O vazio não é um problema: é a parte de você que ninguém te ensinou a suportar


Uma reflexão clínica e psicanalítica sobre o vazio existencial, a sensação de falta, o medo do silêncio e a ilusão de que tudo precisa ser resolvido.

Clara apareceu na tela alguns minutos antes do horário combinado. Câmera ligada, postura correta, cabelo arrumado demais para alguém que dizia estar cansada. O enquadramento era limpo, parede clara, nenhum objeto fora do lugar. Tudo organizado. Inclusive ela. Ou pelo menos era isso que tentava mostrar.

Atendo Clara em clínica online, e o que ela traz não é incomum: uma sensação persistente de vazio, difícil de explicar, impossível de calar. Não era uma dor aguda. Era algo mais silencioso, constante, que não se resolvia com descanso, férias ou distração.

Quando a sessão começou, ela respirou fundo, como quem se prepara para dizer algo importante, e foi direta:

“Eu preciso resolver esse vazio.”

O rosto dela não expressava desespero explícito. Não havia choro, nem descontrole. Havia algo mais comum na clínica: um cansaço profundo, quase resignado. O olhar firme, mas opaco. O tipo de olhar de quem já tentou muita coisa e não entende por que nada funcionou.

Não era a primeira sessão. Já tínhamos falado da infância, dos relacionamentos, das escolhas, das frustrações repetidas. Clara era funcional, produtiva, socialmente adaptada. Trabalhava muito, cuidava do corpo, mantinha a vida em movimento. Tudo aparentemente no lugar certo. Ainda assim, o vazio permanecia. E o que mais a incomodava não era exatamente o vazio, mas o fato de ele não ir embora.

Ela queria uma resposta. Uma técnica. Um caminho claro. Algo que pudesse ser aplicado e desse resultado.

Naquele dia, Clara listou tudo o que já tinha tentado para não sentir isso: mais trabalho, mais exercício, mais sexo, mais comida, mais projetos, mais gente, mais estímulo. Falava rápido, preenchendo cada pequeno intervalo de silêncio, como se o vazio pudesse atravessar a tela e ocupá-la se ela parasse de falar.

Em determinado momento, disse algo que escuto com frequência na clínica:

“Quando eu paro, isso vem. Quando fico sozinha, piora.”

Ali estava o ponto central. Não era o vazio que a assustava. Era o encontro com ele.

Na clínica, isso se repete quase como um padrão. As pessoas não chegam dizendo que sentem vazio existencial. Elas chegam dizendo que estão cansadas, ansiosas, sem prazer, irritadas, sem sentido. O vazio aparece depois, quando o barulho diminui. E quase sempre vem acompanhado da mesma pergunta, infantil na essência, embora formulada de forma adulta:

“Como eu faço para isso acabar?”

Essa pergunta já carrega um erro de base.

O vazio não é um defeito

A psicanálise nunca prometeu eliminar o vazio. Pelo contrário, ela nasce exatamente da constatação de que há algo que falta — e sempre faltará. Freud deixa isso claro ao mostrar que o desejo humano não se organiza em torno da satisfação plena, mas da repetição. Não desejamos porque falta algo concreto; desejamos porque somos estruturalmente faltantes.

Lacan radicaliza essa ideia ao afirmar que o sujeito é constituído pela falta. Não existe sujeito completo. Não existe eu fechado, resolvido, inteiro. A tentativa de ser inteiro é uma fantasia narcísica. O vazio não é um acidente de percurso; ele é a base sobre a qual o sujeito se constrói.

Quando alguém como Clara me diz que quer resolver o vazio, o que está dizendo, no fundo, é: “Eu não suporto ser um sujeito faltante.”

E isso é compreensível. Vivemos numa cultura que promete preenchimento o tempo todo. Se você sente algo, consuma. Se dói, anestesie. Se incomoda, distraia. Se silencia, ocupe. O mercado oferece soluções imediatas para angústias estruturais. E o preço disso é alto: quanto mais se tenta preencher o vazio, mais ele grita quando o estímulo acaba.

Na clínica, vejo isso todos os dias. Pessoas exaustas não porque sofrem demais, mas porque fogem o tempo todo. Fugir cansa. Fugir exige energia constante. Fugir de si mesmo é um trabalho em tempo integral.

