O que o Brasil precisa fazer para sair da infância, passar pela adolescência e finalmente crescer? 
Estamos entrando em mais uma eleição presidencial e, mais uma vez, o Brasil parece preparado para repetir a mesma história. De um lado, a direita. Do outro, a esquerda. De um lado, quem procura um salvador. Do outro, quem procura outro salvador. E talvez exista algo profundamente infantil nessa necessidade permanente de encontrar um pai que resolva aquilo que nós mesmos não conseguimos elaborar. Na perspectiva psicanalítica, a busca por uma autoridade idealizada pode revelar justamente a dificuldade de assumir a própria responsabilidade. É como se estivéssemos permanentemente procurando alguém que venha nos dizer o que fazer, quem é o inimigo, quem é o culpado e quem será capaz de nos salvar. Freud nos ensinou que aquilo que não é elaborado tende a retornar pela repetição. E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo com o Brasil. Mudamos os presidentes, mudamos os partidos, mudamos os discursos, mudamos os inimigos, mas continuamos convivendo com problemas estruturais muito semelhantes. A política muda de roupa, mas o funcionamento permanece. E quando uma sociedade não consegue elaborar seus conflitos, ela tende a repeti-los.
Jung nos ajuda a compreender outra parte dessa dinâmica quando fala sobre a sombra. Uma sociedade também pode projetar no outro aquilo que não consegue reconhecer em si mesma. O Brasil quer um Estado eficiente, mas muitas vezes tolera privilégios quando eles beneficiam o próprio grupo. Quer menos impostos, mas não necessariamente quer abrir mão dos benefícios tributários que recebe. Quer educação de qualidade, mas nem sempre aceita discutir desempenho, avaliação e responsabilidade. Quer crescimento econômico, mas frequentemente protege setores que precisam justamente ser expostos à concorrência para se tornarem mais produtivos. E queremos políticos honestos, desde que a desonestidade não seja praticada por alguém que representa o nosso lado. Essa é uma sombra que precisamos enfrentar. Talvez o nosso maior problema não seja apenas escolher mal os governantes, mas insistir em procurar nos governantes a solução para problemas que também pertencem à sociedade. A criança procura alguém que resolva. O adulto reconhece o problema e assume responsabilidade por aquilo que precisa ser feito.
É por isso que, como psicanalista e como brasileiro, eu não quero entrar em mais uma discussão sobre quem é o herói e quem é o vilão. Não quero discutir qual lado da polarização possui a narrativa mais bonita. Direita e esquerda podem e devem existir em uma democracia, porque representam diferentes visões sobre Estado, economia, sociedade e liberdade. O problema começa quando essas posições deixam de ser instrumentos de pensamento e passam a ser identidades que precisam ser defendidas a qualquer custo. Quando isso acontece, a política deixa de procurar aquilo que funciona e passa a procurar aquilo que confirma a nossa crença. A neuropsicologia nos mostra o quanto somos vulneráveis aos vieses cognitivos, à confirmação das nossas próprias crenças e à influência dos grupos aos quais pertencemos. A psicanálise nos lembra que nem sempre sabemos por que desejamos aquilo que desejamos. A filosofia nos obriga a perguntar para onde estamos indo. E é por isso que eu gostaria de fazer uma proposta diferente: menos discussão narcísica sobre quem está certo e mais discussão racional sobre o que o Brasil precisa fazer para amadurecer.
Eu não acredito que o Brasil precise copiar literalmente qualquer outro país. Nenhuma sociedade pode simplesmente importar o modelo de outra. Mas podemos observar o que países desenvolvidos fizeram para construir instituições sólidas, produtividade, segurança jurídica, educação, infraestrutura, capacidade fiscal e qualidade de vida. E, se quisermos que o Brasil deixe de viver como uma criança ou um adolescente político e comece a se comportar como um país adulto, existem pelo menos dez decisões que precisam entrar no centro do debate nacional, independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.
