Por que algumas pessoas não conseguem ficar em paz quando tudo está bem?

Existe uma cena muito comum que quase ninguém estranha. A pessoa finalmente resolve um problema que vinha tirando seu sono há meses. A situação financeira melhora, o trabalho se estabiliza, o relacionamento entra em uma fase tranquila, os filhos estão bem, a saúde está aparentemente em ordem. Não existe nenhuma emergência acontecendo. Não há nenhuma notícia ruim chegando. Nada exige uma solução imediata. Pela lógica, seria o momento de respirar. Mas, em vez de respirar, a pessoa começa a pensar. E pensa justamente no que pode dar errado.

“Está tudo bem demais.”

“Alguma coisa vai acontecer.”

“E se eu perder tudo?”

“E se meu filho ficar doente?”

“E se ela estiver me enganando?”

“E se eu for demitido?”

“E se acontecer alguma coisa?”

Às vezes, nem existe uma pergunta específica. Existe apenas aquela sensação estranha de que a tranquilidade não pode durar. A pessoa está sentada no sofá, a casa está silenciosa, as contas estão pagas, a família está bem, mas a cabeça parece estar procurando alguma coisa. Um problema para resolver, uma ameaça para antecipar, um sinal para interpretar. E, quando não encontra nada, inventa uma possibilidade.

É curioso porque muitas dessas pessoas passaram boa parte da vida dizendo que tudo o que queriam era paz. Queriam estabilidade, segurança, uma vida tranquila. Queriam deixar de sofrer. Queriam dormir sem preocupação. Queriam chegar a um momento em que finalmente pudessem dizer: “Agora está tudo bem.” Só que, quando esse momento chega, alguma coisa dentro delas não sabe muito bem o que fazer com ele.

Talvez essa seja uma das experiências psicológicas mais silenciosas e menos compreendidas da vida adulta: desejar profundamente a paz e, ao mesmo tempo, não conseguir permanecer nela.

Isso não significa que toda pessoa preocupada tenha um transtorno de ansiedade. Preocupar-se faz parte da vida humana. A preocupação pode nos ajudar a planejar, antecipar dificuldades e tomar decisões. O problema começa quando a preocupação deixa de ser uma resposta proporcional a uma situação concreta e passa a funcionar como um modo habitual de estar no mundo. A literatura psicológica encontra associações importantes entre intolerância à incerteza, preocupação e ansiedade, inclusive em uma grande meta-análise recente que reuniu 115 estudos e mais de 28 mil participantes. (PubMed⁠)

Mas talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente “por que essa pessoa se preocupa tanto?”. A pergunta seja outra: o que acontece dentro de alguém quando a ausência de um problema começa a ser experimentada como algo difícil de suportar?

Quando a tranquilidade começa a parecer suspeita

Há pessoas que não precisam de uma tragédia para sentir ansiedade. Basta a possibilidade de uma tragédia.

A mãe olha para o filho dormindo e, em vez de simplesmente perceber que ele está bem, imagina uma doença. O homem que finalmente conseguiu organizar a vida financeira começa a pensar no que aconteceria se perdesse o emprego. A mulher que está vivendo um relacionamento saudável começa a prestar atenção exagerada ao modo como o companheiro respondeu uma mensagem, ao tempo que ele levou para responder, ao tom utilizado em determinada frase. O profissional que conseguiu estabilidade começa a imaginar uma demissão que não foi anunciada. A pessoa que está vivendo uma fase particularmente boa olha para a própria vida e pensa: “Está bom demais. Alguma coisa vai acontecer.”

Em todos esses casos existe uma espécie de deslocamento do presente para o futuro. A pessoa não está sofrendo exatamente com aquilo que está acontecendo. Ela está sofrendo com aquilo que poderia acontecer.

