Há um fenômeno que observo repetidamente — em consultório, nas conversas, nas redes e nas histórias que as mulheres contam de si mesmas.
Elas dizem algo mais ou menos assim:
“Eu sei que ele não presta, que ele não vai me escolher, que ele não me faz bem… mas eu sinto tesão nele. Agora, aquele homem bom, que me quer, que traz paz, me dá sono.”
Durante muito tempo eu me perguntei por que o tesão — essa força bruta, visceral, incontrolável — parece escolher justamente o que não pode florescer. Por que o corpo vibra mais diante do risco do que da segurança. Por que o coração acelera mais diante do perigo do que do afeto.
E foi a psicanálise que me ensinou a enxergar o que está por trás dessa equação aparentemente sem sentido: o tesão, o instinto e a pele não são reações livres, mas repetições profundas do amor primário, das marcas emocionais da infância, da forma como aprendemos a amar — e principalmente, da forma como aprendemos a não sermos amadas.
O amor como ferida inaugural
Freud dizia que “a vida amorosa é o terreno onde o infantil nunca morre”.
Isso significa que, por mais adulta que uma mulher se torne, é a criança emocional dentro dela que ainda decide o rumo do desejo.
Quando essa criança aprendeu que amor é ausência, rejeição ou humilhação — o corpo dela cresce, mas a libido continua presa a esse roteiro.
É por isso que, muitas vezes, o homem indisponível desperta tanto tesão: ele encarna o objeto primário perdido.
Lacan chamava isso de objeto a — aquilo que nunca se tem por completo, mas que move o desejo.
O desejo, na leitura lacaniana, não quer o que possui; ele quer o que falta.
O homem que não se entrega, que escapa, que provoca uma tensão constante entre presença e ausência, acende exatamente o mesmo tipo de circuito que, lá atrás, foi ativado quando o amor da infância era inconstante, frio, ou condicional.
Em outras palavras: o tesão, muitas vezes, é um eco do abandono.
O desejo e o amor primário
Donald Winnicott, outro grande psicanalista, dizia que o bebê precisa de uma mãe suficientemente boa.
Não perfeita, mas presente, responsiva, capaz de acolher o gesto, o choro, o olhar.
Quando essa mãe falha demais — quando ela está ausente, deprimida, submissa, ou quando o pai ocupa o lugar de figura ameaçadora — o bebê desenvolve um tipo de amor ansioso, confuso: ele sente que precisa conquistar o olhar, precisa merecer o carinho.
A partir daí, nasce um padrão afetivo inconsciente: “eu só sinto amor quando preciso lutar por ele.”
E essa luta, anos depois, se traveste de tesão.
A libido se associa à tensão emocional.
O corpo se excita diante do risco, do medo de perder, da ausência.
A presença plena — o homem bom, disponível, previsível — não aciona o mesmo sistema de prazer.
Porque no inconsciente, prazer e angústia nasceram juntos.
Essa é uma das grandes ironias da mente humana: aquilo que chamamos de “química”, muitas vezes, é apenas a química da repetição.
O corpo como cenário do inconsciente
Freud falava que o inconsciente se expressa no corpo.
E o corpo, nesse caso, responde fielmente às antigas dores.
Quando o homem está ali, inteiro, presente, querendo construir algo, o corpo não sente vibração — não porque falta desejo, mas porque falta familiaridade com a paz.
A paz é estranha.
O corpo aprendeu que o amor vem junto com o medo, e por isso, quando não há medo, ele não reconhece o amor.
Quantas vezes ouvi mulheres dizerem:
“Ele é bom demais pra mim.”
Essa frase, que parece humilde, é na verdade um sintoma.
O inconsciente diz: “bom demais” porque não combina com a minha história.
“Bom demais” porque não me fere do jeito que aprendi a ser amada.
E o tesão, nesse contexto, é a memória corporal do trauma.
A erotização da falta
A libido não é pura, ela é moldada.
Desde a infância, o corpo vai associando prazer e dor, presença e ausência, amor e punição.
Uma criança que cresceu em um ambiente emocionalmente instável — ora acolhida, ora ignorada — aprende a desejar o intermitente.
O prazer vem no mesmo pacote da espera.
O amor se mistura com o desespero.
Por isso, na vida adulta, o homem que não liga, que desaparece, que mantém uma distância, ativa o mesmo mecanismo: a ansiedade do reencontro.
E o reencontro, quando acontece, produz uma descarga de dopamina e adrenalina tão forte que o corpo confunde com paixão.
É neuroquímica e psicanálise caminhando juntas.
O tesão pelo indisponível é, em última instância, a excitação do trauma.
Freud chamava isso de compulsão à repetição: a tendência inconsciente de reviver, uma e outra vez, as mesmas dores, com a esperança secreta de finalmente mudá-las.
É como se a mulher dissesse: “desta vez, ele vai me escolher. Desta vez, o amor vai ficar.”
Mas o inconsciente não busca a cura — busca a repetição.
E o corpo obedece.
O pai ausente e o espelho do desejo
Muitas dessas histórias de tesão pelo indisponível têm origem na relação com o pai.
Um pai ausente, frio, ou mesmo idealizado — aquele que a menina olhava de longe, tentando ganhar atenção — pode se tornar o molde inconsciente de todos os amores futuros.
Ela passa a desejar homens que representem esse mesmo tipo de figura:
distante o suficiente para manter viva a busca, mas presente o bastante para não deixá-la desistir.
O prazer mora na fronteira entre o “quase”.
Lacan dizia que “o amor é dar o que não se tem a quem não o quer”.
