Por que a nossa mente não desliga mais?

Nos últimos anos, tenho ouvido uma queixa cada vez mais comum dentro do consultório. Ela aparece em pessoas de diferentes idades, profissões e histórias de vida. Algumas chegam dizendo que não conseguem relaxar. Outras relatam dificuldade para dormir. Muitas afirmam que o corpo está cansado, mas a mente continua funcionando como se estivesse ligada em velocidade máxima. Quando a noite chega, elas deitam na cama, apagam as luzes, fecham os olhos e descobrem que existe uma parte delas que simplesmente não consegue parar. Os pensamentos continuam chegando. As preocupações continuam circulando. As lembranças aparecem. Os cenários futuros são criados. Os problemas são antecipados. E aquilo que deveria ser um momento de descanso se transforma em mais uma jornada de atividade mental.

Como psicanalista, essa é uma das questões que mais me chamam atenção atualmente. Porque não estamos falando apenas de ansiedade clínica. Estamos falando de uma transformação muito mais profunda na forma como a mente humana passou a funcionar dentro da sociedade moderna. Existe algo acontecendo em escala coletiva. Não se trata apenas de indivíduos adoecidos. Talvez estejamos vivendo em uma cultura que produz, estimula e recompensa estados permanentes de ativação mental.

A neurociência tem se dedicado a entender esse fenômeno. E os resultados são bastante reveladores. O cérebro humano evoluiu durante centenas de milhares de anos em ambientes completamente diferentes daquele em que vivemos hoje. Durante praticamente toda a história da humanidade, nossos ancestrais precisavam lidar com uma quantidade relativamente limitada de estímulos. O foco estava voltado para sobrevivência, alimentação, proteção, vínculos sociais e observação do ambiente. O cérebro que carregamos hoje é praticamente o mesmo cérebro daquele período. O que mudou radicalmente foi o mundo ao nosso redor.

Pela primeira vez na história, uma pessoa comum pode carregar no bolso mais informação do que reis, filósofos e governantes possuíam durante toda a vida. O problema é que o cérebro não evoluiu para processar essa quantidade de estímulos. Estudos realizados em universidades como Stanford, Harvard e University of California vêm demonstrando que a atenção humana é um recurso extremamente limitado. Diferentemente do que muitos acreditam, nosso cérebro não é eficiente realizando múltiplas tarefas simultaneamente. O que ele faz é alternar rapidamente entre uma atividade e outra. Cada troca consome energia mental. Cada interrupção exige uma nova reorganização cognitiva. Quando esse processo se repete centenas de vezes por dia, a consequência é uma sensação permanente de desgaste.

Talvez você já tenha percebido isso sem conhecer os estudos. Você pega o celular para responder uma mensagem e, alguns minutos depois, está vendo notícias, vídeos, comentários, anúncios e conteúdos que nem sequer procurava originalmente. Quando finalmente retorna ao que estava fazendo, sente dificuldade para recuperar o mesmo nível de concentração. Isso não acontece porque você perdeu inteligência. Acontece porque o cérebro está sendo constantemente treinado para fragmentar a atenção.

Essa fragmentação gera um efeito que raramente discutimos. As experiências mais importantes da vida exigem profundidade. Um relacionamento profundo exige atenção. O aprendizado exige atenção. A reflexão exige atenção. O autoconhecimento exige atenção. A espiritualidade exige atenção. No entanto, estamos vivendo em uma sociedade que nos condiciona diariamente a permanecer apenas na superfície das coisas. Consumimos fragmentos de informações, fragmentos de conversas, fragmentos de experiências e, aos poucos, perdemos a capacidade de permanecer tempo suficiente em uma mesma atividade para que ela gere significado.

O papel da Dopamina em tudo isso

Existe ainda outro aspecto extremamente importante nessa discussão. Durante muito tempo, a dopamina ficou conhecida popularmente como o hormônio do prazer. Hoje sabemos que essa definição está incompleta. A dopamina está muito mais relacionada à antecipação de recompensas do que ao prazer em si. Ela é uma espécie de combustível da busca. É ela que nos impulsiona a explorar, procurar, descobrir e antecipar resultados. Em condições naturais, esse mecanismo foi essencial para a sobrevivência humana. O problema é que a economia digital aprendeu a explorar esse sistema com uma eficiência impressionante.

Cada curtida, cada comentário, cada vídeo curto, cada notificação e cada novidade que aparece na tela produz pequenas liberações dopaminérgicas. O cérebro aprende rapidamente esse padrão e passa a desejar novas recompensas constantemente. Pesquisas recentes publicadas em revistas científicas de neurociência mostram que a exposição contínua a estímulos rápidos altera a percepção de valor das atividades cotidianas. Em outras palavras, quanto mais acostumado o cérebro está com recompensas instantâneas, mais difícil se torna encontrar interesse em processos lentos.