Esse mecanismo pode ser entendido, em parte, pela chamada ansiedade antecipatória. A mente humana possui uma capacidade extraordinária de simular futuros possíveis. Essa capacidade é fundamental para a sobrevivência. Precisamos imaginar consequências, avaliar riscos, preparar respostas. O problema aparece quando a simulação de ameaça deixa de ser uma ferramenta ocasional e se transforma no ambiente mental permanente da pessoa.

A vida real apresenta incerteza. A mente ansiosa frequentemente tenta transformar essa incerteza em previsão. “Se eu imaginar tudo antes, talvez consiga impedir.” E aí surge uma das grandes ilusões da ansiedade: a sensação de que preocupar-se é uma forma de controle.

A pessoa pensa que está se protegendo porque está pensando no pior. Mas muitas vezes está apenas mantendo o organismo e a atenção orientados para uma ameaça que ainda não existe.

Pesquisas sobre atenção e ansiedade mostram que, em determinados grupos clínicos, especialmente em pessoas com transtornos de ansiedade, há evidências de maior orientação ou manutenção da atenção diante de estímulos relacionados à ameaça. Uma revisão sistemática sobre ansiedade generalizada encontrou evidências particularmente consistentes desse viés em pessoas com transtorno de ansiedade generalizada, embora os resultados sejam mais complexos quando se estudam pessoas preocupadas que não apresentam um transtorno. (PubMed⁠)

Isso é importante porque nos ajuda a abandonar uma explicação moralista. Não se trata simplesmente de uma pessoa “negativa”, “fraca” ou “dramática”. A maneira como alguém direciona a atenção pode estar relacionada a padrões de aprendizagem, emoção e ameaça que foram se consolidando ao longo da vida.

Mas a Neurociência explica apenas uma parte da história.

Para compreender por que alguém pode sentir necessidade de encontrar um problema justamente quando a vida está tranquila, precisamos entrar em um território mais profundo: a história daquele sujeito e o significado que a tranquilidade adquiriu para ele.

Talvez o problema não seja o perigo. Talvez seja a ausência dele.

Imagine uma criança crescendo em uma casa na qual nunca sabia exatamente como os adultos estariam.

Em alguns dias, tudo estava bem. Em outros, havia brigas. Em determinados momentos, o pai era afetuoso. Em outros, distante ou agressivo. A mãe poderia estar tranquila pela manhã e emocionalmente desorganizada à noite. Às vezes, a criança recebia carinho. Em outras, precisava ficar atenta ao humor dos adultos para saber como se comportar.

Não precisamos chamar isso automaticamente de trauma. Nem toda infância difícil produz psicopatologia. Nem toda pessoa que cresceu em uma família imprevisível se tornará ansiosa. O desenvolvimento humano resulta da interação complexa entre temperamento, ambiente, relações, aprendizagem, condições sociais e muitos outros fatores.

Mas a previsibilidade importa.

Pesquisas contemporâneas sobre desenvolvimento mostram associações entre experiências de imprevisibilidade na infância e diferenças posteriores em processos cognitivos, socioemocionais e comportamentais. Uma revisão de 2024 destaca justamente a importância da imprevisibilidade como característica ambiental capaz de influenciar o desenvolvimento, embora os mecanismos ainda estejam sendo investigados e não permitam uma explicação determinista para cada indivíduo. (PubMed⁠)

Outro estudo experimental encontrou associação entre percepção de infância imprevisível e menor exploração, maior repetição de escolhas anteriores e maior sensibilidade à incerteza em crianças e adolescentes. (PubMed⁠)

Isso nos oferece uma imagem interessante: quando o mundo não parece previsível, aprender a observar, antecipar e controlar pode ser uma estratégia adaptativa.

A criança aprende a olhar para o rosto da mãe antes de fazer um pedido. Aprende a ouvir o barulho da porta. Aprende a identificar o tom de voz do pai. Aprende que determinados sinais precedem uma discussão. Aprende que determinada mudança no ambiente pode significar que alguma coisa ruim está prestes a acontecer.

Ela aprende a vigiar.

E aquilo que um dia foi uma habilidade necessária pode permanecer como uma forma de funcionamento muito depois de o perigo desaparecer.

