Hoje, no meu consultório, vivi algo que me marcou profundamente, como poucas vezes aconteceu em tantos anos de prática clínica. Uma paciente chegou buscando compreensão, tentando organizar sua vida, entender sua própria dor. Mas diferente de outras vezes, senti, de forma visceral, a complexidade e a fragilidade da condição humana.
Ela começou a contar sua história desde muito cedo, trazendo memórias que atravessam décadas e carregam o peso silencioso de um abandono primário. Com apenas dez meses, foi entregue pela mãe biológica e passou dez dias sob os cuidados de uma cuidadora temporária. Imagine um bebê de dez meses, sem palavras, sem consciência do mundo, sendo deixado, entregue ao acaso, sem colo, sem alimento, sem vínculo. Dez dias que poderiam parecer curtos para quem observa de fora, mas que, para um bebê, equivalem a uma eternidade de desamparo absoluto. Durante esse período, a criança não se alimentava, chorava, buscava contato que ninguém podia oferecer. Esse abandono inicial é a base de tudo o que viria a se seguir.
A Defesa da Razão
Ela relatou os fatos com racionalidade, quase como se contasse uma novela. “Acho que o povo faz muita novela”, disse, tentando minimizar a dor, protegendo-se de sentir novamente o que não havia sentido na época. Essa defesa é o escudo do ego diante da dor primária, uma tentativa de sobreviver ao trauma sem se quebrar. Mas mesmo na racionalização, é possível sentir o peso de uma vida inteira tentando entender e justificar o que aconteceu.
E foi nesse ponto que percebi, mais uma vez, o quanto é difícil ser humano. Caminhamos carregando dores profundas, traumas que moldam nossa forma de amar, agir e nos relacionar. E ainda assim, somos julgados. Vemos pessoas brigando, matando-se, defendendo ideologias, impondo regras, condenando o outro por amar diferente, por desejar algo fora das normas estabelecidas. Vemos religiões dizendo que se você transou fora do casamento, que se você ama de forma diferente, que se você se desviou de certos códigos, será castigado. Mas ninguém olha para o trauma, para o que moldou aquela pessoa, para a dor que ainda pulsa dentro dela. Poucos percebem que o comportamento humano é fruto de uma história inconsciente, de experiências que determinaram como cada indivíduo se move, sente e ama.
O Ciclo do Salvamento
Ela me contou que desde cedo sente uma necessidade intensa de cuidar, proteger e salvar os outros. Que não consegue se afastar, mesmo quando é maltratada, ignorada ou enganada. E quando escutamos o motivo inconsciente, percebemos: ela está tentando reparar o abandono que sofreu. Está tentando fazer diferente da mãe que a entregou, tentando não repetir a dor do desamparo que viveu. Essa necessidade de salvar, cuidar, consertar, não é sobre os outros; é sobre ela mesma, sobre aquele bebê de dez meses que permaneceu faminto e sozinho, precisando ser acolhido.
E é nesse ponto que entra a complexidade do amor humano. Ela busca reorganizar a vida, controlar o mundo, estudar, racionalizar, medicar-se, fazer terapia — tudo para não repetir a história da mãe. Mas nenhuma dessas estratégias chega ao núcleo da ferida. O núcleo que faz alguém querer salvar os outros incessantemente, querer reorganizar o mundo, enquanto o bebê interno ainda espera reconhecimento.
A Emoção do Psicanalista
Enquanto ela falava, senti lágrimas tentando surgir nos meus olhos. Poucas vezes, em tantos anos, uma sessão me fez chorar. Segurei, racionalizei, retomei o psicanalista que existe em mim, mas ao terminar a sessão, chorei!
Chorei não apenas como psicanalista, mas como ser humano. Chorei porque percebi a magnitude da dor que carregamos silenciosamente, a injustiça que atravessa vidas inteiras, a cegueira do julgamento que o mundo impõe sem compreender a história por trás de cada ato. Chorei pela humanidade, pelo quanto sofremos sem sermos vistos, sem que nosso trauma seja compreendido.
