Nunca evoluímos: uma leitura psicanalítica da guerra, do ego humano e da esperança de salvação

“A barbárie não foi superada, apenas foi adormecida”, disse Freud, no fim da segunda guerra mundial, em 1945. Oitenta anos depois, aqui estamos nós, com medo de mais uma guerra, talvez a última. É a compulsão à repetição em sua forma clássica, conteúdo mal elaborado, o retorno do recalcado em forma de armas nucleares.

Eu estava assistindo às notícias sobre as supostas negociações de paz entre Rússia e Ucrânia, mediadas pelos Estados Unidos, quando me peguei em silêncio. Não era um silêncio de alívio. Era um silêncio desconfortável. Aquele silêncio que surge quando algo toca em camadas mais profundas do psiquismo, onde as respostas não vêm prontas.

Enquanto os comentaristas falavam de acordos, interesses estratégicos, corredores humanitários, eu não conseguia deixar de pensar em outra coisa: como é possível que, depois de tudo, ainda estejamos aqui? Outra vez. De novo. Com as mesmas ameaças, os mesmos discursos, os mesmos jogos de poder, só que com armas mais sofisticadas.

Como psicanalista, eu não consigo olhar para uma guerra apenas como um evento político ou militar. Guerras são, antes de tudo, atuações psíquicas coletivas. São sintomas. São repetições. São o retorno daquilo que nunca foi elaborado.

E talvez esse seja o ponto mais incômodo de admitir: nunca elaboramos as grandes guerras que vivemos.

A ilusão do progresso

Nós gostamos de acreditar que evoluímos. E, de fato, evoluímos — mas quase exclusivamente no campo tecnológico. Produzimos máquinas que pensam, algoritmos que preveem comportamentos, sistemas capazes de destruir o planeta dezenas de vezes. Mas emocionalmente, psicologicamente, seguimos muito próximos do mesmo homem primitivo que precisava defender sua caverna, seu território, sua honra.

Freud, após a Primeira Guerra Mundial, escreveu textos profundamente pessimistas sobre a civilização. Ele percebeu algo que hoje se torna ainda mais evidente: a cultura não domestica totalmente a pulsão de morte. Ela apenas a adia, a desloca, a disfarça. Em certos momentos históricos, esse disfarce cai.

A Primeira Guerra Mundial foi um choque narcísico para a humanidade. A crença iluminista de que a razão nos levaria ao progresso ruiu nas trincheiras. A Segunda Guerra foi ainda pior: mostrou que não apenas somos capazes de matar em massa, mas de fazê-lo de forma industrial, burocrática, racionalizada. O Holocausto não foi um surto emocional — foi um projeto organizado.

A Guerra Fria, por sua vez, não terminou de verdade. Ela apenas foi congelada no inconsciente coletivo, sustentada pela ameaça nuclear, pelo medo constante, pela paranoia. E como todo conteúdo reprimido, ela retorna. Às vezes, de forma deslocada. Às vezes, de forma brutal.

Nações também têm ego

Um erro comum é analisar países como se fossem entes puramente racionais. Não são. Nações têm ego, têm identidade, têm feridas narcísicas, têm traumas não elaborados.

A Rússia, por exemplo, carrega marcas profundas. Invasões sucessivas, perdas humanas gigantescas, o colapso da União Soviética vivido internamente como humilhação. O que para o Ocidente foi “libertação”, para muitos russos foi caos, miséria, perda de lugar no mundo. Um ego coletivo ferido não busca equilíbrio; busca reparação.

Quando escuto discursos expansionistas, ameaças veladas, jogos de medo, não ouço apenas estratégia geopolítica. Ouço um sujeito coletivo dizendo: “não me façam desaparecer”. É o mesmo movimento psíquico que vemos em indivíduos dominados pelo narcisismo patológico: a necessidade de controle nasce do medo profundo de aniquilação.

Mas não nos enganemos. Isso não é exclusividade da Rússia. O Ocidente apenas joga o jogo de outra forma — mais sofisticada, mais simbólica, mais institucionalizada. O ego humano, quando ferido, sempre encontra um modo de se defender.

