Por que algumas empresas são inovadoras e outras não?
Se você pesquisar “inovação” no Google terá mais de 100 milhões de resultados. Há livros sobre inovação, artigos, workshops, recomendações de
melhores práticas e muito mais. No entanto, muitas empresas cometem grandes falhas para inovar. Mas por quê? Ou melhor, o que as empresas ditas inovadoras estão fazendo? Encontramos uma resposta inusitada para essa pergunta na filosofia, mais precisamente no conceito de liberdade.
Pensar somente em eficiência te leva ao oposto de inovação
Inovação não significa obter tudo imediatamente. Inovação significa aprender o máximo com as inúmeras falhas, até que o avanço seja bem-sucedido. Ter liberdade de experimentar e aprender, sem a necessidade de um retorno
imediato do investimento. É esse conceito que as empresas que mais inovam aplicam. Todos os outros tropeçam em seu potencial, criando ambientes organizacionais que aprisionam as mentes brilhantes, mantendo orçamentos pequenos, estrangulando a criatividade com demandas de retornos de curto prazo.
Um recente estudo realizado pela ACE Cortex, sobre Corporate Venture Building, com o objetivo de mapear a transformação de novos negócios e serviços, revelou que apenas 23,2% das organizações brasileiras contam com líderes que admitem praticar a inovação.
A pesquisa foi realizada com mais de 200 executivos, com cargos de C-Levels e diretores, e revelou que entre os principais entraves para a inovação estão o desenho de uma estratégia geral (31,4%) e a falta de capacitação dos colaboradores para atuarem com inovação (17,6%). Entre as empresas que não praticam a inovação, a baixa ou média maturidade para atuar com o tema foi indicada por 79,2% delas.
(acesse o estudo através do link: https://www.acecortex.com.br/corporate- venture-building/)
Cristiano Celso
Em primeiro lugar, a liberdade te liberta do medo. Existem vários fatores que contribuem para a liberdade de inovar. O fator mais importante, mas também o mais difícil, é a liberdade do medo. O medo, como o dinheiro, é uma das alavancas mais importantes da economia atual.
Muitas empresas trabalham de acordo com a regra: por que devo confiar na motivação positiva quando também posso assustar as pessoas ao meu redor para que entreguem resultados? A verdade que muitos treinadores de liderança tendem a esconder é que o medo é um poderoso motivador. Uma empresa que quisesse inovar teria, portanto, primeiro que quebrar o padrão cultural: sair do “liderar pelo medo” para “liderar pelo encorajamento”, ou seja, o medo existirá, mas não será impeditivo algum para a ação.
É claro que é mais fácil falar do que fazer, mas há exemplos claros desse novo estilo: o Google por exemplo, pratica um conceito de equipe chamado “segurança psicológica”. Através da supervisão, estruturação da equipe e formação dos membros, formou um ambiente de trabalho caracterizado pela confiança e ousadia. Um terreno fértil ideal para ideias inovadoras. Quem confunde isso como terapia de grupo não reconheceu os sinais dos tempos. O Google é uma das empresas mais bem-sucedidas do planeta, por isso iniciativas como essa devem ser acompanhadas de perto.
Liberdade significa experimentar
A liberdade do medo apenas em sua cabeça, obviamente, não é suficiente. As inovações literalmente precisam de espaço e tempo para
experimentos. Métodos modernos, como o design thinking definem esse processo como “construção de protótipos”. Protótipos nada mais são do que ideias que se estruturam em um estágio inicial. Se você perguntar a empresas inovadoras e bem-sucedidas, a resposta é sempre a mesma: nossa empresa nos deu tempo, espaço, orçamento e o mais importante, confiança. Não importa se essas salas são chamadas de “Lab ́s” ou “Spin-Off”.
Pode parecer banal, mas algumas empresas estrangulam seus inovadores dando-lhes pouco tempo, sem orçamento e pequenos espaços. Qualquer um que já tenha tentado realizar uma “reunião criativa” em uma sala abafada e sem janelas conhece o problema. E isso não é seletivo, mas estrutural: falta liberdade, confiança, capacidade de respirar. Tudo está sob um cobertor mesquinho de medo da perda financeira.