Talvez seja por isso que tantas pessoas conseguem passar horas assistindo vídeos curtos sem perceber o tempo passar, mas encontram enorme dificuldade para ler um livro, estudar um tema complexo ou simplesmente permanecer em silêncio. Não estamos diante de um problema moral. Não é falta de força de vontade. Estamos diante de uma adaptação neurológica. O cérebro está aprendendo a funcionar de acordo com os estímulos que recebe.

Mas existe uma camada ainda mais profunda

Como psicanalista, porém, acredito que existe uma camada ainda mais profunda nessa questão. Freud observou algo que continua extremamente atual. O ser humano não é movido apenas por necessidades biológicas. Ele é movido pelo desejo. E o desejo possui uma característica curiosa: ele nasce da falta. Desejamos aquilo que ainda não possuímos. Buscamos aquilo que ainda não alcançamos. O problema é que a cultura contemporânea construiu um modelo de funcionamento baseado na eliminação de qualquer experiência de espera. Tudo precisa acontecer imediatamente. As respostas são imediatas. O entretenimento é imediato. O consumo é imediato. A comunicação é imediata.

Mas existe uma consequência psicológica para isso. Quando tudo está disponível o tempo inteiro, o desejo enfraquece. A espera faz parte da construção do desejo. A expectativa faz parte da construção do significado. Quando eliminamos completamente esses processos, começamos a viver em um estado de satisfação superficial permanente, mas de realização profunda cada vez menor. Temos acesso a quase tudo e, paradoxalmente, sentimos menos entusiasmo por aquilo que temos.

Jacques Lacan aprofundou ainda mais essa reflexão ao afirmar que existe uma falta estrutural na experiência humana. Nunca estaremos completamente satisfeitos. Sempre existirá algo que escapa. Sempre existirá algo que permanece incompleto. E talvez seja justamente isso que nos mantém em movimento. O problema é que a sociedade moderna vende uma promessa diferente. Ela promete felicidade definitiva. Promete completude. Promete que existe um produto, uma experiência ou uma conquista capaz de resolver definitivamente o vazio humano. Quando essa promessa não se cumpre, muitas pessoas concluem que há algo de errado com elas, quando na verdade estão apenas vivendo a condição humana.

Estamos cada vez mais expostos

Existe ainda um fator que merece atenção especial. O excesso de exposição emocional. Nunca tivemos acesso tão rápido ao sofrimento do mundo. Em poucos minutos podemos assistir a guerras, tragédias, acidentes, crises econômicas, conflitos políticos e problemas sociais acontecendo em diferentes continentes. Nosso cérebro não foi projetado para processar sofrimento em escala global durante vinte e quatro horas por dia. Como mecanismo de proteção, ele começa a reduzir a intensidade da resposta emocional. É um processo conhecido por muitos pesquisadores como dessensibilização. A mente não para de sentir. Ela aprende a sentir menos para conseguir suportar o excesso.

Talvez isso explique por que tantas pessoas relatam uma sensação estranha de apatia. Elas não estão necessariamente deprimidas. Elas estão sobrecarregadas. Recebem mais informações do que conseguem elaborar. São expostas a mais problemas do que conseguem resolver. Vivem em contato com mais estímulos do que conseguem processar. O resultado é uma mente permanentemente ativada e emocionalmente cansada.

O que podemos fazer para nos salvar?

A solução para esse problema não está em abandonar a tecnologia. Isso seria irrealista. A solução está em recuperar aquilo que a tecnologia acabou ocupando: os espaços de pausa. A neurociência mostra que o cérebro precisa de períodos de recuperação para reorganizar informações, consolidar memórias e regular emoções. O descanso não é um luxo. É uma necessidade biológica. Caminhar sem o celular, praticar atividade física, reduzir notificações, estabelecer momentos sem telas e cultivar períodos de silêncio não são hábitos antigos. São estratégias modernas de proteção neurológica.

Do ponto de vista psicanalítico, existe algo igualmente importante. Precisamos voltar a escutar a nós mesmos. Muitas pessoas vivem ocupadas o tempo inteiro porque têm medo do silêncio. O problema é que o silêncio não elimina os conflitos internos. Ele apenas os revela. E talvez seja exatamente por isso que ele se tornou tão raro. Quando nos permitimos parar, começamos a ouvir perguntas que passamos anos tentando evitar. Quem sou eu? O que realmente desejo? O que estou fazendo com a minha vida? O que estou tentando compensar através de tanta correria?

Talvez a nossa mente não esteja falhando. Talvez ela esteja apenas tentando sobreviver a um ambiente que exige atenção permanente. E talvez a verdadeira revolução dos próximos anos não seja tecnológica. Talvez seja humana. A capacidade de desacelerar, de recuperar a profundidade e de voltar a habitar a própria vida pode se tornar uma das habilidades mais valiosas do nosso tempo.

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