Atendo exclusivamente online, e talvez por isso eu escute histórias vindas de muitos lugares, mas que se repetem no conteúdo. Em uma dessas sessões, uma paciente iniciou o atendimento dizendo algo que já ouvi mais de uma vez:
“Eu sou assim porque sou de Escorpião. Sou vingativa mesmo. Não consigo perdoar.”
Ela não dizia isso com ironia. Dizia com convicção. Havia ali uma explicação pronta, fechada, confortável. E, do ponto de vista psicanalítico, isso é tudo, menos inocente.
A astrologia, nesse caso, não aparecia como curiosidade ou metáfora. Ela surgia como identidade, como álibi psíquico, como uma forma de encerrar o assunto antes mesmo de ele começar. Se “é do signo”, então não há o que investigar. Não há o que responsabilizar. Não há o que elaborar.
Na clínica, quando alguém se define por uma categoria fixa — seja um diagnóstico, um rótulo ou um signo —, eu não escuto aquilo como verdade, mas como defesa.
A função psíquica do signo: aliviar a angústia de ser responsável
A psicanálise nos ensina que o sujeito sofre, entre outras coisas, por ter que lidar com a própria história, com seus afetos ambivalentes, com sua agressividade, sua culpa e sua incapacidade de perdoar. Isso dói. Isso exige trabalho psíquico.
A astrologia, quando usada dessa forma, oferece um atalho sedutor:
👉 o problema não está em mim, está no céu.
Do ponto de vista científico, esse deslocamento já começa sobre bases frágeis. As chamadas constelações do zodíaco não existem como entidades físicas reais. São construções simbólicas criadas por seres humanos que ligaram estrelas visualmente próximas, embora essas estrelas estejam a distâncias completamente diferentes entre si e sem qualquer relação gravitacional ou causal.
Além disso, não existem apenas doze constelações no caminho aparente do Sol. Do ponto de vista astronômico, o Sol atravessa mais de vinte constelações ao longo do ano. As doze foram selecionadas historicamente, principalmente na Babilônia antiga, por conveniência simbólica e matemática, não por qualquer critério natural. Outras constelações, como Ofiúco, simplesmente foram excluídas para que o sistema permanecesse fechado e coerente.
Ou seja, não foi o céu que se impôs ao homem. Foi o homem que organizou o céu de acordo com suas narrativas.
O problema não é acreditar em astrologia. É usá-la para não se analisar.
Outro dado importante, muitas vezes ignorado, é que o próprio mapa astrológico utilizado hoje não corresponde mais ao céu real. Devido a um fenômeno astronômico chamado precessão dos equinócios, o eixo da Terra muda lentamente ao longo dos séculos. Isso faz com que as posições das constelações se desloquem. O resultado é simples: quem acredita ser de um signo, astronomicamente, nasceu sob outro.
A astrologia opera, portanto, com um céu congelado há mais de dois mil anos.
Ainda assim, o problema central não está apenas na inconsistência científica, mas no uso subjetivo que se faz disso. Quando alguém diz “eu não perdoo porque sou de Escorpião”, essa frase carrega uma armadilha psíquica perigosa: ela transforma uma construção simbólica antiga em uma sentença identitária, quase biológica, como se o psiquismo não fosse histórico, relacional e passível de transformação.
A busca por algo que explique, contenha e complete o sujeito
Aqui entramos em uma dimensão ainda mais profunda — e talvez mais honesta — do fenômeno.
O ser humano busca, desde muito cedo, algo que o explique, que o organize e que funcione como um continente psíquico. Donald Winnicott nos ajuda a entender isso quando descreve o estágio inicial da vida em que o bebê não se percebe como um ser separado da mãe. Nesse momento, há uma vivência de unidade: o bebê é a mãe, e a mãe é o mundo.
Quando essa ilusão começa a ruir — e ela precisa ruir —, a criança se depara com algo devastador: a percepção de que não é tudo, de que não controla, de que está só. Surge então uma angústia primitiva, sem nome, sem linguagem, impossível de ser simbolizada plenamente.
A partir daí, inicia-se uma busca: por uma mãe suficientemente boa, por um pai que organize, por algo que diga quem ela é, de onde vem, por que sente o que sente.
Na vida adulta, essa busca não desaparece. Ela apenas muda de objeto.
Olhar para as estrelas, nesse sentido, pode funcionar como uma tentativa inconsciente de recuperar essa experiência perdida: uma instância externa, maior, organizada, que diga ao sujeito:
“Você é assim por minha causa.
Não por você.
Eu te explico.
Eu te defino.”
O signo, assim como certas formas de religião, filosofias, crenças — e até alguns usos do saber acadêmico — pode ocupar esse lugar: o lugar de um Outro que sabe, que contém, que dá sentido, que alivia a angústia de não saber quem se é.
Quando o saber vira colo, e não pergunta
O problema não está na busca por sentido — ela é constitutiva do humano. O problema surge quando essa busca impede o sujeito de suportar a própria incompletude.
Signos, crenças, sistemas fechados de explicação podem funcionar como uma promessa inconsciente de completude: “se eu sou isso, então está explicado; se está explicado, não dói tanto; se não dói, não preciso olhar”.
A psicanálise, ao contrário, não promete colo eterno. Ela oferece algo mais difícil e mais verdadeiro: a possibilidade de sustentar a falta sem tamponá-la com respostas prontas.
Astrologia como narrativa fechada vs. psicanálise como pergunta aberta
A astrologia oferece respostas prontas.
A psicanálise oferece perguntas incômodas.
A astrologia diz: “você é assim”.
A psicanálise pergunta: “quando você precisou ser assim pela primeira vez?”
Enquanto a astrologia tende a cristalizar o sujeito, a psicanálise aposta na possibilidade de mudança — e isso assusta. Mudar implica abrir mão de defesas que um dia foram necessárias.
Perdoar, por exemplo, não tem relação com a posição dos astros, mas com:
experiências precoces de traição ou abandono; medo de se tornar vulnerável; dificuldade de abrir mão da posição de vítima; identificações inconscientes com figuras agressivas do passado; gozos psíquicos sustentados pela mágoa.
Nada disso está no céu. Tudo isso está na história.
O céu não explica o que o inconsciente repete
A astrologia não oferece nenhum mecanismo causal verificável que explique como planetas ou constelações influenciariam personalidade, caráter ou capacidade emocional. Não há força física, química ou biológica capaz de sustentar essa ideia. Sem mecanismo, não há causalidade — apenas narrativa.
Quando alguém transfere para o signo aquilo que pertence ao inconsciente, perde a maior oportunidade que a análise oferece: assumir a própria posição subjetiva, inclusive o desejo de não perdoar, para então poder elaborá-lo.
A psicanálise não julga.
Mas também não absolve o sujeito de si mesmo.
Não é Escorpião. É humano.
Ao longo do processo analítico, aquela paciente começou a perceber algo fundamental: usar o signo como explicação era uma forma sofisticada de fugir da própria dor. Não por fraqueza, mas porque olhar para a própria história exige coragem.
Não atendo o céu.
Atendo pessoas.
E pessoas não são regidas por estrelas, mas por vínculos, perdas, repetições e desejos inconscientes.
A astrologia pode até funcionar como metáfora ou mito.
Mas somente a análise permite reescrever a própria história.
Se você quiser estudar a psicanálise, eu posso te ajudar. Clique no link abaixo:
https://www.institutojmv.com/curso-psicanalise-online



Deixe um comentário