Como abandonar se tenho filhos com o narcisista?

Há alguns dias recebi uma mensagem de uma aluna do meu curso de psicanálise. Ela me escreveu o seguinte:

“Prof, eu gostaria de sugerir 2 temas para que o senhor explore em seus trabalhos:

1 – A mulher que tem filhos com o narcisista, já se livrou, já superou, mas aí entra a questão: ela quer ‘ensinar a pescar’ e o ex ‘dá o peixe’ para manipular os filhos contra ela.

2 – Seus filhos estão crescendo e apresentando características narcisistas. Aqui a mãe chora e o mundo não vê.

Se puder explorar, eu ficaria imensamente grata.”

Decidi transformar essa pergunta em um texto para o blog, porque percebi a profundidade e a dor contidas nas situações apresentadas. São duas questões que chegam com frequência nos atendimentos clínicos e também nos relatos de mães que viveram ou ainda vivem com homens narcisistas. Ambas as situações envolvem sofrimento, confusão, sensação de impotência e, principalmente, o medo de ver os próprios filhos sendo engolidos pela lógica perversa do narcisismo.

Escreverei este texto em primeira pessoa, como um diálogo aberto com todos vocês que me acompanham. Não será uma resposta simples, porque não existem respostas simples quando falamos de vínculos psíquicos, infância e transmissão de traumas. Mas vou tentar lançar luz sobre esses dois cenários, com base na psicanálise, trazendo autores como Freud, Lacan, Winnicott e Melanie Klein, além de minha experiência prática no contato com tantas histórias de dor, sobrevivência e, sim, superação.

1. A mulher que se libertou do narcisista, mas o ex manipula os filhos

Quando uma mulher consegue se libertar de um relacionamento com um narcisista, o que temos é um verdadeiro ato de coragem. Romper com um vínculo marcado pela manipulação, pela desvalorização e pela violência emocional não é fácil. Muitas vezes, a relação com um narcisista não deixa marcas no corpo, mas deixa cicatrizes profundas na alma. A mulher que sai de uma relação assim geralmente carrega o peso de ter sobrevivido a um campo minado de gaslighting, mentiras e chantagens.

Entretanto, quando há filhos envolvidos, a história não termina com a separação. Muitas vezes, o narcisista continua exercendo poder através da parentalidade. Ele sabe que os filhos são um elo inquebrável e, por isso, utiliza essa ligação como forma de manter o controle sobre a ex-companheira. Essa manipulação pode assumir várias formas, mas a mais comum é justamente a que a aluna mencionou: enquanto a mãe tenta educar, transmitir valores e “ensinar a pescar”, o pai aparece como aquele que “dá o peixe”, que oferece vantagens fáceis, presentes, permissividade e um falso amor, com o objetivo de conquistar a lealdade dos filhos e colocá-los contra a mãe.

Do ponto de vista psicanalítico, o que vemos aqui é uma dinâmica de alienação parental, mas com uma nuance narcisista. O pai narcisista não apenas tenta substituir a figura materna; ele precisa desqualificá-la, porque a identidade dele depende de ser visto como superior, indispensável e amado incondicionalmente. A criança, ainda imatura, não tem recursos psíquicos para compreender essa manipulação. Ela pode ser seduzida pelo pai “que dá tudo”, e, ao mesmo tempo, ressentir-se da mãe que estabelece limites, que educa, que frustra.

Essa é uma situação profundamente injusta, porque coloca a mãe no papel de vilã, enquanto o pai veste a máscara de herói. Mas, do ponto de vista da constituição psíquica da criança, é também uma armadilha: ela aprende que o amor pode ser comprado, que a verdade é relativa e que os vínculos se sustentam na sedução e não na autenticidade.

