A VIDA COMEÇA DEPOIS DA SOBREVIVÊNCIA

Parte I, A arte de sobreviver

“Até que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida e você o chamará de destino.”
Carl Gustav Jung

Passei boa parte da minha vida acreditando que estava vivendo. Durante muitos anos, se alguém me perguntasse se eu era feliz, provavelmente responderia que sim. Eu tinha um emprego, construía uma carreira, frequentava uma comunidade religiosa, sonhava com um futuro melhor, buscava ser um bom parceiro numa relação amorosa, um bom filho, um bom profissional. Aos olhos de quem observava de fora, tudo parecia caminhar na direção correta. Havia esforço, disciplina, responsabilidade e um profundo desejo de fazer as coisas certas. No entanto, muitos anos depois, compreendi que existe uma diferença silenciosa, quase imperceptível, entre viver e sobreviver. E essa talvez seja uma das maiores confusões que um ser humano pode cometer. É possível passar décadas sobrevivendo e chamar isso de vida.

Carl Gustav Jung dizia que a primeira metade da vida possui uma tarefa muito específica. Ela existe para que construamos um lugar no mundo. Precisamos desenvolver uma profissão, aprender a trabalhar, construir vínculos, estabelecer uma identidade social, conquistar autonomia financeira, formar uma família, descobrir como pertencemos à sociedade. Tudo isso é necessário. Nada disso é um erro. Pelo contrário, faz parte do desenvolvimento saudável da personalidade. O problema começa quando acreditamos que essa construção externa corresponde, necessariamente, ao nascimento da nossa verdadeira identidade. Nem sempre corresponde. Muitas vezes, aquilo que chamamos de personalidade é apenas um sofisticado mecanismo de adaptação.

Jung deu um nome a esse mecanismo. Chamou-o de Persona. A Persona não é uma mentira. Ela é uma necessidade. É a máscara psicológica que utilizamos para ocupar um lugar no mundo. O filho aprende como deve se comportar para ser amado. O aluno aprende o que precisa fazer para ser reconhecido. O profissional descobre quais competências serão valorizadas. O marido aprende o papel esperado de um marido. O líder aprende como deve agir diante da equipe. Pouco a pouco, vamos vestindo essas roupas simbólicas até que esquecemos que um dia elas foram apenas roupas. Passamos a acreditar que somos aquilo que precisávamos representar para continuar pertencendo.

Talvez seja exatamente por isso que a primeira metade da vida seja tão eficiente em produzir pessoas competentes e, ao mesmo tempo, profundamente desconhecidas de si mesmas. Aprendemos a resolver problemas, mas não aprendemos a perguntar quais problemas realmente eram nossos. Aprendemos a conquistar reconhecimento, mas raramente perguntamos quem estaríamos tentando convencer. Aprendemos a cumprir expectativas, porém quase nunca investigamos se aquelas expectativas nasceram do nosso desejo ou do medo de perder amor, aprovação ou pertencimento.

Quando olho para trás, percebo que muitas decisões que imaginei livres talvez nunca tenham sido verdadeiramente livres. Eu acreditava estar escolhendo caminhos, mas, em grande parte das vezes, apenas respondia a necessidades muito mais antigas do que eu conseguia enxergar. Queria ser aceito. Queria ser admirado. Queria construir uma família sólida. Queria provar que era capaz. Queria que alguém olhasse para mim e dissesse: “Você conseguiu.” Na época, esses desejos pareciam absolutamente naturais. Hoje percebo que eles eram respostas a perguntas que eu sequer sabia formular.

É curioso como a infância nunca termina da forma como imaginamos. O corpo cresce, a barba aparece, os diplomas chegam, a conta bancária muda, as responsabilidades aumentam, mas a criança continua caminhando silenciosamente ao nosso lado. Não porque permaneçamos infantis, mas porque os primeiros anos da vida organizam a maneira como passaremos a interpretar o mundo. A criança que precisou lutar para sentir-se segura transforma-se, muitas vezes, no adulto que nunca consegue descansar. A criança que aprendeu que precisava merecer amor torna-se o adulto que trabalha sem parar para justificar a própria existência. A criança que descobriu cedo que perder vínculos era perigoso transforma-se no adulto que faz qualquer coisa para evitar conflitos, mesmo que, para isso, precise abandonar a si mesmo.