1. Colocar as contas públicas em ordem
O primeiro passo é o mais desagradável e, justamente por isso, provavelmente um dos mais importantes. O Brasil precisa parar de tratar dinheiro público como se fosse infinito. Não é. O Estado precisa arrecadar, gastar e investir dentro de uma realidade fiscal sustentável. Isso significa revisar despesas permanentes, combater fraudes, avaliar benefícios, eliminar programas ineficientes, rever subsídios e renúncias fiscais, reduzir desperdícios e aumentar a qualidade do gasto. Não significa simplesmente cortar tudo, porque um país que deixa de investir em educação, infraestrutura e desenvolvimento também compromete o próprio futuro. Significa fazer escolhas. Um Estado adulto precisa saber dizer não. Precisa compreender que cada real gasto em um lugar deixa de estar disponível para outro. E precisa abandonar a fantasia de que é possível oferecer tudo para todos sem que alguém pague a conta. A responsabilidade fiscal não é uma ideologia. É matemática.
2. Construir uma política fiscal que permita juros menores
Não adianta o presidente reclamar que os juros estão altos. O presidente não define sozinho a taxa básica de juros. O Banco Central tem essa responsabilidade. Mas o governo pode criar as condições econômicas para que os juros possam cair de maneira sustentável. Quando o mercado percebe deterioração fiscal, inflação persistente ou dificuldade de controle da dívida, aumenta o prêmio de risco exigido para financiar o país. Isso encarece o dinheiro, reduz investimento, dificulta o crescimento e aumenta a própria despesa do governo com juros. O caminho, portanto, não é pressionar artificialmente a autoridade monetária para baixar juros. É recuperar credibilidade. Um país que controla suas contas, mantém inflação sob controle e constrói instituições previsíveis cria condições para que o custo do capital caia estruturalmente. Juros baixos não são uma decisão política isolada. São consequência de confiança.
3. Aumentar radicalmente a produtividade brasileira
Esse talvez seja o ponto mais importante de todos. O Brasil não ficará rico simplesmente distribuindo melhor aquilo que produz pouco. Precisamos produzir mais valor. Um trabalhador brasileiro precisa conseguir produzir mais por hora trabalhada. Uma empresa brasileira precisa conseguir produzir mais, melhor e mais barato. Isso exige tecnologia, inovação, concorrência, digitalização, qualificação profissional, infraestrutura e um ambiente de negócios menos hostil. O país precisa parar de discutir apenas como dividir o bolo e começar a discutir seriamente como aumentar o tamanho do bolo. Não existe política social sustentável sem crescimento econômico. Não existe aumento consistente de renda sem aumento de produtividade. E não existe país desenvolvido que tenha construído prosperidade permanente apenas por transferência de renda. Precisamos criar uma economia capaz de gerar riqueza em escala.
4. Fazer uma revolução na educação
Se eu pudesse escolher apenas uma política para transformar o Brasil nas próximas duas décadas, seria educação. Mas não estou falando de simplesmente aumentar orçamento. Estou falando de resultado. Uma criança precisa sair dos primeiros anos de escola sabendo ler, escrever, interpretar texto e dominar matemática básica. Precisamos investir brutalmente em primeira infância, alfabetização, formação de professores, ensino integral onde fizer sentido e ensino técnico conectado às necessidades reais da economia. Precisamos medir aprendizagem e ter coragem de olhar para os resultados sem transformar qualquer avaliação em uma guerra ideológica. Uma criança que não aprende a ler aos oito ou nove anos carrega uma desvantagem que pode acompanhá-la por toda a vida. Um país que não consegue alfabetizar suas crianças não pode se apresentar como candidato a potência econômica. Educação não é apenas uma política social. É infraestrutura humana.
