Hoje, durante um atendimento clínico, um paciente me trouxe uma dúvida aparentemente banal, mas que esconde um abismo de significados. Ele estava assistindo a uma das aulas do meu curso de psicanálise, quando ouviu que muitas mulheres têm dificuldade de urinar ou defecar fora de casa. Segundo a professora, isso estaria ligado a uma educação corporal mais rígida na infância. Ele, então, me perguntou:
“Mas e quando isso acontece com um homem? Porque eu sou assim desde pequeno. Eu travo. Não consigo.”
Essa pergunta abriu uma porta potente para o inconsciente.
A maioria das pessoas imagina que os sintomas psíquicos se manifestam sempre na mente: ansiedade, compulsão, tristeza, fobia. Mas o corpo também fala — e às vezes o corpo grita o que a alma não teve permissão para dizer.
A dificuldade de urinar ou evacuar fora de casa pode parecer uma questão de hábito ou conforto, mas na clínica psicanalítica, nada é só o que parece. Freud já nos dizia: o sintoma é uma formação de compromisso entre o desejo e a repressão. E, nesse caso, o desejo é o de “se soltar”, enquanto a repressão impõe a ordem: “segure-se, contenha-se, não se exponha”.
A fase anal: onde tudo começa
A teoria freudiana do desenvolvimento psicossexual nos ajuda a entender essa dinâmica. Entre os 1,5 e os 3 anos de idade, a criança atravessa o que Freud chamou de fase anal. É nesse período que ela aprende a controlar seus esfíncteres — e, portanto, pela primeira vez, ela experimenta o poder de controlar algo que vem de dentro dela mesma.
Mas essa fase não trata só do cocô ou do xixi em si. Trata da relação da criança com a autoridade, com a imposição externa e com a valorização (ou punição) que ela recebe ao obedecer ou desobedecer.
Pais que impõem o desfralde com rigidez, exigência ou vergonha (“isso é feio!”, “menina limpinha não faz isso!”, “menino forte não chora nem se suja!”), sem perceber, criam na criança uma relação ambivalente com o próprio corpo e com a própria expressão emocional.
Esse controle precoce pode gerar uma personalidade que, na vida adulta, é controladora, avessa à exposição e extremamente desconfortável com qualquer tipo de vulnerabilidade.
O corpo que não se entrega
No caso do meu paciente, o sintoma persistiu até a vida adulta. Ele só consegue usar o banheiro quando está no “seu lugar seguro”, em casa, sozinho. Em qualquer outro ambiente — hotel, empresa, restaurante, até mesmo casa de familiares — ele trava.
“Eu fico tenso. Meu corpo não solta. Sinto que estou me expondo. É estranho. Como se algo dentro de mim dissesse: ‘aqui, não’.”
Essa fala é um retrato claro de um apego à segurança emocional que, por não ter sido garantida na infância, é transferida ao corpo.
Esse homem cresceu em uma casa onde expor sentimentos era perigoso. Chorar era motivo de repreensão. Sentir raiva, proibido. Demonstrar afeto, visto como fraqueza. A mensagem que ele recebeu durante anos foi: “segure tudo o que sente. Recolha. Comporte-se. Seja forte.”
E é isso que o corpo dele aprendeu: segurar. Conter. Não deixar sair. Nem xixi, nem cocô. Nem dor, nem afeto. Nem verdade.
A repressão feminina e a educação do pudor
A educação corporal mais rígida das meninas é um fato social e cultural. Elas são ensinadas desde cedo a “serem limpinhas”, a não ocuparem espaço, a não fazerem barulho. Enquanto muitos meninos têm a liberdade de serem bagunceiros, as meninas recebem censura. O corpo feminino é educado à base da vergonha e do pudor.
Por isso, muitas mulheres também desenvolvem essa dificuldade de evacuar ou urinar fora de casa. O banheiro público, para elas, não é apenas um lugar funcional. É um palco de julgamento. Elas sentem que estão sendo observadas, vigiadas, mesmo quando estão sozinhas. E o corpo responde com tensão, com bloqueio.
Mas e quando acontece com os homens?
O caso do meu paciente é um lembrete de que a repressão emocional não tem gênero. Homens também são castrados emocionalmente, mas muitas vezes de formas mais sutis e profundas. A cultura do “homem que não chora” ainda está viva, e o preço disso se paga no corpo, na alma, na solidão.
Esse paciente, como tantos outros, tinha medo de se expor. Medo de que as pessoas vissem o que ele guarda. Medo de mostrar sua humanidade.
E, veja bem: fazer cocô ou xixi é a coisa mais humana que existe. É o corpo dizendo: “estou vivo, estou funcionando, estou liberando o que não preciso mais”. Mas para alguém que aprendeu a reprimir tudo o que sente, até isso pode ser um risco emocional.
O banheiro como metáfora
Na psicanálise, o simbólico está em tudo. E o banheiro é um lugar simbólico por excelência: é onde vamos para ficarmos sozinhos, nos aliviarmos, nos limparmos, nos expormos a nós mesmos.
A dificuldade de usar esse espaço em outros ambientes pode estar relacionada com:
Vergonha corporal; Falta de segurança emocional na infância; Traumas associados à exposição ou punição; Experiências precoces de invasão de privacidade; