Certa vez, atendi um paciente chamado Eduardo. Homem de pouco mais de quarenta anos, empresário, casado, mas emocionalmente exausto. Chegou dizendo que não aguentava mais a própria indecisão. Não sabia se ficava ou se ia, se insistia ou se libertava.
O curioso é que, por trás da dúvida conjugal, havia algo muito mais profundo: ele não sabia se podia escolher a si mesmo.
Eduardo vivia preso a uma mulher com quem o relacionamento já havia se tornado um campo de batalha emocional. Ele dizia:
“Ela é boa, de caráter, me dá segurança… mas é fria, não tem carinho, parece que me tolera.”
Em seguida, começava a listar as falhas dela, como se tentasse convencer a si mesmo de que a infelicidade era justa.
E ainda assim, não conseguia ir embora.
Quando eu perguntava o que o prendia, ele dizia:
“Não quero machucá-la. Tenho medo que ela sofra.”
Era como se, ao imaginar a dor dela, ele mesmo sofresse. Como se o sofrimento dela tivesse o poder de destruí-lo.
Aos poucos, compreendi: Eduardo não amava essa mulher — ele amava a culpa.
Amava a sensação de ser o bom, o que aguenta, o que salva.
Ele se colocava como mártir, aquele que deve suportar tudo em nome do amor.
E isso, embora pareça generoso, é apenas uma forma refinada de aprisionamento.
Durante a análise, percebi que ele repetia uma velha história. Na infância, havia sofrido com o abandono emocional da mãe, que vivia triste, frágil.
Para suportar o desamparo, aprendeu cedo a ser “forte”, a cuidar, a fazer o bem.
Desde então, toda vez que encontra uma mulher ferida, sente que precisa salvá-la — como se ainda tentasse salvar aquela mãe que, lá atrás, ele não pôde curar.
Mas salvar o outro, muitas vezes, é uma tentativa inconsciente de reparar a própria dor.
E é aqui que o amor se confunde com o narcisismo.
Lacan dizia que amar é dar o que não se tem a alguém que não o é.
Ou seja, amar não é preencher o outro, nem ser preenchido por ele.
É reconhecer a falta — a nossa e a do outro — e ainda assim desejar.
Mas Eduardo não amava a partir da falta. Ele amava a partir do vazio.
E vazio é diferente de falta: a falta nos move, o vazio nos suga.
Ele buscava alguém que o completasse, que dissesse: “você é bom, você é suficiente, você merece amor.”
E quando essa validação desaparecia, ele trocava de palco.
Como ele mesmo disse: “Quando a plateia não aplaude, eu mudo de teatro.”
Foi uma das frases mais reveladoras que já ouvi.
Porque o que ele chamava de amor era, na verdade, busca por aplauso — uma forma de se enxergar através dos olhos do outro.
O amor, para ele, era um espelho.
E quando o espelho deixava de refletir uma imagem bonita, ele o trocava.
O amor verdadeiro, na visão de Lacan, não nasce da completude, mas da falta.
Amar é suportar a ausência, é desejar o outro não porque ele preenche, mas porque ele falta também.
É um encontro entre dois seres incompletos que, ao se olharem, não pedem salvação, mas se reconhecem como humanos.
No entanto, a maioria de nós ainda ama como Eduardo: queremos ser amados para nos sentirmos inteiros.
Queremos que o outro nos cure da solidão, da rejeição, do abandono.
Mas ninguém pode curar o que é estruturalmente parte de nós.
A falta é constitutiva. Ela nos funda.
É dela que nasce o desejo — e o desejo é o que mantém a vida em movimento.
Eduardo acreditava que o amor era estar junto, mesmo infeliz.
Eu, como analista, o convidei a pensar que talvez o verdadeiro amor começasse quando ele aprendesse a estar só.
Porque quem não suporta a própria companhia, transforma o amor em refúgio, e não em escolha.
E o amor que nasce da fuga é sempre uma prisão disfarçada de abrigo.
O processo com ele foi longo. Em muitos momentos, ele quis desistir, parava e voltava com vergonha, sentindo-se culpado por não ter agido.
Até que um dia, ele conseguiu dizer algo simples, mas libertador:
“Eu percebi que tenho medo de fazer mal a alguém, mas faço mal a mim há anos.”
Ali, nasceu o primeiro gesto de amor real.
Não o amor romântico, cheio de promessas e sacrifícios.
Mas o amor que inclui a si mesmo.
Aquele que permite dizer “não”, sem culpa.
Aquele que aceita que a felicidade do outro não é sua responsabilidade.
Hoje, quando penso nesse caso, lembro que amar de verdade exige coragem.
Coragem para olhar para dentro, para encarar o espelho e ver não apenas o belo, mas também o ferido.
Coragem para aceitar que ninguém nos completará.
E coragem para desejar, mesmo sabendo que toda história de amor é feita de desencontros, de limites, de imperfeições.
Porque o amor — o amor de verdade — não é encontrar alguém que te salve, mas alguém com quem você possa continuar sendo o que é: um ser faltante, mas vivo.


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