O adulto pode morar em uma casa tranquila e continuar escutando a porta como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer.

Pode ter um relacionamento saudável e continuar procurando sinais de abandono.

Pode ter dinheiro suficiente e continuar vivendo como se a falência estivesse chegando.

Pode ter filhos saudáveis e continuar imaginando doenças.

Pode finalmente estar seguro e continuar procurando perigo.

É como se o corpo tivesse aprendido uma língua que a realidade atual já não fala.

Quando o cérebro aprende a procurar ameaça

A Neuropsicologia ajuda a compreender uma parte desse fenômeno sem reduzir o ser humano ao cérebro.

Nosso sistema nervoso possui mecanismos especializados em detectar mudanças relevantes, ameaça, novidade e possíveis perigos. Estruturas como a amígdala, o hipocampo e regiões do córtex pré-frontal participam, de maneiras diferentes e interligadas, da aprendizagem emocional, avaliação contextual, memória e regulação das respostas diante de ameaças.

Mas não existe um único “centro da ansiedade” no cérebro, nem uma região que simplesmente decide que estamos seguros ou em perigo. O funcionamento é distribuído, dinâmico e dependente do contexto.

A aprendizagem tem papel fundamental. O organismo aprende associações entre acontecimentos, contextos e consequências. Se determinados ambientes foram repetidamente associados a perigo ou imprevisibilidade, o cérebro pode tornar-se mais sensível a sinais relacionados à ameaça. A literatura sobre aprendizagem de ameaça mostra justamente como seres humanos aprendem a distinguir sinais de perigo e segurança, embora essa distinção possa se tornar menos precisa em determinadas condições. (PubMed⁠)

Uma revisão sistemática publicada em 2024, analisando 81 estudos sobre experiências adversas na infância e mecanismos de aprendizagem de ameaça e recompensa, encontrou evidências de alterações nesses processos em pessoas com histórico de experiências adversas. Os autores, entretanto, destacam a heterogeneidade das experiências e dos estudos, o que impede transformar esses resultados em uma explicação simples para cada indivíduo. (PubMed⁠)

Isso é fundamental.

O cérebro aprende.

Mas aprender não significa estar condenado.

O fato de uma pessoa ter desenvolvido determinado padrão de vigilância não significa que esse padrão seja imutável ou que sua infância determine seu destino psicológico. Significa apenas que experiências repetidas podem participar da construção das formas pelas quais percebemos e respondemos ao mundo.

É por isso que uma pessoa pode entrar em um relacionamento saudável e, mesmo assim, sentir medo de abandono. Ela não está necessariamente reagindo apenas ao parceiro atual. Pode estar reagindo também a uma história anterior de perda, rejeição, instabilidade ou insegurança.

O presente existe, mas nunca chega à nossa experiência completamente separado do passado.

Freud e a estranha dificuldade de simplesmente ficar em paz

É aqui que a Psicanálise oferece uma contribuição que não pode ser substituída por uma explicação exclusivamente neurobiológica.

Para Freud, a angústia não é simplesmente “estar preocupado”. Ela está relacionada a conflitos, perigos e à maneira como o aparelho psíquico responde diante de determinadas situações. Ao longo de sua obra, Freud modificou e aprofundou sua compreensão da angústia, até chegar a uma formulação na qual ela funciona como um sinal diante de uma situação de perigo.

Isso nos permite pensar algo muito interessante: às vezes, aquilo que a pessoa chama de “preocupação” pode ser apenas a parte consciente de uma movimentação psíquica muito mais complexa.

A pessoa diz: “Tenho medo de perder meu emprego.”

Mas talvez exista algo além do emprego.

Pode haver medo de voltar a sentir desamparo.

Pode haver medo de fracassar.

Pode haver uma necessidade inconsciente de provar que é capaz.

Pode haver uma história na qual perder significava não apenas perder dinheiro, mas perder amor, reconhecimento, valor ou lugar.

