O drama das mulheres com mais de 35 anos que pensam que nunca mais vão ter família

Recentemente, recebi minha clínica uma mulher bonita, jovem, aparentemente bem-sucedida em todos os campos da vida. Logo nos primeiros minutos de conversa, a minha percepção se confirmou: sucesso profissional, financeiro, altamente reconhecida, já tendo conhecido e viajado o mundo todo. Mas uma ferida ainda atormentava: ela não conseguia construir uma família.

Autocar nesse assunto, Mariana, nome fictício que usarei para preservar a identidade da paciente, caiu no choro.

Segundo ela, era a quarta tentativa — em apenas 24 meses — de um relacionamento que terminou em frustração. Entre lágrimas, ela me confessou: “Mais uma vez me deixaram, e eu só caio na mão de pessoas narcisistas.” Seu desespero era palpável: “Eu já tenho 35 anos, não construí uma família, e temo não ser mãe.” A idade, tão advogada do futuro, parecia-lhe agora uma sentença.

Com empatia de vida de um analista, eu senti a dor de Mariana. Mas aquilo também me colocou a pensar, já que aquilo não acontecia pela primeira vez na minha clínica.

O coro de vozes que ouço diariamente

Esse tipo de relato tem-se tornado cada vez mais frequente em meu consultório. Mulheres com mais de 35 anos chegam exauridas, apreensivas, sentindo que o tempo escapa — e com ele, as possibilidades de amor e maternidade. E o que acontece na minha clínica não é mera coincidência. 

Estudos como o da Morgan Stanley apontam que, até 2030, cerca de 45% das mulheres entre 25 a 44 anos estarão solteiras e sem filhos, resultado de escolhas como priorizar carreira e autonomia financeira  . Análises do Pew Research mostram que atualmente cerca de 25% dos americanos de 40 anos nunca se casaram, um aumento expressivo em relação a 6% em 1980  . No Brasil, o IBGE indica que lar residido por pessoas sozinhas – incluindo muitas mulheres — saltou de 12,2% em 2012 para 18% em 2023  . A FGV, por sua vez, mostrou que mulheres solteiras têm renda média 62% maior do que mulheres casadas ou que vivem em união informal, e que o número de “mulheres sem marido ou companheiro” subiu de 35% para 38%  .

Esses dados indicam não apenas uma mudança demográfica, mas também mudanças culturais profundas, em que a mulher moderna muitas vezes escolhe — ou acaba — investindo no trabalho, na formação, na independência.

Mas mais do que uma escolha para vencer na carreira profissional em detrimento da vida pessoal, esses números podem esconder uma análise um pouco mais profunda: a ausência de referência masculina que essas mulheres tiveram na infância. 

Eu comecei a perceber que muitas mulheres que chegam à clínica compartilham um mesmo traço: não tiveram figuras paternas confiáveis; faltou em suas vidas um pai modelo com quem confiar, amar ou criar um vínculo emocional positivo. Na ausência desse espelho masculino saudável, certas ligações afetivas se tornam frágeis — e a vulnerabilidade pode levá-las a aceitar menos do que merecem, na ânsia de preencher um vazio.

Essas histórias, unidas à pressão biológica e cultural, criam um “exército” de mulheres que se sentem desencontradas na vida amorosa — e que, na angústia por um relacionamento, acabam se precipitando: “aceito qualquer coisa porque penso que não mereço algo melhor”.

Mas essa narrativa não precisa terminar em desespero. Pelo contrário, permite-se (sim!) uma virada profunda de sentido.

A mulher precisa olhar-se — e enxergar não uma dívida, mas uma vencedora. Seu sucesso profissional, sua formação, seu sustento são frutos das suas próprias mãos. É preciso ressignificar isso como base de autoestima, não como obstáculo.

No fundo, é preciso resigne significar o conceito de realização e felicidade feminina.