Essa frase, tão paradoxal, traduz exatamente o drama dessas mulheres: oferecem demais a quem não quer receber, e quando encontram quem quer, não sabem o que oferecer.
Porque o desejo delas está sempre preso ao não-ter.
Quando o amor bom parece chato
Então vem aquele outro homem — o que quer.
O que responde, o que se importa, o que pergunta se você chegou bem.
Ele traz estabilidade, rotina, segurança emocional.
E o corpo se cala.
A mulher diz: “não sei por quê, mas falta química.”
A química que falta é, na verdade, a ausência da falta.
Sem o perigo, sem o frio na barriga da rejeição, o corpo não reconhece o estímulo.
Mas é aqui que mora a virada:
o tesão, quando curado, muda de endereço.
Ele deixa de morar na dor e passa a morar na presença.
Só que isso não acontece sem consciência.
É preciso reeducar o corpo, reconfigurar o inconsciente, reconhecer que o que parecia paixão era só o sintoma do trauma.
Amor e pulsão: entre Eros e Tânatos
Freud descreveu duas forças que governam o psiquismo: Eros, a pulsão de vida, e Tânatos, a pulsão de morte.
Nas relações onde há tesão pelo indisponível, as duas andam juntas.
O prazer vem colado à destruição.
A mulher sente vida justamente onde há risco de morte emocional.
E quando encontra o amor tranquilo, a pulsão de morte se cala — mas junto com ela, o corpo sente um vazio, porque aprendeu a confundir intensidade com amor.
A cura começa quando ela entende que paz também é intensidade, mas uma intensidade que o inconsciente ainda não aprendeu a decifrar.
O papel da mãe: espelho do feminino
Se o pai é o molde do desejo, a mãe é o espelho da identidade.
Uma mãe que viveu submissa, que suportou um homem frio ou agressivo, passa à filha uma mensagem inconsciente: “o amor dói, mas vale a pena.”
A menina cresce com o corpo programado para repetir a dor da mãe — não por escolha, mas por lealdade.
A psicanálise chama isso de identificação inconsciente.
A filha ama o homem ausente porque, no fundo, tenta salvar a mãe dentro de si.
Tenta dar um final diferente para a história que ela nunca pôde mudar.
Mas toda vez que tenta curar a mãe, ela adoece junto.
E o tesão vira o campo de batalha dessa herança emocional.
O tesão e a ilusão de controle
Há ainda outro elemento: o controle.
O homem bom, que se entrega, tira o controle.
Ele oferece o que o inconsciente teme: estabilidade, previsibilidade, constância.
O homem indisponível, por outro lado, dá espaço para a fantasia: “posso conquistá-lo”, “posso mudar ele”.
Essa ilusão ativa a libido.
Porque o desejo, quando nasce da carência, confunde controle com poder.
E sentir tesão por quem não se entrega é, no fundo, tentar dominar o próprio passado.
A cura: quando o tesão se reconcilia com o amor
Curar esse padrão não significa deixar de sentir tesão.
Significa mudar o código do desejo.
Enquanto o inconsciente não for reescrito, o corpo continuará buscando o mesmo tipo de dor disfarçada de paixão.
Mas quando a mulher começa a se conhecer, a observar seus movimentos internos, a nomear suas feridas, algo muda.
Ela começa a desejar o que antes evitava: a presença.
A paz deixa de ser tédio e passa a ser casa.
O amor deixa de ser luta e passa a ser encontro.
Winnicott dizia que amadurecer é tornar-se capaz de estar só na presença de alguém.
Essa é a verdadeira intimidade: poder estar inteira, mesmo acompanhada.
E é dessa inteireza que nasce o novo tesão — o tesão da entrega, da segurança, da vulnerabilidade.
O que fazer com essa consciência
Não há atalhos.
A psicanálise ensina que a cura vem pelo reconhecimento, pela palavra, pelo tempo.
É preciso revisitar a infância, confrontar a história, entender de onde veio o padrão.
E acima de tudo, é preciso acolher a si mesma sem culpa.
A mulher que sente tesão por homens indisponíveis não é fraca — ela é leal ao seu inconsciente.
Mas essa lealdade pode ser renegociada.
Ela pode escolher se libertar.
O tesão, afinal, não é o inimigo.
Ele é o mensageiro.
Ele mostra onde ainda dói, onde ainda há ferida, onde o amor ainda precisa aprender a ser paz.
O reencontro com a própria libido
No fim, tudo se resume a uma reconciliação com o próprio corpo e com a própria história.
O corpo não erra — ele apenas repete.
Mas quando o inconsciente é iluminado, a repetição perde o sentido.
O que antes era atração pelo indisponível se transforma em atração pela presença.
A mulher que um dia confundiu amor com ausência começa a se interessar por homens que ficam, que olham nos olhos, que têm coragem de amar.
Freud dizia que “onde estava o id, deve advir o ego”.
Ou seja: onde havia instinto cego, deve nascer consciência.
E é exatamente isso que acontece quando uma mulher entende o porquê do seu tesão.
Ela deixa de ser refém das pulsões e passa a ser autora do próprio desejo.
O homem bom deixa de ser chato quando ela aprende a se permitir a calma.
A paz deixa de ser falta de emoção quando ela descobre que não precisa mais lutar para ser amada.
O corpo, então, aprende uma nova linguagem: o prazer da segurança, o tesão pela reciprocidade, a libido pela presença.
E é nesse ponto que a psicanálise se torna libertadora.
Porque ela não ensina a amar o outro — ensina a amar de um lugar novo, onde o passado não manda mais, e onde o tesão finalmente encontra casa dentro da alma.


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