É PRECISO MORRER PARA VIVER DE VERDADE

Talvez a vida que você vive não seja a que te faça, de fato, viver!

Se tem uma coisa que todo ser humano deveria fazer essa coisa é olhar no espelho da própria vida, da própria alma. Como psicanalista, eu aprendi desde cedo que quem não olha pra dentro repete a própria história e ainda chama isso de destino. Isso me fez questionar tudo, inclusive a mim mesmo. Porque como dizia Freud: duvide de quem tem muitas certezas.

E talvez essa tenha sido a minha maior dor e também a minha maior salvação: começar a duvidar das certezas que sustentavam a minha vida.

Eu precisei duvidar da minha imagem de homem forte. Precisei duvidar da minha ideia de amor. Precisei duvidar das relações que eu jurava serem eternas. Precisei duvidar da religião que durante anos organizei dentro de mim como verdade absoluta. Precisei duvidar da minha própria necessidade de salvar pessoas. Precisei duvidar do menino que existia dentro de mim, aquele menino que passou a vida inteira procurando um lugar para pertencer.

Hoje eu entendo que boa parte da vida humana é construída em cima de personagens. Poucas pessoas vivem de verdade. A maioria atua. Atua para ser aceita. Atua para ser amada. Atua para sobreviver emocionalmente. E eu também atuei durante muito tempo.

Atuei como o menino forte da favela que venceria na vida. Atuei como o homem romântico que acreditava que o amor salvaria tudo. Atuei como o pregador cheio de fé que precisava sustentar uma imagem espiritual impecável. Atuei como o marido perfeito. Atuei como o filho perfeito. Atuei como o salvador de mulheres quebradas. Atuei como o discípulo leal de líderes que eu transformava em pais.

Mas existe uma coisa cruel sobre os personagens: eles sobrevivem por algum tempo, porém um dia cobram a alma da gente.

A vida me ensinou isso da forma mais dura possível.

Durante muitos anos eu achei que estava vivendo uma grande história de amor. Hoje eu entendo que, em muitos momentos, eu estava vivendo uma tentativa desesperada de reparar minha infância. Eu não buscava apenas uma mulher. Eu buscava uma família. Buscava um pai. Buscava uma mãe. Buscava um lugar onde finalmente me deixassem ficar sem precisar provar valor o tempo inteiro.

Quem nasce emocionalmente abandonado passa a vida tentando encontrar pessoas que digam: “você pertence”.

E eu procurei isso em tudo.

Procurei em relacionamentos. Procurei em chefes. Procurei em líderes espirituais. Procurei em amigos. Procurei em instituições. Procurei até na ideia de sucesso.

Só que existe um problema: quando você não encontrou pertencimento dentro de si, você se torna vulnerável a qualquer lugar que prometa acolhimento.

Foi assim que aceitei coisas que hoje não aceitaria mais.

Aceitei culpa emocional travestida de amor. Aceitei manipulação travestida de cuidado. Aceitei controle travestido de preocupação. Aceitei relações onde eu precisava diminuir meus desejos para que o outro se sentisse seguro.

E o mais perigoso: eu chamava isso de amor.

A vida me ensinou que nem todo vínculo é saudável só porque existe carinho. Existem relações onde o amor existe, mas a estrutura emocional é adoecida. Existem pessoas boas emocionalmente presas dentro das próprias feridas. Existem famílias que se amam, mas que não conseguem permitir que alguém cresça sem interpretar isso como abandono.

Hoje eu percebo que muitos dos vínculos da minha vida só funcionavam enquanto eu ocupava o lugar do menino acolhido, do menino grato, do menino promissor que precisava de proteção. Quando comecei a crescer de verdade, muitos desses vínculos ruíram.

E isso me destruiu por dentro durante muito tempo.

Porque eu pensava: “se me amavam, por que se afastaram quando eu cresci?”

Demorei anos para entender que algumas pessoas suportam ajudar alguém, mas não suportam deixar de ser necessárias para esse alguém.

Isso vale para relacionamentos amorosos. Vale para amizades. Vale para empresas. Vale para líderes. Vale até para mães.

A verdade é que muita gente ama o lugar que ocupa na nossa vida, não necessariamente quem nós somos.

E perceber isso dói.

Dói porque destrói a fantasia infantil de amor incondicional. Dói porque obriga a gente a amadurecer. Dói porque nos força a entender que nenhum ser humano vai preencher totalmente o vazio que carregamos.

Freud dizia que a felicidade humana é sempre parcial. Lacan dizia que o desejo é falta. Viktor Frankl dizia que o homem busca sentido. A Bíblia diz que o coração humano é inquieto.

Hoje eu acho que todos estavam certos.

A vida humana é atravessada pela falta.

Tentamos preencher essa falta com:
amor, sexo, dinheiro, religião, status, beleza, aprovação, poder, família, sucesso…

Mas nada preenche completamente. E talvez a grande maturidade seja aceitar isso sem desespero.

Porque durante muito tempo eu achei que existiria algum lugar definitivo de paz. Alguma relação definitiva. Alguma conquista definitiva. Alguma aprovação definitiva. Hoje eu entendo que a vida não funciona assim.

A vida é travessia

E talvez o sofrimento comece justamente quando tentamos transformar pessoas em salvação.

Eu fiz isso.

Transformei mulheres em salvação. Transformei líderes em salvação. Transformei a igreja em salvação. Transformei reconhecimento em salvação. Transformei dinheiro em salvação.

Mas nenhum ser humano suporta carregar esse peso. Ninguém foi feito para ocupar o lugar de Deus na vida de ninguém.

