Não existe guerra por liberdade.
Não existe sanção por amor ao povo.
Não existe soberania em nome do outro.
Existe poder.
Existe potência.
Existe o falo.
A relação entre EUA e Venezuela não é um embate entre bem e mal, democracia e tirania, liberdade e opressão. Isso é narrativa — e narrativa serve para anestesiar consciências frágeis que ainda acreditam em boas intenções coletivas. O que existe ali é mais antigo que qualquer ideologia: uma disputa fálica.
Na psicanálise, o falo não é o órgão. É o símbolo da potência, do domínio, da validação narcisista. Quem tem o falo manda. Quem perde o falo obedece. O mundo não é organizado por valores; é organizado por hierarquias de potência.
EUA: não libertam, dominam
A fantasia de que os Estados Unidos agem para libertar povos oprimidos não resiste a cinco minutos de análise psicanalítica honesta. O que está em jogo nunca foi a liberdade do outro, mas a afirmação da própria potência.
Freud já havia desmontado essa ilusão ao mostrar que o ser humano não age movido pelo bem comum, mas por pulsões — especialmente as de domínio e agressividade (pulsão de morte, Trieb). A política internacional é o palco mais explícito dessas pulsões, pois ali o superego moral é fraco e o ego coletivo se sente autorizado a agir.
Quando os EUA impõem sanções, ameaçam, pressionam, não estão dizendo “queremos ajudar vocês”. Estão dizendo:
“Nós podemos. Nós mandamos. Nosso falo é maior.”
É o narcisismo das grandes potências, descrito por Freud em Psicologia das Massas, operando em escala global. A nação se vê como centro do mundo, portadora da razão, da moral, da verdade — e tudo isso serve apenas para justificar a expansão do próprio poder.
Nietzsche já havia denunciado isso de forma brutal:
“Toda moral é apenas uma linguagem da vontade de potência.”
Libertar o outro é uma narrativa bonita. Mas o motor real é sempre o mesmo: aumentar a própria potência e reduzir a do outro.
Venezuela: não protege o povo, protege o falo
Do outro lado, a fantasia também precisa cair. A ideia de que o Estado venezuelano luta pela soberania do povo é igualmente ingênua. Não se trata do povo. Trata-se do controle.
O poder não suporta ser ameaçado. Lacan foi direto: o sujeito não busca o bem do outro, busca manter sua posição no simbólico. Perder o poder é perder o lugar, perder o nome, perder o falo.
Quando o governo venezuelano fala em soberania, resistência, independência, está dizendo:
“Não vamos abrir mão do nosso falo.”
O povo é sempre o álibi. O discurso é sempre coletivo. Mas a motivação é estruturalmente individual: manter o lugar de dominação. Hannah Arendt já mostrou que regimes autoritários não se sustentam por ideologia, mas por manutenção do poder a qualquer custo.
Nenhum governante abdica voluntariamente da própria potência. Isso não é perversidade pessoal — é estrutura psíquica.
Não há santos. Nunca houve.
Aqui está o ponto que mais incomoda:
ninguém faria diferente.
Acreditar que, se estivesse no lugar, agiria de forma ética, altruísta, humana, é puro narcisismo moral. É a fantasia do “eu sou melhor”. A psicanálise desmonta isso sem piedade.
O ser humano é um animal simbólico que busca mais potência, mais reconhecimento, mais controle. A biologia já mostra isso nas disputas por território, liderança, reprodução. A filosofia apenas sofisticou o discurso. A política apenas institucionalizou a violência.
Schopenhauer já dizia que a vontade é cega e insaciável. Freud traduziu isso em pulsão. Nietzsche chamou de vontade de potência. Lacan mostrou que isso se estrutura na linguagem. Muda o vocabulário — o motor é o mesmo.
Não há ideologia capaz de conter isso. Toda ideologia é apenas um verniz simbólico sobre a mesma pulsão primitiva.
A ingenuidade ideológica
Acreditar em discursos políticos como se fossem morais é uma forma de infantilismo psíquico. É a necessidade neurótica de acreditar que existe um “pai bom” no poder.
Mas o pai do mundo é fálico.
E o falo não cuida — domina.
Quem acredita que guerras, sanções, bloqueios ou discursos inflamados são feitos “pelo outro” ainda não atravessou a própria análise. Ainda precisa acreditar que alguém, em algum lugar, age sem buscar validação narcísica.
O problema não é EUA.
Não é Venezuela.
Não é direita nem esquerda.
O problema é o ser humano.
E enquanto houver linguagem, poder e desejo, haverá disputa fálica. O mundo não caminha para a ética; caminha para formas mais sofisticadas de dominação.
Isso não é pessimismo.
É lucidez.
E lucidez dói.
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