Atendo uma paciente que vive um dilema que, honestamente, é mais comum do que muitos imaginam. Ela ama. E ama de verdade. Não no sentido romântico idealizado apenas, mas no sentido mais freudiano possível: há desejo, há libido, há tesão, há corpo, fantasia e prazer. Nada mais humano — e nada mais psicanalítico — do que isso.
O problema não está no desejo em si. O problema é o lugar onde esse desejo se apoia.
A pessoa que ela deseja é casada. Nunca a assumiu. Nunca a escolheu. E isso já dura anos. Quando ela encontra esse homem, há prazer. Há intensidade. Há vida pulsando. Mas, logo depois, vem o vazio. A angústia. A culpa. A sensação de estar sempre em segundo plano. A vida que não anda. Projetos que não se concretizam. Um tempo que passa, mas não constrói.
É curioso — e profundamente revelador — como o desejo pode ser, ao mesmo tempo, fonte de prazer e de sofrimento. Freud já nos ensinava que o desejo é o motor da vida psíquica. É ele que nos movimenta, que nos tira da inércia, que dá cor à existência. Sem desejo, não há vitalidade. Sem desejo, há adoecimento.
Mas aqui surge uma confusão perigosa, muito comum na leitura superficial da psicanálise: a ideia de que ser livre é realizar todo desejo. “Sou livre porque faço o que quero”. Essa frase soa bonita, moderna, libertária. Mas ela esconde uma armadilha.
E é aqui que gosto de trazer Kant para a conversa.
Kant dizia algo profundamente incômodo para o senso comum: a verdadeira liberdade está em fazer aquilo que você não quer fazer. Ou melhor, em não ser escravo dos seus impulsos. Para Kant, se eu ajo apenas movido pelo desejo, pelo impulso, pela inclinação, eu não sou livre — eu sou governado por algo que me atravessa, mas que não passa pelo meu juízo racional.
Curiosamente, essa ideia encontra eco em pensadores da psicanálise posteriores a Freud, como Lacan. Lacan vai nos mostrar que o desejo, quando não é interrogado, quando não é simbolizado, quando não passa pelo crivo da consciência, se transforma em repetição. E repetição não é liberdade. Repetição é prisão.
Essa paciente não sofre porque deseja. Ela sofre porque realiza um desejo que a mantém no mesmo lugar. Um desejo que não produz laço, que não constrói futuro, que não a reconhece como sujeito. O prazer vem — mas ele cobra um preço alto demais logo em seguida.
Isso não significa que a saída seja negar o desejo, reprimi-lo ou fingir que ele não existe. Isso seria outra forma de escravidão. O desejo não deve ser eliminado. Ele deve ser pensado.
A pergunta central não é “o que eu desejo?”, mas:
Para que eu desejo o que desejo?
Por que esse desejo me escolheu?
O que eu ganho — e o que eu perco — ao realizá-lo?
Liberdade não é fazer tudo o que se quer. Liberdade é ter autonomia diante do próprio desejo. É poder dizer “sim” quando isso me constrói, mas também poder dizer “não” quando isso me destrói — mesmo que doa, mesmo que falte, mesmo que gere luto.
Ser livre é estar livre para desejar, mas forte o suficiente para escolher o que será realizado dentro desse desejo.
Às vezes, o ato mais libertador não é seguir o impulso, mas suportar a falta. Porque é justamente aí que o sujeito deixa de ser objeto do desejo do outro — e passa a ser autor da própria história.


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