Hoje eu entendo também que muitas das minhas escolhas não nasceram apenas do amor, mas do medo.

Medo de ficar sozinho. Medo de não pertencer. Medo de decepcionar. Medo de abandonar. Medo de ser igual ao meu pai. Medo de perder a aprovação das pessoas. Medo de deixar de ser amado.

O medo nos faz permanecer em lugares que já morreram.

O medo nos faz romantizar o sofrimento.

O medo nos faz chamar prisão de propósito.

E talvez uma das maiores libertações da minha vida tenha sido perceber que Deus não me quer escravo de personagens.

Durante muito tempo eu vivi uma espiritualidade baseada em culpa. Achava que ser um homem de Deus era suportar tudo calado. Achava que santidade era sofrimento. Achava que amor era renúncia absoluta de si mesmo.

Até perceber que Cristo nunca anulou a individualidade das pessoas. Pelo contrário. Ele devolvia identidade. Devolvia dignidade. Devolvia consciência. Devolvia humanidade.

A religião, muitas vezes, cria personagens. Cristo desmonta todas! E ainda as expõe.

Talvez por isso tanta gente tenha medo de olhar para dentro. Porque olhar para dentro significa encontrar não apenas luz, mas também sombra. Encontrar inveja. Egoísmo. Narcisismo. Dependência. Carência. Vaidade. Necessidade de validação.

E eu encontrei tudo isso dentro de mim.

Descobri que meu romantismo, em muitos momentos, também era tentativa de garantir amor. Descobri que meu desejo de salvar pessoas escondia uma necessidade profunda de ser necessário. Descobri que eu me colocava como humilde e inofensivo porque tinha medo de ser rejeitado se ocupasse plenamente meu espaço.

A psicanálise me ensinou algo brutal: quase ninguém se conhece de verdade.

A maioria vive repetindo padrões inconscientes enquanto acredita estar fazendo escolhas livres.

Eu repetia padrões o tempo inteiro.

Buscava pais simbólicos em chefes. Buscava mães simbólicas em famílias. Buscava mulheres que precisassem ser salvas. Buscava ambientes onde eu pudesse ser acolhido e admirado ao mesmo tempo.

Até que a vida começou a quebrar tudo isso.

E honestamente? Ainda dói. Mas, diferentemente de antes, hoje a dor é suportável. Não porque ela diminuiu, mas porque eu a dominei sendo mais forte, mais adulto.

Existe um luto profundo em abandonar fantasias.

Dói perceber que muitas relações eram sustentadas mais pelos papéis do que pelo amor real. Dói perceber que às vezes fomos amados apenas enquanto permanecíamos pequenos. Dói perceber que algumas pessoas não suportam nossa autonomia.

Mas existe também uma libertação gigantesca nisso. Porque quando as fantasias caem, sobra a possibilidade da verdade.

Hoje eu não quero mais ser o salvador de ninguém. Não quero mais ser filho emocional de ninguém. Não quero mais ser discípulo cego de ninguém. Não quero mais viver em função da expectativa dos outros.

Quero existir.

E isso me basta.

Muito!

Quero amar sem me perder. Quero ajudar sem me sacrificar. Quero ter fé sem precisar terceirizar minha consciência. Quero poder questionar, afinal uma fé que não suporta questionamentos não pode ser chamada de genuína, é só uma defesa narcísica.

Quero crescer sem sentir culpa. Quero olhar para o passado sem precisar romantizar o sofrimento. E principalmente: quero olhar para aquele menino que fui sem vergonha.

Porque hoje eu entendo aquele menino.

Entendo por que ele buscava tanto acolhimento. Entendo por que ele se apegava tanto às pessoas. Entendo por que ele precisava tanto provar valor. Entendo por que ele confundia intensidade com amor.

Ele só queria pertencer.

E talvez todos nós, no fundo, sejamos apenas isso: seres humanos tentando encontrar um lugar onde possamos existir sem precisar nos mutilar emocionalmente para sermos aceitos.

A vida me ensinou que sucesso não cura abandono. Dinheiro não cura carência. Casamento não cura solidão. Igreja não cura vazio existencial. Nenhuma conquista externa resolve completamente as guerras internas.

Mas também aprendi outra coisa.

Mesmo ferido, o ser humano pode reconstruir significado.

Mesmo quebrado, pode continuar amando.

Mesmo decepcionado, pode continuar acreditando.

Mesmo depois de perder tantas fantasias, ainda pode existir beleza.

Hoje eu olho para trás e percebo que muitas das minhas dores não destruíram apenas ilusões. Elas destruíram personagens que já não cabiam mais na minha alma.

Talvez crescer seja exatamente isso.

Permitir que certas versões de nós morram.

E isso assusta.

Porque toda transformação profunda parece morte antes de parecer renascimento.

Hoje eu já não preciso ser o homem mais admirado da sala. Não preciso ser o mais espiritual. Não preciso ser o salvador. Não preciso ser o escolhido especial. Não preciso vencer para provar valor.

Hoje eu só quero paz dentro da minha própria consciência. Quero poder sentar sozinho comigo mesmo sem precisar fugir de quem sou.

Quero poder olhar para Deus sem máscara.

Quero poder amar alguém sem transformar isso em prisão.

Quero poder existir sem precisar me encaixar em personagens que os outros criaram para mim.

E talvez essa seja a maior liberdade que um ser humano pode alcançar.

A liberdade de finalmente ser.

Sem precisar representar.

Sem precisar salvar.

Sem precisar provar.

Apenas existir.

E, honestamente, depois de tudo que vivi, isso já é um milagre enorme.

É bom demais ser eu!

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