Jung afirmava que os complexos psicológicos não são apenas lembranças do passado. Eles são núcleos vivos de emoção que continuam organizando nossas escolhas muito tempo depois de esquecermos como nasceram. É por isso que tantas pessoas acreditam estar tomando decisões racionais quando, na verdade, apenas obedecem a antigas estratégias de sobrevivência. Mudam de cidade, trocam de emprego, iniciam relacionamentos, encerram outros, entram em igrejas, deixam igrejas, constroem empresas, escrevem livros, fazem pós-graduações, acumulam títulos, compram casas, conquistam cargos importantes, mas continuam respondendo às mesmas perguntas inconscientes formuladas ainda na infância. O cenário muda. O personagem envelhece. O roteiro permanece praticamente o mesmo.

Há algo profundamente humano nisso. Sobreviver é uma das capacidades mais extraordinárias que possuímos. Quando uma criança cresce em ambientes inseguros, ela aprende rapidamente a desenvolver recursos para continuar existindo. Algumas tornam-se extremamente responsáveis. Outras tornam-se excelentes observadoras. Algumas desenvolvem um humor refinado. Outras aprendem a antecipar conflitos para evitá-los. Há quem se torne perfeccionista. Há quem se transforme em cuidador de todos ao redor. Há quem faça do trabalho um refúgio. Há quem descubra na espiritualidade um lugar de proteção. Nada disso deve ser desprezado. Essas estratégias permitiram que muitas pessoas atravessassem desertos emocionais que talvez não suportassem de outra forma. O problema não está em sobreviver. O problema aparece quando a sobrevivência continua sendo o único modo possível de existir, mesmo depois de o perigo já ter passado.

Essa é uma das ideias mais bonitas de Jung. A psique é sábia. Ela cria recursos para proteger a vida. Entretanto, aquilo que protege em determinado momento pode aprisionar em outro. A armadura que salva um soldado durante a batalha torna-se pesada demais quando a guerra termina. O escudo que impede uma criança de ser destruída emocionalmente pode impedir o adulto de experimentar intimidade, liberdade e espontaneidade. O mecanismo que um dia preservou a existência transforma-se, silenciosamente, na prisão da própria existência.

Talvez seja por isso que tantas pessoas chegam à meia-idade experimentando um estranho sentimento de vazio. Elas fizeram tudo o que acreditavam que deveriam fazer. Estudaram. Casaram. Trabalharam. Criaram filhos. Construíram patrimônio. Tornaram-se respeitadas. Ainda assim, alguma coisa continua faltando. Não se trata de ingratidão. Também não é fracasso. É apenas o momento em que a alma começa a perguntar algo que nunca havia perguntado antes: “Tudo isso ajudou você a sobreviver. Mas quem é você quando já não precisa apenas sobreviver?”

Essa pergunta costuma assustar. Porque ela desmonta uma ilusão cuidadosamente construída durante décadas. Descobrimos que muitos dos nossos papéis eram necessários, mas não suficientes. Descobrimos que desempenhamos personagens com tanta competência que esquecemos de procurar o autor da própria história. Descobrimos que é possível ser um excelente profissional e, ainda assim, sentir-se vazio. É possível ser admirado e continuar inseguro.

É possível estar cercado de pessoas e permanecer profundamente sozinho. É possível dedicar a vida inteira ao amor e nunca ter aprendido a amar a própria existência.

A primeira metade da vida, portanto, não é uma mentira. Ela é uma preparação. Ela nos ensina disciplina, responsabilidade, compromisso, perseverança e capacidade de suportar o sofrimento. Seria injusto desprezá-la. Eu não desprezo. Hoje, olhando para trás, sinto profunda gratidão pelo homem que fui durante tantos anos. Ele suportou pesos que eu não suportaria mais. Trabalhou quando estava cansado. Continuou caminhando quando tinha vontade de desistir. Manteve-se de pé quando tudo parecia desmoronar. Fez o melhor que podia com a consciência que possuía naquele momento. Sobreviveu. E sobreviver, às vezes, é um ato de coragem silenciosa que ninguém vê.

Mas há uma verdade que demorei muitos anos para compreender, e talvez ela seja a razão pela qual escrevo estas linhas. Sobreviver é indispensável, porém insuficiente. Existe um momento em que a vida nos chama para algo que nenhuma estratégia de adaptação consegue oferecer. Existe um momento em que já não basta continuar funcionando. É preciso começar a existir. E é justamente aí que a primeira metade da vida termina. Não quando fazemos quarenta ou cinquenta anos. Não quando os cabelos embranquecem. Ela termina no instante em que percebemos que toda a casa que construímos para proteger o Ego talvez nunca tenha sido, de fato, o lugar onde nossa alma desejava morar.

Continua…

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