O Brasil é o melhor país do mundo (só falta acreditar nisso).

Eu sempre soube que certas frases têm o poder de provocar. Algumas despertam curiosidade; outras, irritação; algumas poucas, reflexão profunda. Mas nenhuma, recentemente, tem surtido tanto efeito quanto esta: “O Brasil é o melhor país do mundo.”

Costumo dizê-la com naturalidade — talvez até leveza — quando volto de viagens internacionais. E, enquanto meus amigos, familiares e seguidores se preparam para ouvir uma crítica ferrenha ou uma comparação desfavorável, percebo seus rostos se transformarem quando afirmo, categoricamente, que sim: o Brasil é, para mim, o melhor país do mundo.

E não digo isso como ufanista, ingênuo ou alienado. Digo como psicanalista, como alguém que enxerga tensões invisíveis, complexos ocultos e repetições simbólicas na história das nações.

Digo também como alguém que conhece, mesmo que de modo parcial, o mundo lá fora: Chile, Argentina, Canadá, Alemanha, Áustria, Polônia, Portugal. E que trabalha cotidianamente com pacientes de dezenas de outros lugares: Noruega, Japão, Itália, Espanha, França, EUA, Suíça, Austrália.

Ao longo dos anos, fui escutando relatos profundos sobre essas realidades — suas dores, seus medos, suas angústias — que raramente aparecem nos cartões-postais. E quanto mais escuto, mais percebo a força de uma verdade que poucos brasileiros têm coragem de admitir:

O Brasil é o país mais rico do mundo.

Mas não é o mais próspero.

E essa diferença diz tudo.

A riqueza que não se transforma: o trauma fundante da identidade brasileira

Quando os portugueses chegaram aqui, encontraram a maior reserva de ouro e diamantes já registrada até então. Enfrentaram o choque de ver uma terra que produzia tudo: água em abundância, solo fértil, clima propício, ventos fortes, sol doado generosamente — como se a natureza tivesse decidido concentrar aqui tudo o que tornaria uma nação grande, potente e autossuficiente.

Mas riqueza não é prosperidade.

Nunca foi.

E nunca será.

Prosperidade exige algo que faltava aos povos que aqui viviam e que, de certa forma, falta até hoje a nós: conhecimento, organização, consciência do próprio valor, e sobretudo autonomia simbólica.

Sem isso, o ouro se transforma em espelho.

O diamante vira faca.

A riqueza vira enfeite.

E o sujeito entrega sua maior potência em troca daquilo que parece mais brilhante.

Freud chamaria isso de repetição inconsciente: um trauma primordial que se repete ao longo das gerações, silenciosamente. O Brasil nasce psicológica e historicamente como alguém que tem, mas não sabe que tem. Como um sujeito que carrega um dom, mas foi convencido de que esse dom não vale nada — e que só encontrará valor se for legitimado por alguém de fora.

Esse é o complexo que nos acompanha há mais de 500 anos:

o complexo de inferioridade colonial.

E ele molda nossas escolhas, nossa economia, nossa política e, principalmente, nossa autoestima nacional.

Ainda somos os índios trocando ouro por espelhos

É duro reconhecer isso — mas necessário.

Repetimos, até hoje, o mesmo padrão descrito nos relatos históricos: temos tudo, mas valorizamos apenas o que vem de fora.

Temos minérios raríssimos, e importamos eletrônicos.

Temos a melhor luz do mundo, e consumimos energia cara.

Temos solo fértil como poucos, e compramos trigo, tecnologia agrícola e produtos processados.

Temos água em abundância — a riqueza que decidirá guerras futuras — e continuamos acreditando que somos pobres.

Somos, como psicanalista diria, o sujeito que nasceu com uma Ferrari, mas nunca aprendeu a dirigir.

Então a deixa na garagem, enquanto admira o carro do vizinho.

E mais: quando alguém elogia a Ferrari, o brasileiro diz:

“É só velha. Nem é tudo isso.”

É um mecanismo clássico da clínica:

negação da própria potência para não enfrentar o próprio destino.

Assim, importamos aquilo que temos no quintal.

Pagamos caro pelo que poderia ser abundante.

E continuamos a nos comportar como o povo que troca ouro por bugigangas — agora chamadas iPhone, vinho europeu, marca francesa, grife italiana.

Não compreendemos, enquanto povo, que o valor dos outros é construído sobre o que é nosso.

E isso, historicamente, explica quase tudo.

A Europa que admiramos é construída sobre riquezas que daqui foram retiradas

Quando caminho por Viena, Varsóvia, Berlim, Lisboa, percebo algo que a maioria das pessoas não nota: a grandiosidade europeia é fruto de séculos de trabalho, sim — mas também de pilhagem colonial, exploração, extração extensiva e sistemática de riquezas do Sul global.

A Europa aprendeu a transformar pouco em muito.

O Brasil segue transformando muito em pouco.

Isso não é uma crítica moral: é um dado histórico, econômico e psicológico.

Os portugueses, por exemplo, não encontraram ouro e diamantes em sua terra.

Encontraram aqui.

E ao perceberem, transformaram esse ouro em edifícios, universidades, fortalezas, igrejas, estradas, navios, estruturas administrativas.

Transformaram riqueza em prosperidade — exatamente o que nunca fizemos em cinco séculos.

E, como bom paciente que repete seu trauma sem perceber, seguimos acreditando que eles são melhores do que nós.

Que eles sabem mais.

Que eles merecem mais.