5. Construir a infraestrutura que o Brasil ainda não construiu
Um país continental precisa de logística compatível com seu tamanho. Precisamos de ferrovias, portos eficientes, rodovias em boas condições, saneamento, energia, transmissão, armazenagem e conectividade. O custo de transportar produtos dentro do Brasil ainda é alto demais. Isso reduz nossa competitividade, aumenta preços e dificulta a expansão das empresas. E aqui existe uma mudança importante de mentalidade: o Estado não precisa necessariamente construir tudo. Precisa criar regras estáveis, contratos confiáveis, segurança jurídica e condições para que o capital privado participe. Precisamos de planejamento de longo prazo e menos obras escolhidas por conveniência eleitoral. Infraestrutura não pode ser inaugurada apenas para produzir fotografia. Precisa produzir produtividade durante décadas.
6. Simplificar radicalmente o sistema tributário
O Brasil criou uma estrutura tributária tão complexa que muitas empresas precisam de verdadeiros exércitos para entender quanto devem pagar. Isso custa dinheiro, tempo e produtividade. O sistema tributário precisa ser mais simples, transparente e previsível. Precisamos reduzir distorções, diminuir exceções, combater privilégios setoriais e tornar mais claro quanto cada atividade efetivamente paga. A reforma tributária representa um avanço importante, mas simplificação não pode significar apenas trocar a forma de cobrar. Precisamos perseguir uma estrutura que reduza o custo de produzir, investir e empreender. O empresário deveria gastar mais energia pensando em como produzir melhor e menos energia tentando entender a legislação tributária.
7. Criar segurança jurídica e estabilidade institucional
Nenhum país consegue atrair investimento de longo prazo se as regras mudam o tempo inteiro. Quem investe milhões precisa saber quais serão as condições do jogo daqui a dez ou quinze anos. Segurança jurídica não significa proteger empresário contra qualquer regulação. Significa garantir que as regras sejam claras, que contratos sejam respeitados, que decisões tenham previsibilidade e que o ambiente institucional não dependa da vontade momentânea de uma autoridade. O investidor internacional compara países. O empresário brasileiro também. Se o Brasil oferece risco jurídico excessivo, o capital procura outro lugar. E capital não tem patriotismo. Ele procura segurança, retorno e previsibilidade.
8. Abrir a economia e aumentar a competição
O Brasil precisa parar de confundir proteção com desenvolvimento. Uma empresa protegida permanentemente da concorrência não necessariamente se torna competitiva. Muitas vezes ela apenas se acostuma à proteção. Precisamos aumentar gradualmente a integração comercial, reduzir barreiras desnecessárias e expor empresas brasileiras à competição internacional, ao mesmo tempo em que oferecemos condições para que elas possam se adaptar. O objetivo não deve ser destruir a indústria brasileira. Deve ser fazer a indústria brasileira competir. País rico não é aquele que consegue impedir seus cidadãos de comprar produtos estrangeiros. É aquele cujas empresas conseguem vender seus produtos para o mundo.
9. Transformar inovação, ciência e tecnologia em política de Estado
O mundo está entrando em uma transformação tecnológica gigantesca. Inteligência artificial, biotecnologia, automação, computação avançada, novas fontes de energia e novas tecnologias de produção vão redefinir economias inteiras. O Brasil não pode assistir a isso como espectador. Precisamos aproximar universidades, centros de pesquisa e empresas. Precisamos criar condições para que conhecimento vire produto, serviço, patente, empresa e produtividade. Não podemos formar pesquisadores apenas para produzir artigos acadêmicos que não chegam à sociedade. Precisamos construir uma ponte muito mais forte entre ciência e economia. O país que dominar conhecimento terá uma vantagem enorme sobre aquele que apenas consumir tecnologia produzida pelos outros.
10. Criar uma cultura nacional de longo prazo
Esse talvez seja o ponto mais difícil porque não depende apenas do governo. Depende de nós. O Brasil precisa aprender a pensar em vinte anos. Precisamos parar de avaliar tudo pelo resultado do próximo trimestre, da próxima eleição ou da próxima postagem. Uma política de educação pode levar quinze anos para produzir seus efeitos mais importantes. Uma ferrovia pode levar uma década para ficar pronta. Uma criança que recebe educação de qualidade hoje poderá aumentar a produtividade do país daqui a vinte anos. Uma reforma estrutural pode ser politicamente impopular durante alguns anos e produzir benefícios durante décadas. O problema é que nossa democracia recompensa muito o curto prazo. O político pensa na próxima eleição. O país precisa pensar na próxima geração. Precisamos construir algumas agendas que sobrevivam à alternância de poder. O Brasil precisa de governos diferentes, mas precisa também de um projeto nacional que não seja destruído a cada troca de governo.