Da mesma maneira, alguém pode dizer: “Tenho medo de que meu marido me abandone”, quando aquilo que está em jogo é uma experiência muito mais profunda de não ser escolhida, não ser suficiente ou ser novamente colocada diante de uma perda antiga.

A Psicanálise não pergunta apenas “qual é o problema?”. Ela pergunta: por que esse problema adquiriu esse significado para esse sujeito?

Essa diferença é enorme.

A compulsão à repetição e o estranho prazer de continuar procurando problemas

Freud também nos ajuda quando pensamos na repetição.

Existe uma tendência humana a repetir determinados modos de funcionamento, mesmo quando eles produzem sofrimento. Isso não significa que a pessoa conscientemente queira sofrer. Pelo contrário. Muitas vezes, ela deseja justamente o contrário.

Mas o inconsciente não funciona como uma planilha racional de decisões.

Uma pessoa pode conscientemente desejar tranquilidade e inconscientemente continuar reproduzindo situações de vigilância, dúvida, desconfiança ou conflito.

É possível que alguém diga: “Eu só queria encontrar uma pessoa tranquila para viver”, e, quando encontra alguém estável, comece a desconfiar que a relação está “boa demais”.

Pode acontecer de alguém desejar profundamente estabilidade financeira e, quando consegue, passar a viver em constante medo de perder.

Pode desejar uma família tranquila e, quando os filhos estão bem, começar a procurar perigos que ainda não existem.

A questão psicanalítica seria: o que a tranquilidade provoca nesse sujeito?

Porque talvez o problema não seja somente a presença da ansiedade. Talvez exista também uma dificuldade em suportar aquilo que aparece quando a ansiedade desaparece.

O silêncio pode revelar aquilo que a preocupação escondia

Existe uma hipótese clínica interessante aqui.

Às vezes, a preocupação ocupa espaço psíquico.

Enquanto estou preocupado com a possibilidade de perder dinheiro, não preciso entrar em contato com determinadas perguntas sobre minha vida.

Enquanto estou preocupado com o que meu parceiro está fazendo, não preciso perguntar o que desejo dessa relação.

Enquanto estou preocupado com o futuro dos meus filhos, não preciso olhar para a minha própria vida.

Enquanto estou preocupado com uma possível doença, talvez não precise entrar em contato com uma angústia mais difícil de nomear.

Isso não significa que a pessoa esteja conscientemente inventando problemas para fugir de si mesma. A dinâmica é muito mais complexa.

A preocupação pode funcionar como uma defesa.

Ela cria alguma coisa para pensar.

E, enquanto existe alguma coisa para pensar, talvez seja possível evitar alguma coisa para sentir.

Essa é uma das razões pelas quais simplesmente dizer a uma pessoa “pare de pensar nisso” costuma ser tão pouco útil. O pensamento repetitivo pode estar cumprindo uma função psíquica. Retirá-lo sem compreender o que ele está fazendo pode deixar a pessoa diante de um vazio que ainda não sabe suportar.

É por isso que, na clínica psicanalítica, o sintoma não é tratado apenas como um inimigo que precisa ser eliminado. É também uma formação que pode revelar alguma coisa sobre o sujeito.

Perguntar apenas “como faço para parar de me preocupar?” pode ser importante.

Mas, em determinadas situações, uma pergunta mais profunda é: “Por que eu preciso tanto me preocupar?”

O paradoxo da pessoa que deseja paz, mas não consegue habitá-la

Talvez aqui esteja o centro de toda essa discussão.

Algumas pessoas desejam a paz como quem deseja uma casa. Trabalham durante anos para chegar até ela. Mas, quando chegam, não conseguem morar dentro dela.

A estabilidade financeira chega e aparece o medo da perda.

O relacionamento saudável chega e aparece a desconfiança.

O filho cresce bem e aparecem as preocupações com o futuro.

O emprego se estabiliza e aparece o medo da demissão.

A vida fica silenciosa e a mente produz barulho.

