A enxaqueca, no fundo, era uma metáfora: minha cabeça não aguenta mais.
Pedro só melhorou quando se permitiu acolher aquele menino de 12 anos, reconhecer que ele não tinha culpa, que era só uma criança. E o perdão que ele nunca conseguiu dar a si mesmo foi o que, enfim, trouxe alívio.
A dor nas costas da mulher que carregava o mundo
Carla tinha 36 anos, dois filhos pequenos e um marido ausente. Trabalhava o dia inteiro, cuidava da casa, dos filhos, da mãe idosa. Era a cuidadora de todos. Mas andava com uma dor insuportável nas costas. Já tinha feito fisioterapia, RPG, acupuntura. Nada adiantava.
“Eu não aguento mais”, ela dizia.
E eu sabia: a dor nas costas não era física. Era simbólica. Carla estava carregando muito mais do que seu corpo podia suportar. Ela se sentia responsável por tudo e por todos. Nunca dizia “não”, nunca pedia ajuda, nunca se permitia descansar. A dor era o único jeito que o corpo encontrou para forçá-la a parar.
Na análise, ela começou a perceber como foi educada para ser “boazinha”, “forte”, “responsável”. Mas por trás dessa força havia uma mulher exausta, carente, que também queria colo. Quando ela chorou pela primeira vez na sessão, foi como se sua coluna pudesse, enfim, descansar.
Pouco a pouco, Carla foi aprendendo a dizer “não”, a dividir responsabilidades, a reconhecer seus limites. E, como num milagre silencioso, a dor foi diminuindo.
A voz que sumia quando ela precisava se impor
Letícia era professora. Toda vez que tinha uma reunião com a coordenação ou precisava se posicionar diante de alguém de autoridade, perdia a voz. Literalmente. Ficava rouca, não conseguia falar. Era como se algo a impedisse de se expressar.
Começamos a investigar quando isso começou. E descobrimos que, desde a infância, Letícia era silenciada. O pai não deixava ela interromper adultos, a mãe dizia que “mulher educada fala baixo”, e a escola punia qualquer criança que contestasse as regras.
Letícia cresceu achando que sua voz era perigosa. E o corpo aprendeu: quando o risco de falar era grande demais, melhor calar. Melhor perder a voz do que desagradar.
Durante o processo terapêutico, ela começou a falar. A lembrar. A xingar, inclusive. Teve sessões em que ela gritou — e chorou de medo depois. Mas com o tempo, sua voz foi voltando. Não só a voz literal, mas a interna: a que sabe dizer o que sente, o que pensa, o que precisa.
Hoje, Letícia fala. E quando fala, sua garganta não dói mais.
Quando a alma adoece, o corpo acusa
Essas histórias são reais. Eu as vivi em tela cheia, ao lado de pessoas incríveis, corajosas, que me ensinaram que a dor psíquica não é só “coisa da cabeça”. Ela mora no corpo. Ela escorre pelos poros, adoece órgãos, tensiona músculos, altera a respiração. A mente e o corpo são uma coisa só.
A somatização, na verdade, é um pedido de socorro. É o inconsciente gritando por meio do corpo quando a consciência ainda não deu conta de elaborar.
Não é frescura. Não é drama. Não é fraqueza.
É linguagem.
Curar o corpo é também escutar a alma
E o que fazer diante disso?
Primeiro, escutar o corpo com mais cuidado. Ele não está te traindo. Ele está te dizendo algo. A dor é um chamado.
Depois, procurar ajuda. A psicanálise é um caminho poderoso para quem quer se escutar de verdade. Não oferecemos respostas prontas. Mas ajudamos a descobrir as suas.
E por fim, ser gentil com você. Parar de se cobrar perfeição. Permitir-se sentir. Dar nome aos sentimentos. Chorar quando for preciso. Dizer “não” quando for necessário. E aprender que você não precisa adoecer para ser visto.
Dicas práticas para começar a curar a alma e aliviar o corpo
Observe padrões de dor: quando dói? Em que momentos? Com quem você estava? O que não foi dito? Escreva sobre suas emoções: mesmo que ninguém leia. Escrever é uma forma poderosa de dar vazão àquilo que o corpo está segurando. Permita-se sentir: não anestesie sua dor com trabalho, comida, álcool ou redes sociais. Sinta. Isso cura. Faça terapia: um processo profundo e contínuo de autoconhecimento pode mudar completamente sua relação com o corpo e a vida. Cuide do seu corpo com amor: mas não apenas com remédios. Com descanso, com limites, com escuta, com toque, com carinho. Reconheça o que você não pôde dizer: o que ficou engasgado? O que você calou para agradar, para evitar conflito, para se proteger? Entenda que não é fraqueza pedir ajuda: pelo contrário, é sinal de coragem emocional.
Para terminar: uma mensagem para você
Se você está sentindo uma dor física que não passa, talvez seu corpo esteja tentando te dizer algo que sua mente ainda não consegue ouvir. Talvez você esteja tentando ser forte demais. Talvez você esteja calando demais. Talvez você esteja se esquecendo de si.
Não espere seu corpo gritar para começar a escutar sua alma.
Você merece leveza. Você merece liberdade. E você merece viver com um corpo que não precisa mais adoecer para ser ouvido.
Terapia, terapia, muita terapia.


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