Que eles fazem melhor.

Essa memória traumática ainda habita o imaginário brasileiro:

somos ricos, mas não acreditamos que somos.

A psicanálise do nosso complexo nacional

Como psicanalista, vejo o Brasil como um sujeito dividido entre duas forças:

O que ele é de fato: absolutamente abundante, belo, diverso, fértil, generoso. O que acredita ser: insuficiente, incapaz, sempre aquém, sempre pior, sempre menos.

Essa cisão gera sintomas — assim como acontece com qualquer indivíduo:

auto-ódio: “O Brasil é uma porcaria.” idealização do outro: “Lá fora é que é bom.” dependência simbólica: só acreditamos no valor do que é brasileiro quando o exterior valida. culpa e vergonha: como se não fôssemos dignos da riqueza que possuímos. incapacidade de realizar: não porque não podemos, mas porque não nos autorizamos a poder.

Freud escreveu que o sofrimento humano vem da não aceitação da própria potência – porque assumir quem se é implica assumir responsabilidade pelo próprio destino.

O Brasil sofre da mesma angústia.

Enquanto não assumirmos que somos ricos, continuaremos nos comportando como pobres.

Enquanto não aceitarmos que temos ouro, continuaremos nos fascinando por espelhos.

O estrangeiro entende nossa riqueza; nós, não

É curioso observar como líderes internacionais percebem a riqueza brasileira com clareza cristalina.

Trump enxerga valor no nosso minério.

Os chineses enxergam valor no nosso solo.

Os noruegueses enxergam valor na nossa água.

Os franceses enxergam valor na nossa biodiversidade.

Os americanos enxergam valor no nosso mercado.

Mas nós, brasileiros, enxergamos valor no que eles produzem com o que tiram daqui.

É a mesma lógica colonial reencenada eternamente — e nós a reproduzimos sem perceber.

Enquanto isso, nosso país continua extraordinário em absolutamente tudo o que depende da natureza:

Temos a maior diversidade biológica do planeta. Temos o maior volume de água doce superficial. Temos sol quase o ano inteiro. Temos ventos fortíssimos e perfeitos para energia eólica. Temos solo fértil do Oiapoque ao Chuí. Temos uma das maiores extensões litorâneas do mundo. Temos clima variado que oferece tudo: deserto, neve, floresta, sertão, cachoeiras, montanhas. Temos abundância em minérios, petróleo, gás, nióbio, lítio.

E, acima de tudo, temos gente:

um povo alegre, criativo, acolhedor, adaptável, resiliente, solidário, capaz de se reinventar diante das adversidades mais duras.

Nenhum país no mundo tem tudo isso junto.

Nenhum.

O que falta? Três pilares fundamentais

Depois de muito viajar, estudar, clinicar e observar, cheguei à conclusão de que o Brasil só não prospera porque nos faltam três pilares:

1. Educação

Para reconhecer o que temos nas mãos.

Sem conhecimento, o ouro vira pó.

Sem consciência, a riqueza vira ilusão.

2. Autonomia e governança

Precisamos aprender a governar a nós mesmos, a romper com o complexo de inferioridade colonial, a confiar no que produzimos, no que somos, no que podemos.

3. Orgulho

Mas não orgulho vazio — orgulho real, concreto, fundamentado na verdade do que somos.

Nenhum país prospera sem orgulho.

Nenhuma pessoa prospera sem reconhecer seu próprio valor.

Por que, então, afirmo que somos o melhor país do mundo?

Porque, apesar de tudo, conseguimos ser extraordinários.

Porque somos naturalmente abundantes.

Porque somos resilientes como poucos.

Porque temos uma natureza que não pede nada em troca para nos dar tudo.

Porque nossa gente é generosa, criativa, trabalhadora, espirituosa, viva.

Porque carregamos um potencial que país nenhum possui.

E porque, enquanto muitos países constroem belezas artificiais para compensar a falta de natureza — como o Sena, como parques, como paisagens planejadas — o Brasil recebeu as curvas do Rio de Janeiro de graça, ganhou o Pantanal sem esforço, a Amazônia sem pedido, as serras do Sul sem projeto, o Nordeste sem arquitetura humana.

Somos, literalmente, um país abençoado.

Mas falta aceitarmos essa benção.

Falta assumir que temos ouro nas mãos.

Falta parar de admirar espelhos.

Falta colocar a Ferrari na rua.

Conclusão: o Brasil ainda não é o melhor país do mundo — mas será

Digo, com convicção profunda, que o Brasil é o melhor país do mundo.

Mas também digo, com a mesma honestidade clínica, que ainda não somos aquilo que estamos destinados a ser.

Somos como o paciente brilhante que não descobriu a própria capacidade.

Como o adulto que segue vivendo com a autoestima ferida da criança que um dia foi.

Como o sujeito que se envergonha do próprio dom, porque nunca lhe ensinaram a valorizá-lo.

Nosso destino, no entanto, será outro — se rompermos nossa repetição traumática.

Quando tivermos educação, autonomia e orgulho, o Brasil não será apenas o país mais rico do mundo.

Será, enfim, o mais próspero.

E nesse dia, talvez, deixaremos para trás a sombra do espelho colonial, para assumir definitivamente aquilo que sempre fomos:

o país mais belo, mais abundante, mais potente, mais criativo e mais promissor da Terra.

Até lá, sigo dizendo — e assustando muita gente:

O Brasil é o melhor país do mundo.

E um dia, será também o mais próspero.

Deixe um comentário