Felicidade não é sinônimo de relacionamento; é um estado de plenitude possível agora, sozinho, e que, ao ser cultivado, atrai conexões mais saudáveis e verdadeiras.

Redescobrir — ou descobrir — paixões e sonhos é plantar raízes em si mesma. É lembrar que a vida não se resume a alguém chegar, mas que pode ser vivida com intensidade, sentido e alegria já, no presente.

Terapia, terapia, muita terapia!

O apoio profissional é essencial para reconfigurar padrões afetivos, curar traumas – especialmente os ligados à ausência paterna – e fortalecer o autocuidado emocional.

Buscar propósito é reencontrar o que faz o coração vibrar. Quando isso acontece, a presença amorosa deixa de ser o objeto final da busca — e, muitas vezes, aparece naturalmente no caminho de uma vida com propósito.

Para muitas mulheres, a fé é um suporte silencioso, restaurador. Entregar o controle — especialmente sobre o amor — pode trazer paz. É hora de relaxar, deixar que as coisas fluam, sem correria, com confiança.

Vida social ativa e com propósito

Fazer o que ama, estar com pessoas que compartilham interesses, viver projetos com intensidade – tudo isso abre portas para encontros verdadeiros, sem atropelos.

A idade não define sentença, define experiência

Ter 35, 40, 45 anos ou mais não é condenação — é acumular vivências, sabedoria e, muitas vezes, clareza sobre o que se quer — e, sobretudo, sobre o que não se aceita mais.

Você pode encontrar “a pessoa certa”, construir família, ter sonhos realizados — ainda que essa família não siga modelos rígidos de passado (como a idealização familiar infantil, ligada ao pai e à mãe que ficaram para trás). Uma nova configuração pode ser a sua própria — rica, consciente e libertadora.

Você, mulher que talvez tenha “folgado demais” no mundo externo — focando em carreira, estudos, estabilidade financeira — agora pode se permitir fruir disso. Você é uma vencedora. Permita-se respirar, sorrir, viver por si e para si. Busque Deus, busque sua felicidade antes — que o amor, quando chegar, seja um feliz encontro, não uma salvação.

A idade não é sentença, é estrada percorrida. E quem percorre mais aprende: a caminhar em paz com o tempo, com seus próprios passos, sabendo que nada — nem o relógio, nem o legado ausente — determina sua realização. Quanto mais inteira você for, mais inteiro será o amor que chegará. E que ele chegue suave, livre, merecido — enquanto você vive plenamente o agora.

Sobre Mariana, levou um tempo até que ela entendesse que a felicidade poderia ser construída num relacionamento inicial com ela mesma. Ela se encontrou na prática do esporte, começou a fazer parte de um grupo de corridas. De corrida em corrida, ela descansou nos ombros de alguém. Sim, Mariana encontrou uma pessoa que até o momento ela ainda não sabe se será o marido, o pai dos filhos dela.

Com bastante calma, sem correr, ela avalia, mas agora de barriga cheia.

Sem fome, sem pressa, sem compulsão por querer colocar alguém em um vazio que é só dela. Dessa forma, preenchida com os próprios hobbies, a própria fé, o próprio propósito e correndo onde se deve correr, ela consegue caminhar lentamente no relacionamento, sem pressa, sem medo, apenas descobrindo o que a vida lhe reservou de melhor.

E o que eu posso dizer a você, mulher, que lê esse texto é isso: não se apresse em preenche um vazio que deve ser preenchido por você mesma. Busque a própria realização, a própria felicidade, e ande como as nutricionistas sempre orientaram: de barriga cheia, você tem menos fome.

Como dizia o mestre Jesus: você não pode acrescentar uma hora a sua vida, então por que se preocupa com o que acontecerá no futuro? Olhe para as aves do céu: elas não trabalham e nem se preocupam, mas o pai que está no céu garante que elas comem todos os dias.

Mas fé, menos ansiedade. 

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