A PSICANÁLISE DO PODER: COMO ROMA MATOU JESUS, ASSUMIU SUA IDEIA E DOMINA ATÉ HOJE

Poucas instituições no mundo carregam tanto peso histórico, simbólico e cultural quanto a Igreja Católica. Sua presença é quase onipresente: em símbolos, tradições, liturgias, rituais e na própria forma como a civilização ocidental entende a moralidade. Porém, ao olhar para sua origem, surge um paradoxo que desafia a lógica mais simples: Roma, o Império que matou Jesus e perseguiu seus discípulos por séculos, tornou-se a guardiã de sua memória, a gestora de sua fé e a principal mediadora entre a humanidade e Deus.

Esse paradoxo nos convida a uma reflexão profunda, não apenas histórica, mas também filosófica e psicanalítica: como o poder se metamorfoseia, muda de forma, mas nunca se apaga? De que modo Roma, mesmo em sua ruína política e econômica, permaneceu viva no imaginário coletivo, reinventando-se como religião?

Este texto propõe uma leitura que une história, teologia, filosofia e psicanálise do poder, para compreender como a Roma que parecia derrotada permanece, ainda hoje, ajoelhada diante de nós, ou melhor, nós ajoelhados diante dela.

1. Roma contra Cristo: a morte de Jesus como ato político

A crucificação de Jesus foi um ato jurídico e político romano. Embora os líderes religiosos judeus tenham pressionado pela condenação, o poder de executar partia do Império. A cruz, símbolo máximo da humilhação pública, era uma punição destinada a insurgentes contra Roma.

Jesus não foi morto apenas como um “herege religioso”, mas como alguém que ameaçava a ordem imperial. Sua mensagem de Reino de Deus — um reino não construído por espadas, mas por justiça, amor e verdade — representava uma ameaça ideológica a um sistema fundado na violência e no domínio.

Roma, ao executar Jesus, pretendia eliminar o problema. Mas, paradoxalmente, inaugurava uma história que se tornaria a sua própria metamorfose.

2. A perseguição aos cristãos: do Coliseu ao martírio

Após a morte de Jesus, seus seguidores expandiram a fé por todo o Império. Rapidamente, Roma identificou no cristianismo um perigo. Não apenas por questões religiosas, mas principalmente políticas: os cristãos não cultuavam o imperador, não prestavam reverência aos deuses romanos, e isso era visto como desafio à unidade do Império.

Os primeiros séculos foram marcados por perseguições brutais. Cristãos eram lançados aos leões, queimados vivos, crucificados, usados como espetáculo no Coliseu. O sangue dos mártires, no entanto, não apagou o movimento — antes, o fortaleceu. Quanto mais Roma tentava esmagar o cristianismo, mais ele crescia.

Aqui, já vemos o paradoxo em ação: Roma, o poder que queria exterminar a fé cristã, acabaria por se fundir a ela.

3. A decadência do Império: o vazio de poder e o surgimento do cristianismo como cola social

Do século III em diante, o Império Romano começou a rachar. Crises econômicas, invasões bárbaras, instabilidade política e disputas internas enfraqueceram sua estrutura. Roma, que havia sido construída pela força das legiões, já não tinha mais o mesmo vigor militar e tampouco a mesma unidade cultural.

É nesse contexto que o cristianismo se torna atraente para o poder imperial. Constantino, no século IV, percebeu que a fé cristã poderia servir como instrumento de unificação cultural. O Édito de Milão (313) deu liberdade de culto, e, em 380, com Teodósio, o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império.

Roma não se converteu ao cristianismo. Ao contrário: Roma converteu o cristianismo em Roma.

4. O nascimento da Igreja Católica: poder espiritual como herança imperial

O termo “católica” significa “universal”. A Igreja passou a ser estruturada à imagem do próprio Império: hierárquica, centralizada, com rituais que lembravam cerimônias romanas. Os templos se tornaram basílicas, os bispos se tornaram administradores regionais, e o bispo de Roma passou a reivindicar primazia, associado à figura de Pedro.

Esse é um ponto crucial: ao declarar que Pedro — o líder dos discípulos — havia sido martirizado em Roma, a cidade se tornava o centro da nova fé. O papa, como sucessor de Pedro, assumia não apenas autoridade espiritual, mas também um papel político.

De certa forma, o papa passou a ser uma extensão do imperador: não mais o representante dos deuses pagãos, mas a “voz de Deus” diante do povo.

5. Ajoelhar-se diante de Roma: submissão simbólica

Quando um fiel se ajoelha diante de um altar católico, ele não está apenas se ajoelhando diante de Deus. Inconscientemente, está também diante de uma estrutura de poder forjada por Roma.

O Império, que parecia ruir, encontrou no cristianismo uma forma de perpetuar-se. Ajoelhar-se no templo era, simbolicamente, ajoelhar-se também diante do Império que nunca morreu — apenas mudou de roupagem.

Assim, a Igreja Católica se tornou a herdeira do poder romano: enquanto o exército e as instituições políticas colapsaram, a religião manteve vivo o espírito de Roma, agora enraizado na mente e no coração das pessoas.

6. O poder que sobrevive na mente: uma leitura psicanalítica

Aqui entra a psicanálise. O poder não desaparece; ele se desloca. Roma deixou de existir como força militar, mas permaneceu como representação simbólica no inconsciente coletivo.

Sigmund Freud, em “O Futuro de uma Ilusão”, mostra como a religião funciona como projeção do pai: uma figura de autoridade que organiza, controla e ao mesmo tempo oferece segurança. A Igreja Católica, nesse sentido, não apenas representava Deus, mas também encarnava Roma como figura paterna que exige obediência.

Do ponto de vista lacaniano, poderíamos dizer que Roma conseguiu instalar-se como o “Outro” simbólico: a instância que regula, ordena, normatiza o desejo. O papa, sucessor de Pedro, tornou-se o grande significante da ordem — uma espécie de imperador espiritual.

Portanto, o catolicismo não é apenas uma religião. É a sobrevivência psíquica de Roma, instalada como um superego cultural que continua a dominar a consciência ocidental.

Roma nunca morreu

A tese que aqui defendemos é simples e perturbadora: Roma não foi destruída. Roma vive. Ela sobrevive em cada catedral, em cada missa, em cada genuflexão diante do altar. Vive na estrutura hierárquica da Igreja Católica, na figura do papa, no imaginário coletivo que ainda associa o cristianismo ao poder centralizado de Roma.

Jesus morreu pelas mãos de Roma. Seus seguidores foram perseguidos por Roma. Mas Roma, diante da ameaça de desaparecer, vestiu-se de cristianismo e se perpetuou.

A psicanálise do poder mostra que nenhuma dominação desaparece por completo; ela se reinscreve em novas formas. Roma não é mais exércitos e legiões. Roma é fé, ritual, dogma. Roma é Igreja. Roma é o inconsciente do Ocidente.

E, talvez, cada vez que alguém se ajoelha diante de um altar, repete — sem perceber — um gesto de submissão que atravessa séculos: não apenas a Deus, mas ao Império que nunca morreu.

Deixe um comentário