DIÁRIO DE BORDO — PORTUGAL, BRASIL E AS SOMBRAS QUE A GENTE CARREGA

21 de novembro de 2025. Foi nesse dia que embarquei com minha esposa para Portugal. Não imaginava, naquele momento, que essa viagem iria mexer tanto comigo. Viajar, às vezes, é como deitar no divã: a gente acha que vai descansar, mas alguém lá dentro está só esperando a chance de abrir a porta da memória. Eu dizia que estava indo conhecer minhas raízes, afinal a família Vieira veio daqui. Mas hoje vejo que eu não estava indo “conhecer”. Eu estava indo “reencontrar”. E reencontro nunca é simples. Sempre desperta o que estava adormecido.

Logo no início da viagem percebi que havia algo diferente no ar. Lisboa me recebeu com uma sensação estranha de familiaridade, como se eu estivesse retornando a um lugar onde nunca estive, mas que fazia parte de mim. Na psicanálise chamamos isso de memória que não é biográfica, mas simbólica; aquilo que pertence ao inconsciente da família, às histórias que herdamos sem perceber.

Quando seguimos para Nazaré, essa sensação ficou ainda mais forte. Aquele mar que engole o horizonte parecia carregar mensagens antigas. Caminhei pela areia, senti o vento frio no rosto e me abaixei para recolher algumas conchinhas da vieira. Ali, agachado diante do Atlântico, senti algo que eu não esperava sentir: um chamado. Uma decisão que brotou de dentro, quase como um sussurro: “A história da família Vieira que virá depois de mim será diferente”. E naquele momento eu entendi que a viagem não era apenas geográfica. Era emocional. Era ancestral. Era espiritual.

Mas, junto dessa emoção, começou a nascer outra coisa: reflexão. Porque estar em Portugal também desperta uma visão comparativa inevitável sobre o Brasil. A história dos dois países se entrelaça de um jeito tão profundo que parece até uma relação psicanalítica entre mãe e filho, onde ambos passam a vida tentando acertar, errando, repetindo traumas, separando-se, reaproximando-se e, no fim, reconhecendo que carregam marcas um do outro que nunca vão desaparecer.

A reflexão que mudou tudo

Enquanto caminhava pelas ruas estreitas do Lisboa, me perguntei: como um país tão pequeno conseguiu se tornar tão grande na história? E por que o Brasil, tão gigante, ainda luta tanto com questões básicas? Era impossível não lembrar da sensação inicial que eu tinha: Portugal parece ter se tornado a Europa que é hoje graças às riquezas que retirou do Brasil. Ouro, diamantes, madeira, açúcar… tudo isso financiou palácios, fortalezas, acordos com a Inglaterra, guerras e luxos que jamais teriam existido sem o trabalho forçado e a exploração brutal das terras brasileiras. Sim, essa é uma verdade. Mas não é toda a verdade. E a psicanálise ensina que verdades parciais são perigosas, porque explicam, mas não curam.

Caminhando pelas cidades portuguesas, comecei a entender algo que livros de história raramente explicam: Portugal cresceu, mas não amadureceu. Recebeu riqueza, mas não investiu no próprio futuro. O Brasil perdeu muito, mas também não elaborou sua perda. Foi como uma relação tóxica onde ambas as partes, por motivos diferentes, adoecem. E quando não há análise, cada um passa o resto da vida repetindo o trauma.

O Brasil já surgiu de uma fuga, não de uma escolha

Em 1808, quando a família real chegou ao Brasil fugindo de Napoleão, o destino dos dois países se inverteu pela primeira vez. Portugal vivia seu pior momento, fragilizado, destruído, humilhado. O Brasil, por outro lado, vivia seu momento mais promissor: portos abertos, universidades criadas, imprensa instalada, instituições levantadas quase do dia para a noite. Portugal estava encolhido; o Brasil estava crescendo. E foi justamente essa inversão que gerou uma ferida emocional profunda em Portugal: o medo de perder o Brasil.

É por isso que a independência de 1822 não foi o que a gente aprendeu na escola. Não foi um grito heróico, um rompimento limpo, um ato de bravura nacional. Foi, acima de tudo, um movimento político — e psicológico — de Dom Pedro, que se viu num dilema: em Portugal, não seria rei; no Brasil, poderia ser imperador. A independência nasceu desse desejo, dessa ambição, dessa identidade dividida. Foi um processo de separação com interesses cruzados, chantagens implícitas, acordos silenciosos. Como toda separação familiar, teve seus custos — e nós pagamos parte deles até hoje, não diretamente em dinheiro, mas em traumas estruturais, em modelos de poder, em formas de dominação que nunca foram realmente questionadas.

Os caminhos invertidos, mas compartilhando suas raízes

Quando o Brasil virou República em 1889, deu seu segundo grande salto. E quando Portugal virou República em 1910, entrou numa fase instável e turbulenta. Outra inversão. De repente, era o Brasil que parecia promissor, moderno, cheio de futuro, enquanto Portugal mergulhava no caos político. A cada rua em que eu caminhava aqui, eu olhava para as casas antigas, os azulejos desgastados, e pensava: este país que hoje me parece tão arrumado, tão organizado, tão tranquilo, já foi muito pobre. O português já passou fome. Já migrou em massa. Já trabalhou em obras no Brasil para sobreviver. É estranho pensar nisso enquanto se anda pelas ruas do Porto, mas é verdade: Portugal só começou a levantar a cabeça de verdade depois de 1974.

Um pêndulo que se encontra

E aqui entra o ponto que mais mexeu comigo. Em 1964, Portugal se libertou da ditadura; naquele mesmo ano, o Brasil entrou na sua. É quase como se os dois países estivessem presos numa dança histórica, onde um cai quando o outro sobe, um evolui quando o outro involui, quase como se partilhassem um destino espelhado. Portugal saiu da opressão e rumou para a Europa. O Brasil entrou nela e mergulhou no seu trauma colonial mais profundo, revivendo o autoritarismo, a força, a repressão.

Quando Portugal entrou para a União Europeia em 1986, viveu sua verdadeira revolução. Não foi que o dinheiro simplesmente caiu do céu. Foi uma combinação de ajuda externa com um profundo movimento interno de reconstrução: reformas, disciplina fiscal, abertura econômica, melhoria na educação, modernização da infraestrutura. Portugal fez o que a psicanálise chama de “trabalho de elaboração”: revisitou seu trauma, assumiu responsabilidade, buscou apoio e tomou decisões difíceis. E como todo processo de cura, doeu, mas funcionou.

Enquanto isso, o Brasil não fez sua elaboração. Continuou preso a narrativas salvadoras, lutando com sua identidade, oscilando entre o complexo de inferioridade e o complexo de grandeza, sempre esperando que uma pessoa, uma ideologia, um governo viesse resolver tudo. É a dependência emocional em escala nacional. E sim, dói admitir isso. Mas a cura só começa quando a gente admite a dor.

Ao longo da viagem, essas comparações se misturavam com minha própria história. Eu me via caminhando pelas ruas de Sintra, onde fica o Palácio da Pena, último grande refúgio da família real portuguesa, e pensando no menino que cresceu ouvindo histórias fragmentadas da família Vieira. Pensava no homem que decidiu que sua linhagem seria diferente. Pensava em como eu queria que os meus descendentes herdassem não apenas o nome, mas uma história limpa, elaborada, consciente. Foi quando percebi que esse movimento de reescrever a história da minha família é o mesmo que o Brasil precisa fazer. É o mesmo que qualquer pessoa precisa fazer quando decide parar de repetir padrões. O passado pesa, mas não define. Ele influencia, mas não aprisiona.

Palácio da Pena, uma das salas preferidas da Família Real portuguesa

Os traumas brasileiros

No Brasil, carregamos traumas profundos: a colonização mal resolvida, a escravidão nunca elaborada, a instabilidade política constante, a dependência emocional de líderes fortes. Mas, assim como Portugal fez, também podemos mudar. Não existe, a União Europeia para nos salvar, nem um pai… mas existe, existe a consciência, existe a responsabilidade. O primeiro passo é reconhecer o que nos feriu; o segundo é assumir que somos responsáveis pelo que fazemos daqui em diante.

A cura de um país começa na cura de cada indivíduo. E começa também na capacidade de parar de repetir a mesma história, como eu decidi ali, na areia de Nazaré, com as conchinhas das vieiras na mão. A história que nossos pais viveram não precisa ser a nossa. A história que Portugal viveu não precisa ser a do Brasil. A história que o Brasil viveu não precisa determinar o nosso futuro.

Enquanto escrevo este diário, percebo que Portugal não me ofereceu apenas belas paisagens. Ele me ofereceu um espelho. Mostrou o que acontece quando um país decide enfrentar seu trauma — e o que acontece quando um país decide evitá-lo. Mostrou que mudar é possível. Que crescer é possível. Que elaborar é possível. E me ensinou, acima de tudo, que o futuro não está em mudar de país, mas em mudar a consciência.

Levo comigo as conchinhas da Vieira, símbolo de uma nova história. E volto para o Brasil com a certeza de que as histórias que recebemos não são as histórias que precisamos repetir. Podemos fazer diferente. Eu vou fazer diferente. E acredito que, como país, nós também podemos.

O símbolo da família Vieira, na cidade de Guimarães.

Uma resposta a “DIÁRIO DE BORDO — PORTUGAL, BRASIL E AS SOMBRAS QUE A GENTE CARREGA”

  1. Que Grandiosidade de Texto !

    A psicanálise descortina o Ver com os olhos e passamos a Enxergar com a Mente.
    Como sempre ! Arrasou na didática literária que você nos oferece, esbanja um espírito contemporâneo psicanalítico e com um Grande Valor Simbólico, afinal ! Nossa origem nos sobrecarrega de marcas, desde da colonização até os dias de Hoje !
    Amei parabéns pelo rico diário.

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