E foi nesse momento que entendi Jesus de uma forma ainda mais profunda. Jesus não julgava. Ele via o trauma, a história, a dor silenciosa que ninguém mais percebia. Ele via Pedro, Mateus, a mulher que o povo considerava impura, e enxergava o que ninguém via: o motivo por trás de cada ato, o trauma que moldava cada decisão, a ferida que exigia compaixão. Ele não via apenas o erro, a falha, o pecado; via a raiz, o que havia quebrado, o que precisava ser cuidado.
O Olhar Que Transforma
E percebi, então, que como psicanalista, meu papel é parecido: olhar para o trauma, não para o erro, acolher sem julgar, criar espaço para que a dor seja vista e sentida. Mas também percebi que, mesmo com consciência e inteligência, muitas vezes continuamos cegos diante do que nos moldou. Tentamos racionalizar, estudar, organizar, diagnosticar — e essas ferramentas, embora úteis, não alcançam o núcleo do trauma. O núcleo que faz alguém querer salvar os outros incessantemente, enquanto o bebê interno ainda permanece faminto e sozinho.
Essa paciente vai repetir esses padrões enquanto não olhar diretamente para a dor inicial, enquanto não aceitar que precisa ser acolhida, protegida, vista. E é aqui que a fé e a compaixão entram. Porque terapia sozinha, por mais profunda que seja, não é suficiente. É preciso um olhar maior, que reconheça o trauma e a dor do ser humano sem julgá-lo. Como Jesus, ver além do ato, ver a raiz do sofrimento, ver o bebê faminto dentro de cada um de nós.
O Bebê Interno e a Liberdade
Hoje chorei. Chorei pelo bebê que ficou sozinho, chorei pela mulher adulta que tenta salvar o mundo, chorei pela humanidade que tantas vezes julga sem conhecer. Mas também senti esperança. Porque o trabalho da psicanálise, da fé, do olhar consciente, é justamente criar espaço para que a dor seja sentida, para que o trauma seja ressignificado, para que o amor deixe de ser apenas reparação e se torne liberdade.
Essa paciente me ensinou mais do que qualquer livro, mais do que qualquer teoria: ela me lembrou da profundidade da existência humana, da fragilidade da alma, da necessidade de acolhimento e compaixão. Me lembrou que todos nós carregamos bebês famintos de amor dentro de nós, que precisam ser vistos, ouvidos e abraçados. E me fez lembrar que Jesus via o que ninguém via, entendia o que ninguém entendia, amava sem julgar, e isso é o que nos inspira a olhar para a vida e para os outros com o mesmo olhar — de cuidado, compreensão e amor profundo.
Caminhando com Compaixão
Porque, no fim das contas, ser humano é isso: caminhar carregando nossas dores, tentando organizar nossa história, aprendendo a sentir o que nunca sentimos, tentando amar apesar da nossa fragilidade, tentando salvar sem perder a nós mesmos, e reconhecendo que apenas com compaixão e fé podemos transformar dor em consciência, abandono em amor, sofrimento em vida.
Enquanto escrevo estas palavras, ainda sinto a emoção da sessão, a profundidade do encontro com o humano em sua essência, com o trauma que molda, com a dor que ensina, com a esperança que nasce quando alguém é finalmente visto. Sei que a psicanálise, a compaixão e a fé são caminhos para que cada bebê interno possa, finalmente, ser acolhido, e que cada ser humano possa, finalmente, respirar a liberdade que vem do amor que não julga, que não condena, que simplesmente vê e entende.
Agora, levarei esse tema, que me tocou, ao meu analista, já que como Psicanalista a contratransferência precisa ser trabalhada e elaborada.
Agora, como ser humano, que orgulho eu sinto de ter sido colocado em uma posição e uma profissão que me permite enxergar a dor humana além do que muitos enxergam.
Que privilégio ser assim! 


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