E talvez essa seja a verdadeira questão
Quando olho para tudo isso pela lente da psicanálise, percebo que existe uma contradição profunda. Nós queremos um país adulto, mas muitas vezes nos comportamos politicamente como crianças. Queremos prosperidade, mas não queremos aceitar todas as condições necessárias para produzi-la. Queremos serviços públicos melhores, mas não queremos discutir a eficiência do Estado. Queremos impostos menores, mas defendemos benefícios quando eles nos favorecem. Queremos crescimento, mas resistimos à concorrência. Queremos políticos responsáveis, mas muitas vezes premiamos quem promete aquilo que sabemos que não pode ser entregue. Queremos mudança, mas temos dificuldade de abandonar comportamentos antigos. Talvez seja justamente por isso que continuamos presos em ciclos. Não basta trocar o governante se continuamos mantendo a mesma estrutura de funcionamento.
O Brasil precisa elaborar suas sombras. Precisa reconhecer que não existe apenas um culpado pela nossa situação. Precisa abandonar a fantasia do salvador e assumir responsabilidade pelo próprio futuro. Precisa compreender que direita e esquerda são instrumentos legítimos de organização política, mas que transformar essas posições em identidades absolutas é uma forma de empobrecimento intelectual. Não precisamos escolher entre pensar e sentir, entre economia e humanidade, entre responsabilidade fiscal e justiça social. Precisamos compreender que um país saudável precisa das duas coisas. Precisamos de sensibilidade para proteger quem precisa e racionalidade para construir as condições econômicas que tornam essa proteção sustentável.
Porque, no final, talvez o maior problema do Brasil não seja a falta de recursos, de inteligência ou de potencial. O problema é a nossa dificuldade histórica de transformar potencial em estrutura. Temos território, recursos naturais, energia, agricultura, mercado consumidor, universidades, empresários, trabalhadores, cientistas e uma capacidade enorme de criação. O que falta é transformar tudo isso em produtividade, instituições, planejamento e prosperidade sustentada. E isso não será feito por um salvador. Não será feito por um partido. Não será feito por uma ideologia. Será feito por instituições, decisões difíceis, educação, trabalho, investimento, responsabilidade e continuidade.
Freud nos ensinou sobre a repetição. Jung nos ensinou sobre a sombra. A neuropsicologia nos mostra como nossos vieses interferem na forma como percebemos o mundo. A filosofia nos obriga a perguntar que sociedade queremos construir. Mas nenhuma dessas áreas pode fazer a escolha por nós. Em algum momento, precisamos sair da interpretação e entrar na ação. O Brasil precisa olhar para o próprio inconsciente, reconhecer aquilo que repete, identificar aquilo que projeta, abandonar algumas fantasias e começar a construir uma realidade diferente.
Porque enquanto continuarmos discutindo apenas quem deve ocupar o poder, sem discutir seriamente o que precisa ser transformado no país, continuaremos presos ao mesmo ciclo. Trocaremos o presidente, trocaremos o partido, trocaremos a narrativa e trocaremos o inimigo, mas a estrutura permanecerá. E quando a estrutura permanece, o resultado tende a permanecer também.
O Brasil não precisa apenas trocar de presidente. Precisa mudar de funcionamento.
Precisa deixar a infância, atravessar a adolescência e finalmente assumir as responsabilidades da vida adulta.
E talvez a pergunta mais importante desta eleição não seja “quem vai ganhar?”.
Talvez seja:
que país queremos ser quando a próxima geração chegar à vida adulta?
Porque, se não respondermos essa pergunta com seriedade, continuaremos fazendo aquilo que já fazemos há décadas.
Repetindo.


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