Existe uma espécie de paradoxo: a pessoa alcança aquilo que desejava, mas seu aparelho psíquico ainda está organizado em torno daquilo que precisou fazer para sobreviver antes de alcançar.

Quem passou anos resolvendo problemas pode ter dificuldade de reconhecer que nem todo momento exige uma solução.

Quem passou anos antecipando crises pode sentir estranheza quando nenhuma crise aparece.

Quem aprendeu que segurança nunca dura pode interpretar a segurança como intervalo entre duas ameaças.

E existe uma frase muito reveladora nesse funcionamento: “Está tudo bem, mas…”

Esse “mas” pode carregar uma vida inteira.

“Está tudo bem, mas e se…?”

É nesse “e se” que muitas pessoas passam horas, dias e anos.

A necessidade de controle

Uma das maneiras mais comuns de tentar escapar da incerteza é controlar.

Controlar o dinheiro.

Controlar o parceiro.

Controlar os filhos.

Controlar a agenda.

Controlar o futuro.

Controlar o próprio corpo.

Controlar as possibilidades.

Mas existe um problema inevitável: a vida não pode ser completamente controlada.

A tentativa de eliminar toda incerteza pode produzir justamente aquilo que a pessoa mais deseja evitar. Quanto mais ela verifica, mais coisas precisa verificar. Quanto mais procura sinais, mais sinais encontra. Quanto mais tenta garantir que nada dará errado, mais possibilidades de erro aparecem.

A intolerância à incerteza é especialmente relevante para compreender a preocupação persistente. Pesquisas contemporâneas tratam esse fenômeno como uma vulnerabilidade transdiagnóstica associada à preocupação e a diferentes manifestações de ansiedade. A meta-análise mais recente que encontrei encontrou uma associação robusta entre intolerância à incerteza e preocupação. Isso não significa que toda pessoa que não gosta de incerteza tenha um transtorno, mas mostra que a dificuldade de conviver com o não saber é clinicamente relevante. (PubMed⁠)

Talvez seja por isso que a mente ansiosa faça tantas perguntas.

“E se?”

“Como eu sei?”

“Mas será que?”

“E se acontecer?”

“E se não acontecer?”

“Será que ele realmente está bem?”

“Será que eu realmente estou seguro?”

O problema é que nenhuma quantidade de pensamento consegue produzir certeza absoluta.

A mente procura uma garantia que a realidade não pode oferecer.

O passado continua falando no presente

Uma das contribuições mais importantes da Psicanálise é mostrar que o passado não desaparece simplesmente porque o calendário avançou.

Isso não quer dizer que todo comportamento atual seja causado por uma experiência infantil específica. Seria uma simplificação grosseira.

Significa que experiências anteriores participam da construção de nossas expectativas, medos, defesas e formas de nos relacionarmos.

Uma pessoa que foi abandonada pode se tornar extremamente sensível a sinais de afastamento.

Uma pessoa que viveu muita imprevisibilidade pode valorizar controle.

Uma pessoa que precisou amadurecer cedo pode sentir dificuldade em descansar.

Uma pessoa que aprendeu que precisava estar sempre atenta pode experimentar relaxamento como vulnerabilidade.

E aqui aparece uma pergunta que considero particularmente importante na clínica: o que você aprendeu que precisava fazer para se sentir seguro?

Alguns aprenderam a agradar.

Outros aprenderam a controlar.

Outros aprenderam a desconfiar.

Outros aprenderam a antecipar.

Outros aprenderam a trabalhar sem parar.

Outros aprenderam a nunca depender de ninguém.

Outros aprenderam a pensar em todas as possibilidades antes que alguma coisa acontecesse.

São formas diferentes de construir segurança.

O problema é que uma estratégia que foi útil em determinado momento da vida pode continuar funcionando mesmo quando as circunstâncias mudaram.

A dificuldade de confiar no presente

Confiar não significa acreditar que nada ruim acontecerá.

Isso seria ingenuidade.

Confiar significa reconhecer que não temos controle absoluto sobre o futuro e, ainda assim, conseguir viver o presente sem exigir garantias impossíveis.