A repetição como destino

Na clínica, aprendemos que aquilo que não é simbolizado retorna como repetição. O paciente repete padrões, relações, escolhas, sofrimentos. Não porque queira sofrer, mas porque não conseguiu dar sentido à dor original.

A humanidade faz exatamente a mesma coisa.

Nunca elaboramos:

– a violência

– o desejo de dominação

– o prazer inconsciente da destruição

– a sedução do poder

– a dificuldade de lidar com limites

Falamos em paz, mas seguimos fascinados pela guerra. Ela ainda mobiliza, ainda dá sentido, ainda cria heróis, ainda organiza narrativas. No fundo, a guerra oferece algo que muitos sujeitos e nações perderam: uma identidade clara.

O medo nuclear e a fantasia da extinção

Vivemos sob a sombra da destruição nuclear há décadas. Sabemos, racionalmente, que uma guerra desse tipo não teria vencedores. Sabemos que o planeta entraria em colapso. E, ainda assim, seguimos flertando com essa possibilidade, discursivamente, simbolicamente.

Por quê?

Porque o ser humano tem uma relação ambígua com a própria extinção. Existe medo, sim. Mas também existe uma fantasia inconsciente de alívio: “se tudo acabar, o conflito acaba”. É duro dizer isso, mas a pulsão de morte não é apenas destruição do outro — é também desejo de cessação do sofrimento.

Talvez por isso tantas pessoas sintam, ao mesmo tempo, pavor e fascínio diante da ideia de um fim global.

A esperança de que algo nos salve

É nesse ponto que entram as fantasias contemporâneas sobre a inteligência artificial, os robôs, as máquinas que pensam melhor do que nós. Não é apenas admiração tecnológica. É uma fantasia de salvação.

Como se disséssemos, inconscientemente: “talvez nós não sejamos capazes. Talvez algo mais racional, menos emocional, devesse assumir”.

Mas aqui é preciso ser claro: máquinas não têm inconsciente. Não sofrem. Não desejam. Não lidam com angústia, culpa, responsabilidade. Elas apenas operam. Pelo menos por enquanto.

Uma humanidade governada por máquinas não seria uma humanidade evoluída. Seria uma humanidade que abdicou de si mesma. E isso não é evolução; é desistência.

Nunca evoluímos

Essa é a frase que ecoa em mim enquanto observo o mundo: nunca evoluímos. Ou, ao menos, não no ritmo necessário para sustentar o poder que adquirimos.

Continuamos:

– movidos por orgulho

– feridos por humilhações antigas

– organizados em tribos simbólicas

– incapazes de sustentar frustração

– dependentes de inimigos para nos definir

A tecnologia apenas amplifica isso. Dá escala. Dá velocidade. Dá poder.

O problema nunca foi a arma. Sempre foi a mão que a segura e o psiquismo que a justifica.

Existe alguma saída?

Como psicanalista, eu não acredito em soluções mágicas. Não acredito em salvação externa. Não acredito que algo “virá nos salvar”.

Se existe alguma possibilidade de mudança, ela passa por algo que evitamos há séculos: olhar para nossa própria sombra. Reconhecer nossa agressividade. Nosso prazer inconsciente na dominação. Nossa dificuldade em aceitar limites e perdas.

Na clínica, a análise não elimina o conflito. Ela o torna consciente. Talvez seja isso que falte à humanidade: consciência. Não no sentido intelectual, mas no sentido ético e emocional.

Enquanto não formos capazes de elaborar nossos traumas, individuais e coletivos, seguiremos repetindo. Com espadas, com canhões, com bombas, com algoritmos.

O cenário muda. O palco muda.

O roteiro é o mesmo.

E talvez o maior drama da nossa espécie seja este: sabemos tudo, menos lidar conosco mesmos.

Esse texto não é um manifesto. Não é uma tese. É apenas o registro de uma inquietação. A inquietação de alguém que escuta o sofrimento humano todos os dias e percebe que, em escala global, seguimos presos às mesmas armadilhas psíquicas.

Se houver esperança, ela não virá da tecnologia, da política ou da força. Ela virá (se vier) da capacidade humana de suportar a verdade sobre si. Não tenho muita esperança de que isso aconteça, de fato. Mas, parece-me a única saída.

E essa, historicamente, sempre foi a parte mais difícil.

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