Aqui entra Freud. Em “O Mal-Estar na Civilização”, Freud explica que a função do pai é, em certa medida, frustrar o desejo da criança, introduzindo-a no campo da lei, da realidade e da interdição. Mas no caso do pai narcisista, essa função é deturpada. Ele não atua como limite, mas como cúmplice do gozo infantil. Ao invés de conduzir o filho à realidade, ele reforça a fantasia de que tudo pode ser obtido sem esforço. E faz isso não por amor, mas por necessidade de manter sua posição de poder.

Lacan, por sua vez, nos lembra da função paterna como portadora do “Nome-do-Pai” – aquele que simboliza a lei, o corte necessário para que a criança se separe da fusão com a mãe e construa sua própria identidade. O pai narcisista, ao invés de assumir esse lugar simbólico, ocupa um lugar imaginário: ele quer ser amado como um objeto idealizado, e não cumprir a função estruturante. O resultado é uma criança que cresce confusa, dividida, sem parâmetros claros de realidade.

A mãe, nesse contexto, muitas vezes se vê sozinha, chorando a dor de não conseguir competir com as estratégias do ex. Mas é importante dizer: a verdade sempre encontra caminho. A criança, ao longo da vida, tende a perceber a diferença entre amor verdadeiro e manipulação. Pode levar tempo, pode causar rupturas, mas a autenticidade sempre se revela. O papel da mãe, portanto, não é competir na sedução, mas manter-se firme como referência de afeto real, ainda que isso custe o amor imediato dos filhos. Winnicott nos lembra que a mãe suficientemente boa não é a que evita toda frustração, mas a que consegue sustentar o filho na experiência da realidade. É exatamente isso que se pede dessa mãe: resistir, sustentar e confiar.

2. Quando os filhos crescem apresentando características narcisistas

O segundo ponto levantado pela aluna é ainda mais doloroso. O que fazer quando os filhos começam a apresentar traços do próprio narcisista? Aqui, a mãe se desespera, porque é como se ela visse o inimigo renascer dentro daqueles que mais ama. “A mãe chora, e o mundo não vê”, escreveu a aluna. Essa frase ecoou em mim, porque traduz com perfeição o desamparo dessas mulheres.

Na psicanálise, sabemos que o narcisismo faz parte do desenvolvimento de todos nós. Freud falou do narcisismo primário como etapa necessária: o bebê precisa acreditar que é o centro do mundo para se constituir. Mais tarde, com as frustrações e a introdução da lei, esse narcisismo se transforma, permitindo a entrada na realidade, na alteridade, no reconhecimento do outro. O problema está quando esse processo não acontece de maneira saudável, e a criança permanece aprisionada em um narcisismo patológico.

Quando um pai narcisista está presente, ele pode reforçar esses traços nos filhos. Muitas vezes, por identificação, o filho adota as mesmas estratégias do pai para lidar com a vida: manipular, mentir, buscar vantagem, rejeitar frustração. Outras vezes, a filha pode repetir a posição de submissão, tornando-se presa fácil para outros narcisistas no futuro. É a lógica da repetição que Freud descreveu: aquilo que não é elaborado tende a retornar, geração após geração.

A mãe que percebe traços narcisistas nos filhos sofre porque teme perder aquilo que mais ama para a mesma lógica que a destruiu no passado. E aqui é preciso cuidado. Nem todo comportamento egoísta, arrogante ou manipulador significa que a criança será um narcisista patológico. Muitas vezes, trata-se apenas de fases do desenvolvimento ou de sintomas que podem ser elaborados. O grande desafio é diferenciar o que é uma etapa normal do crescimento daquilo que é uma cristalização patológica.

Melanie Klein nos ajuda a entender esse processo ao falar das posições esquizoparanóide e depressiva. A criança, inicialmente, divide o mundo entre bom e mau, sem integração. Aos poucos, ela deve aprender a lidar com a ambivalência, a perceber que a mesma mãe que frustra é também a que acolhe. Se esse processo falha, a criança pode ficar presa em uma posição de idealização e perseguição, sem conseguir integrar amor e ódio. O narcisismo patológico é, em muitos aspectos, essa falha de integração.