Talvez uma das grandes dificuldades das pessoas que não conseguem ficar em paz seja justamente essa: elas não conseguem confiar na realidade enquanto ela está acontecendo.

Se o parceiro está presente, precisam saber se continuará presente.

Se o filho está saudável, precisam garantir que continuará saudável.

Se possuem dinheiro, precisam garantir que não perderão.

Se possuem trabalho, precisam garantir que não serão demitidos.

Mas nenhuma dessas garantias existe.

A vida oferece probabilidades, não contratos de permanência.

E isso pode ser angustiante.

Lacan ajuda a radicalizar essa questão quando pensamos que o desejo humano não se satisfaz de uma vez por todas. O sujeito não encontra um objeto definitivo capaz de eliminar toda falta e toda angústia. A vida psíquica permanece marcada pelo desejo, pela falta e pela busca.

Isso não significa que devemos transformar Lacan em uma explicação neurobiológica da ansiedade. Não são a mesma linguagem nem o mesmo método. Mas sua contribuição pode ser valiosa para lembrar que nenhum estado externo de estabilidade consegue produzir uma garantia absoluta contra a falta, a perda ou a incerteza.

Talvez algumas pessoas estejam tentando usar a realidade para obter uma segurança que nenhuma realidade pode oferecer.

Quando a preocupação deixa de ser apenas uma característica

É importante fazer uma distinção.

Existe a pessoa cuidadosa, que pensa antes de agir, planeja, considera riscos e ocasionalmente se preocupa com o futuro. Isso faz parte da vida.

Existe também a pessoa que passa grande parte do tempo em preocupação persistente, que tem dificuldade de interromper pensamentos sobre diferentes áreas da vida, que sente tensão constante, dificuldade para dormir, irritabilidade, inquietação, dificuldade de concentração ou sofrimento significativo.

Nesse segundo caso, já não estamos falando simplesmente de alguém que “pensa demais”.

Quando a preocupação se torna persistente, difícil de controlar e começa a interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos, na capacidade de desfrutar a vida ou no funcionamento cotidiano, vale procurar avaliação profissional. Transtornos de ansiedade são condições clínicas reais e não devem ser banalizados como simples falta de pensamento positivo.

Também é importante lembrar que ansiedade não é sinônimo de preocupação. Diferentes transtornos possuem características próprias, e sintomas semelhantes podem aparecer em diferentes condições. O diagnóstico exige avaliação clínica adequada, considerando história, contexto, duração, intensidade e impacto funcional.

Da mesma maneira, não devemos olhar para toda pessoa preocupada e procurar imediatamente uma infância traumática. Às vezes, a preocupação é resposta a uma situação objetiva. Às vezes, existe predisposição temperamental. Às vezes, há estresse atual. Às vezes, existem padrões aprendidos. Às vezes, existem conflitos psíquicos. Frequentemente, há uma combinação de fatores.

O ser humano não cabe em uma única explicação.

Talvez você não precise encontrar outro problema

Existe uma frase que pode parecer simples, mas que talvez seja profundamente difícil para algumas pessoas:

“Hoje não há nada para resolver.”

Para alguém acostumado a viver em estado de alerta, essa frase pode provocar desconforto.

Porque, se não há nada para resolver, sobra o silêncio.

E no silêncio pode aparecer aquilo que a preocupação mantinha ocupado.

Talvez apareça uma pergunta sobre a própria vida.

Talvez apareça um desejo.

Talvez apareça tristeza.

Talvez apareça cansaço.

Talvez apareça simplesmente a necessidade de permanecer presente sem fazer nada.

E isso também precisa ser aprendido.

Nem todo silêncio é sinal de perigo.

Nem toda mudança é uma ameaça.

Nem toda demora significa abandono.

Nem toda fase boa precisa ser seguida imediatamente por uma tragédia.

Nem todo pensamento merece investigação.

Nem toda possibilidade merece preocupação.