Ninguém se pergunta por que as pessoas que são curiosas em seu tempo livre, assumem riscos e encontram soluções criativas, muitas vezes abaixam a cabeça no local de trabalho, trabalham de acordo com as regras e perdem todas as ideias? A cultura estrutural da pequena escala operacional e a má reputação do termo “experiência” implodem qualquer atividade inovadora antes mesmo de começar, o boicote a qualquer movimento é imediato.
Liberdade significa cooperação
Os tempos de gênio solitário sentado em seu cubículo e se vangloriando após um longo período de reflexão, como vemos em alguns filmes, ficaram pra trás há muito tempo. Hoje, ideias e inovações são criadas em equipes, por meio de debates, avaliações e melhorias conjuntas. Isso apoia o impulso evolutivo do homem para cooperar. A psicologia moderna sabe que as pessoas podem perceber não apenas o comportamento competitivo, mas também o cooperativo como recompensador, até mesmo gratificante. Portanto, o último impulso importante para a inovação está em uma forte rede de funcionários na empresa. Aumente a superfície de fricção intelectual e inovadora! Crie fóruns para troca de ideias, crie canais de comunicação para receber tais ideias, empodere as pessoas para apresentação de ideias!
Tudo isso só funciona se houver uma cultura amplamente livre de medo. No networking há uma grande oportunidade e um grande perigo: a troca fortalece a cultura dominante, para melhor ou para pior. Se boa parte da contribuição cultural dos líderes for o medo a inovação será prejudicada. Por outro lado, se os gerentes têm “liberdade em suas mentes”, é mais fácil para eles permitirem a liberdade de seus funcionários. Isso cria uma espiral inovadora: a liberdade leva à coragem, a coragem leva a ideias mais diversas, uma gama maior de ideias com maior probabilidade de inovação revolucionária.
O controle é uma ferramenta de um ego frágil
Toda vez que você sente medo, busca controlar para se sentir mais seguro. E é nesse sentido que líderes medrosos, que não se conhecem, buscam controlar as ações de suas equipes para que não tenham a sua nudez exposta. Esse comportamento de controle demonstra, em modos gerais, um ego fragilizado por parte desse líder, alguém que não se conhece e, portanto, não sabe seus potenciais ou fraquezas. E a raiz do medo é aquilo que não conhecemos.
Freud dizia que toda vez que o ego é atacado, lança mecanismos de defesa para conseguir lidar com a realidade. É nesse sentido que o controle surge como um mecanismo de defesa próprio, voltado apenas para si mesmo, o que é contrário a todos os conceitos de liderança.
O líder só será considerado bom, de fato, se conseguir sair de si mesmo e olhar para o todo. O verdadeiro líder é aquele que já transcendeu, passou a ver a vida com um significado que vai além de si mesmo. É isso que chamamos de “propósito”. Ter, de fato, um propósito é saber colocar os interesses dos outros acima dos seus. É viver pelas pessoas.
Vieira Junior
O grande ponto é que você só conseguirá fazer isso se estiver bem consigo mesmo. Toda vez que você não souber quem é, tentará provar através o outro. É aí que você vai tentar controlar, barrar e, nesse ponto, inibirá a inovação. Para se sentir seguro, seu ego fará com que suas ações controlem tanto os outros a ponto de que, em pouco tempo, eles estarão 100% parecidos com as
suas próprias ações. Todos estarão pensando e agindo como você, o que é completamente contrário a uma das premissas da inovação: a diversidade.
O bom líder se conhece a ponto de não se sentir ameaçado ou atacado, seja qual for o nível da conversa. O propósito de ver as pessoas bem está acima do seu próprio interesse, e entenda ver as pessoas bem como aquilo que é a vontade delas, não a sua.
Inovar é ter a capacidade de deixar as pessoas serem, de fato, quem elas realmente são.
A inovação, portanto, não começa na mesa de trabalho, nem mesmo na cabeça do funcionário. A inovação começa na mente do líder, com seu anseio por liberdade.
Cristiano Celso – especialista em neurociência
Vieira Junior – psicanalista, especialista em gestão de pessoas


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