Psicanálise é excluída de discussão sobre psicoterapia

Uma decisão importante acaba de acontecer no Senado Federal e merece ser explicada com precisão, especialmente para quem está em formação ou já atua com psicanálise.

Nesta quarta-feira, 2 de setembro de 2026, a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal aprovou o relatório da senadora Mara Gabrilli referente à SUG 1/2024, proposta que pretende regulamentar o exercício da psicoterapia no Brasil. A matéria propõe que a psicoterapia seja exercida exclusivamente por psicólogos e médicos psiquiatras. 

Mas existe uma informação fundamental que precisa ser conhecida por todos nós:

A psicanálise foi expressamente excluída dessa proposta.

Não é interpretação. Não é uma leitura política. Não é uma promessa de entidade de classe.

Está escrito no relatório oficial apresentado ao Senado.

O texto afirma:

“a regulamentação da psicoterapia como prática privativa de psicólogas(os) e médicas(os) psiquiatras não se estende ao exercício da psicanálise.”

E o relatório continua reconhecendo que a psicanálise possui pressupostos metodológicos próprios e que sua prática historicamente é orientada pelos parâmetros éticos estabelecidos pelas instituições e escolas psicanalíticas. 

Esse trecho é extremamente importante.

Leia o relatório oficial da Senadora Mara Gabrilli no Senado Federal⁠

Leia aqui: https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?disposition=inline&dm=10306412&rendition_principal=S&ts=1788356761129

O que aconteceu, afinal?

É importante não confundir uma etapa do processo legislativo com a aprovação de uma lei.

Ainda não existe uma lei nova regulamentando a psicoterapia.

O que a CDH fez foi aprovar a transformação da SUG 1/2024 em um Projeto de Lei, permitindo que a matéria continue sua tramitação legislativa. O próprio relatório deixa claro que, depois dessa etapa, o texto poderá ser analisado pelas comissões competentes e poderá inclusive receber emendas e aperfeiçoamentos. 

Portanto, a discussão sobre a possibilidade de reservar a psicoterapia a psicólogos e médicos psiquiatras continuará.

O que mudou hoje é que essa discussão passou a avançar dentro do processo legislativo com uma distinção expressa:

psicoterapia é uma coisa. Psicanálise é outra.

E o texto apresentado pela relatora deixa claro que a reserva proposta para a psicoterapia não alcança a psicanálise

E isso significa o quê para nós?

Significa que, na redação atualmente proposta, a psicanálise não foi colocada como atividade exclusiva de psicólogos e psiquiatras.

Isso é extremamente relevante.

Psicanalista não faz psicoterapia. Faz análise.

Aqui está, talvez, a principal orientação que quero deixar aos meus alunos.

Não precisamos tentar transformar a psicanálise em psicoterapia.

A psicanálise tem sua própria tradição, sua própria teoria, seu próprio método e sua própria concepção de sujeito.

Freud não criou uma psicoterapia qualquer.

Criou um campo clínico fundamentado na investigação do inconsciente, na transferência, na associação livre, na interpretação e na escuta daquilo que aparece no discurso para além daquilo que o sujeito conscientemente pretende dizer.

Por isso, quem está se formando em psicanálise precisa compreender uma coisa fundamental:

nós fazemos análise psicanalítica.

Podemos falar em atendimento em psicanálise, clínica psicanalítica, análise psicanalítica ou simplesmente análise, conforme o contexto.

E precisamos ter coerência entre aquilo que estudamos e aquilo que fazemos.

Se você é psicanalista e não possui formação em Psicologia ou Medicina com habilitação correspondente, não deve apresentar seu trabalho como psicoterapia se a futura legislação vier a reservar essa atividade às categorias previstas no texto.

Nossa força está justamente em não precisar fazer isso.

A psicanálise não precisa se esconder atrás da psicoterapia.

A psicanálise possui identidade própria.

Uma vitória, mas não o fim da discussão

Também não podemos cair no erro de comemorar como se toda a questão estivesse definitivamente encerrada.

Não está.

A SUG 1/2024 ainda está em tramitação. O texto poderá ser analisado por outras comissões, sofrer modificações e passar pelas demais etapas legislativas. O próprio relatório reconhece que existem divergências sobre o alcance da reserva profissional e sobre as fronteiras entre psicoterapia e outras práticas de cuidado em saúde mental. 

Por isso, continuaremos acompanhando.

Mas existe, hoje, um fato concreto que precisa ser conhecido por todos os psicanalistas e estudantes de psicanálise:

quando a relatora propôs regulamentar a psicoterapia como atividade privativa de psicólogos e médicos psiquiatras, ela fez questão de registrar que essa regulamentação não se estende ao exercício da psicanálise.

Isso representa um avanço importante.

E também nos impõe uma responsabilidade.

Estudem psicanálise. Formem-se em psicanálise. Façam supervisão. Façam análise pessoal. Conheçam profundamente Freud, Lacan, Winnicott, Klein, Jung e os demais autores que sustentam as diferentes tradições psicanalíticas. Aprendam a reconhecer os limites da nossa atuação e, principalmente, não confundam psicanálise com psicoterapia.

A melhor maneira de defender a psicanálise não é tentar dizer que ela é psicologia.

É demonstrar, com formação séria, ética e prática responsável, que a psicanálise é psicanálise.

E, neste momento, o próprio texto que avança no Senado reconhece essa distinção.

Seguimos atentos. Seguimos estudando. E seguimos fazendo aquilo que a psicanálise sempre fez: escutar o sujeito.

Vieira Júnior

Instituto José Manoel Vieira
Transformar feridas em glórias.

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