Nem todo futuro precisa ser vivido antecipadamente.

Existe uma diferença enorme entre estar preparado para a vida e estar permanentemente em guerra com ela.

A paz também precisa ser aprendida

Talvez essa seja uma das conclusões mais importantes.

Algumas pessoas sabem lutar, trabalhar, antecipar, proteger, controlar, resolver e sobreviver. Mas nunca aprenderam a descansar.

E descansar não é apenas parar o corpo.

É permitir que a mente reconheça que, naquele momento, não existe uma ameaça que precise ser neutralizada.

É conseguir olhar para o filho dormindo e simplesmente perceber que ele está dormindo.

É olhar para o saldo bancário e não imaginar imediatamente a ruína.

É receber uma mensagem do parceiro e não procurar uma segunda intenção.

É chegar em casa depois de um dia tranquilo e não sentir necessidade de procurar uma catástrofe.

É viver uma coisa boa sem imediatamente perguntar quanto tempo ela vai durar.

Isso não significa abandonar a prudência. Significa não transformar a prudência em vigilância permanente.

A Psicologia e a Neurociência mostram que atenção, aprendizagem, ameaça e repetição participam da maneira como interpretamos o ambiente. A Psicanálise acrescenta outra pergunta: qual é o lugar que essa preocupação ocupa na vida daquele sujeito? O que ela protege? O que ela evita? O que ela repete? O que ela tenta controlar? O que aparece quando ela desaparece?

Talvez seja justamente nesse encontro entre o funcionamento aprendido e a história subjetiva que possamos compreender por que algumas pessoas parecem incapazes de simplesmente desfrutar de um momento bom.

Não porque gostem de sofrer.

Não porque sejam ingratas.

Não porque tenham escolhido conscientemente viver preocupadas.

Mas porque, em algum ponto de sua história, estar atento pode ter se tornado uma das formas mais importantes de se sentir seguro.

E quando uma pessoa aprende durante muito tempo que segurança significa vigiar, ela pode encontrar dificuldade para compreender uma experiência aparentemente simples: às vezes, estar seguro significa não fazer nada.

Talvez o grande desafio não seja aprender a resolver o próximo problema.

Talvez seja aprender a suportar a ausência dele.

Porque existe uma diferença entre estar preparado para uma possível tempestade e passar a vida olhando para o céu procurando nuvens.

Há pessoas que passam tantos anos tentando evitar o sofrimento que acabam incapazes de desfrutar a tranquilidade. Conseguem chegar ao lugar que desejavam, mas continuam vivendo psicologicamente como se ainda estivessem tentando escapar de algum lugar.

E talvez seja por isso que, para algumas pessoas, a paz seja estranhamente desconfortável.

Não porque a paz seja ruim.

Mas porque ela exige uma coisa que a preocupação não exige: confiança.

Confiança de que nem tudo precisa ser previsto.

Confiança de que nem toda perda precisa ser antecipada.

Confiança de que o presente pode ser vivido sem uma garantia sobre o futuro.

Confiança de que, se algum problema realmente aparecer, talvez seja possível enfrentá-lo quando ele chegar.

E talvez exista uma pergunta ainda mais profunda por trás de todas as perguntas que fazemos quando estamos preocupados:

E se, pela primeira vez, não houver nada acontecendo e você simplesmente precisar aprender a ficar em paz?

TERAPIA, TERAPIA, MUITA TERAPIA.

Se você percebe que vive permanentemente tentando antecipar problemas, controlar o futuro ou encontrar alguma ameaça mesmo quando a vida está bem, talvez valha a pena investigar não apenas aquilo que preocupa você, mas também por que a sua mente precisa permanecer preocupada. A psicoterapia e a psicanálise podem oferecer um espaço para compreender essa história com profundidade, sem transformar sofrimento em diagnóstico e sem reduzir a complexidade da vida a uma fórmula pronta. Para conhecer o meu trabalho ou estudar psicanálise conosco, fale pelo WhatsApp: 19 99313-7819.

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