A mãe, portanto, precisa oferecer espaço para que os filhos vivam a experiência da realidade, da frustração e da alteridade. Isso não garante que o narcisismo não se desenvolva, mas é a forma mais saudável de tentar impedir sua cristalização. Aqui, novamente, Winnicott é fundamental: o ambiente seguro, a presença constante e a capacidade de sustentar o filho em suas crises são os elementos que podem salvar uma criança do desamparo.

A dor invisível da mãe

Ambas as situações descritas pela aluna convergem em um ponto: a dor da mãe. Essa dor, muitas vezes, não é compreendida socialmente. Para o mundo, trata-se apenas de uma disputa entre ex-cônjuges, ou de filhos rebeldes. Mas na clínica psicanalítica vemos a profundidade desse sofrimento. A mãe chora no silêncio, sente-se impotente diante do ex que manipula ou do filho que repete a lógica narcisista. Ela carrega uma culpa imensa: “Será que falhei? Será que transmiti isso aos meus filhos? Será que não consegui protegê-los?”

É importante dizer: a culpa materna é um dos terrenos mais férteis para o narcisista agir. Ele sabe como fazer a mulher sentir-se culpada por tudo. Mas a verdade é que não existe mãe perfeita, e a presença de traços narcisistas nos filhos não significa, necessariamente, falha da mãe. O narcisismo é um fenômeno complexo, que envolve genética, ambiente, história familiar e escolhas individuais. A mãe, sozinha, não carrega a responsabilidade de salvar ou condenar os filhos.

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Encaminhamentos possíveis

Na prática, o que a mãe pode fazer? Não há receita, mas algumas reflexões ajudam:

Não competir com o narcisista. A mãe não deve tentar superar o pai no jogo da sedução. Deve manter-se fiel ao papel de educadora, ainda que isso custe críticas e rejeições momentâneas. Buscar apoio terapêutico. A psicanálise pode oferecer um espaço de elaboração, tanto para a mãe quanto para os filhos. Elaborar a dor é essencial para que ela não se transforme em repetição. Estabelecer limites claros. Mesmo diante da manipulação, a criança precisa de referenciais. A consistência da mãe pode se tornar, no futuro, o grande diferencial na vida dos filhos. Aceitar a frustração. A mãe não tem controle total sobre os filhos. Eles podem, sim, repetir traços do pai. Mas isso não significa que a história está perdida. Cada sujeito tem seu percurso singular. Cuidar de si mesma. Muitas vezes, a mãe se anula pelos filhos. Mas, para sustentá-los, precisa também cuidar da própria saúde psíquica, emocional e espiritual.

Portanto…

Quis transformar a mensagem dessa aluna em um texto longo porque acredito que muitas mulheres vivem essa mesma realidade em silêncio. O narcisismo destrói famílias, não apenas relacionamentos amorosos. Ele se infiltra nas gerações, cria divisões, manipula afetos. Mas acredito também na possibilidade de resistência. Quando uma mãe se mantém firme, autêntica e comprometida com a verdade, ela se torna uma referência para os filhos. Talvez eles não vejam isso imediatamente, mas um dia verão.

A mãe que chora em silêncio precisa ouvir que não está sozinha. Seu sofrimento é real, legítimo e merece acolhimento. E, acima de tudo, precisa compreender que, mesmo diante da manipulação e do risco da repetição, existe sempre a possibilidade de transformação. O amor verdadeiro, ainda que silencioso, tem uma força que o narcisismo jamais alcançará.

Um último conselho que eu posso te dar: se você já viveu com um narcisista e tem filhos com ele, estude e se torne uma pessoa especialista no transtorno. Conhecendo a mente narcisista, você saberá como lidar com ela. Como eu já disse aqui, não há uma receita pronta, cada narcisista se manifesta de um jeito, portanto, se você conhecer exatamente como a mente dele funciona, saberá como lidar com o narcisista em questão.

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