Beber, comer, transar, produzir, buscar

Não há nada de errado em beber, comer, transar, produzir, buscar, se relacionar. O problema não está nos atos, mas na função que eles assumem. Quando essas atitudes deixam de ser escolhas e passam a ser defesas, algo se perde.

Muitos pacientes não vivem, se anestesiam. Não produzem, se escondem. Não se relacionam, se distraem. Não buscam sentido, buscam silêncio interno. O vazio vira um inimigo a ser derrotado, quando na verdade ele é um mensageiro.

O vazio não pede solução. Ele pede escuta.

Mas escutar o vazio exige algo que quase ninguém quer oferecer: presença. Silêncio. Tempo. Permanência.

Winnicott falava da importância de a pessoa conseguir estar só na presença de alguém. Isso não é isolamento; é maturidade emocional. O problema é que muitos adultos nunca aprenderam a estar consigo mesmos. Sempre precisaram de um objeto, de uma função, de um papel, de alguém que os definisse. Quando isso cai, sobra o quê? O vazio.

E o vazio assusta porque ele não vem com roteiro. Ele não diz o que fazer. Ele apenas revela o que foi abafado.

O medo do que se ouve no silêncio

Em outra sessão, Clara disse algo que considero central:

“Se eu parar, eu desmorono.”

Essa frase aparece muito na clínica. E quase nunca ela é verdadeira. O que acontece, na maioria das vezes, não é o desmoronamento, mas o encontro.

O encontro com pensamentos evitados. Com desejos não assumidos. Com lutos não elaborados. Com raivas reprimidas. Com culpas antigas. Com perguntas que ficaram sem resposta porque ninguém teve coragem de fazê-las.

O silêncio não enlouquece. O que enlouquece é passar a vida inteira fugindo dele.

Jung dizia que aquilo que não enfrentamos em nós mesmos acaba aparecendo como destino. O vazio ignorado não desaparece; ele se manifesta em sintomas. Ansiedade, compulsões, relacionamentos tóxicos, adoecimentos emocionais. O sujeito tenta calar o vazio, e o vazio encontra outras formas de falar.

A clínica não é o lugar de ensinar alguém a preencher o vazio. É o lugar de sustentar a possibilidade de ficar com ele sem precisar correr.

Volto a Clara

Naquela sessão específica, depois de ouvir tudo, eu não ofereci uma técnica. Não propus um exercício. Não dei uma estratégia. Eu disse algo que a incomodou profundamente:

“Talvez o problema não seja o vazio. Talvez seja a sua pressa em acabar com ele.”

Clara ficou em silêncio. Um silêncio longo, pesado, atravessado. O tipo de silêncio que muita gente desconecta a câmera para evitar. Ela permaneceu ali. Eu também. Não preenchi. Não salvei. Não expliquei demais.

Depois de alguns minutos, ela disse, quase num sussurro, com os olhos marejados:

“Então eu vou ter que sentir isso?”

Sim. Vai.

Não porque seja bonito. Não porque seja fácil. Mas porque não existe outro caminho que não seja atravessar aquilo que insiste em existir.

O vazio não é um buraco a ser tapado. É um espaço a ser habitado.

Ao longo das sessões seguintes, o trabalho não foi eliminar o vazio, mas diminuir a urgência de fugir dele. Aos poucos, Clara começou a suportar ficar sozinha sem imediatamente se distrair. Começou a ouvir o que vinha. Nem tudo era agradável. Algumas coisas doíam. Outras faziam sentido. Outras ainda pediam mudanças reais — e não simbólicas.

O vazio deixou de ser um inimigo e passou a ser um sinal. Um espaço onde algo precisava nascer, não ser abafado.

Para quem lê

Se você sente essa sensação de vazio, não conclua rápido demais que há algo errado com você. Talvez o erro esteja na expectativa de que ele não deveria existir. A falta é estrutural. O desejo nasce dela. O sentido se constrói a partir dela. Eliminar o vazio seria eliminar a própria condição humana.

A clínica me ensinou isso todos os dias: quem tenta se preencher demais, se perde. Quem aprende a sustentar a falta, se encontra.

E isso não é confortável.
Mas é real.

O vazio não precisa de solução.
Ele precisa de coragem.


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