Um olhar psicanalítico sobre a adultização infantil

Hoje fui procurado por uma aluna do meu curso de psicanálise que me surpreendeu com a disposição e coragem de escrever um artigo que une psicanálise, fé e autoconhecimento. Fiquei feliz em ver o quanto ela está comprometida em refletir sobre temas atuais e tão delicados, trazendo à tona questões que afetam não apenas a psique individual, mas também a saúde emocional da nossa sociedade.

Com muita alegria, compartilho abaixo o artigo escrito por Lúcia Zuza, aluna do curso de Psicanálise do Instituto José Manoel Vieira.

UM OLHAR PSICANALÍTICO SOBRE A ADULTIZAÇÃO

Por Lúcia Zuza

Em um país que às vezes mais se assemelha a um hospício, um único jovem conseguiu algo que merece ser reconhecido: fez as pessoas pararem para pensar. O que ele fez na internet foi o que falta no Congresso Nacional. De forma simples e altruísta, trouxe ao debate público um tema urgente e necessário, levando milhões de brasileiros, no final de semana do Dia dos Pais, a refletirem sobre algo que impacta profundamente cada família.

Esse movimento fez com que muitos pais e mães parassem para observar com mais atenção a realidade em que estamos vivendo: uma sociedade fragilizada em seus valores morais e éticos, e a necessidade urgente de cuidar do que as crianças acessam na internet.

Vivemos em uma era em que a tecnologia evolui em ritmo acelerado, e as crianças têm fácil acesso a todo tipo de conteúdo. Por isso, o papel dos pais é fundamental: precisam estar atentos ao que seus filhos consomem, pois muitas vezes esses conteúdos podem afetar negativamente o psicológico infantil.

A criança depende 100% dos pais, e toda responsabilidade pelo ambiente familiar recai sobre eles. O que se aprende na infância dificilmente se esquece na fase adulta.

Viés bíblico

“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Provérbios 22:6).

Esse versículo traz uma reflexão profunda de Salomão sobre valores e conduta, ressaltando a importância de implementá-los desde a infância.

A Bíblia também nos ensina que a disciplina é uma forma de amor e cuidado. “Quem poupa a vara, aborrece a seu filho; mas quem o ama, a seu tempo o castiga” (Provérbios 13:24). Não se trata de punição, mas de orientar com firmeza e amor, buscando maturidade e crescimento.

Além disso, os pais são modelos para seus filhos. Em Efésios 6:4, encontramos a instrução de não irritar os filhos, mas criá-los na disciplina e admoestação do Senhor. Isso significa viver os valores que se ensina, sendo exemplo prático.

Outros textos bíblicos reforçam esse entendimento:

Provérbios 29:17: “Discipline seu filho, e ele lhe dará motivo de orgulho e lhe trará satisfação.” Salmos 127:3: “Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá.”

Educar filhos é um desafio, mas também uma bênção. Seguindo os princípios bíblicos de amor, disciplina e exemplo, os pais ajudam seus filhos a crescerem em sabedoria, fé e caráter.

Aspecto psicanalítico

Na psicanálise, a adultização infantil é compreendida como o processo em que a criança é exposta de forma precoce a papéis e responsabilidades típicos do mundo adulto — seja no plano emocional, social, sexual ou econômico.

Freud e, posteriormente, autores como Winnicott e Françoise Dolto ressaltaram que a criança precisa de tempo e espaço para atravessar cada etapa do desenvolvimento emocional e psicossexual. A adultização interrompe esse fluxo natural, antecipando papéis para os quais a criança não tem recursos psíquicos.

Formas de adultização:

Sexualização precoce, através de conteúdos eróticos ou estímulos inadequados; Exigências emocionais ou responsabilidades que ultrapassam a capacidade infantil.

Consequências psíquicas:

Rompimento da infância simbólica, com perda da fantasia e do brincar; Ansiedade e culpa, por se sentir responsável pelo que não pode controlar; Identidade fragilizada, pela necessidade de encenar papéis para agradar ou proteger figuras parentais; Repercussões na vida adulta, como dificuldade de impor limites ou assumir excessivamente a função de cuidador.

Muitas vezes, o ciclo se repete de forma transgeracional: pais adultizados tendem, inconscientemente, a repetir o padrão com os filhos.

No consultório psicanalítico, é comum encontrar adultos que, ao revisitarem a infância, percebem que “pularam etapas”. O processo terapêutico busca reconstruir simbolicamente esse espaço infantil, elaborar o luto pela fase perdida, ressignificar papéis e trabalhar a culpa introjetada.

Impactos psicológicos e sociais

No campo psicológico, as consequências da adultização e, em casos mais graves, do abuso sexual, são devastadoras. Crianças expostas a esse tipo de situação carregam múltiplos traumas: além do abuso em si, sofrem com a repetição do ato toda vez que o material é acessado ou compartilhado.

Isso pode gerar quadros de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e sentimentos profundos de vergonha ou culpa. A internet amplia ainda mais o sofrimento, pois as imagens podem circular indefinidamente, dificultando a recuperação emocional.

Questão ética

Não existe “curiosidade inocente” quando se trata desse tema. Qualquer acesso ou armazenamento de material envolvendo crianças significa reforçar uma cadeia de abuso.

O enfrentamento desse mal exige não apenas ação das autoridades, mas também a postura vigilante de toda a sociedade. Precisamos denunciar, prevenir e educar, garantindo a proteção integral de crianças e adolescentes.

📌 Em síntese: a psicanálise nos ajuda a compreender os impactos da adultização, enquanto a fé e os princípios bíblicos apontam caminhos de responsabilidade, amor e disciplina. Cabe a nós, como sociedade, pais, educadores e cidadãos, cuidar para que nossas crianças tenham o direito sagrado de viver plenamente a infância.

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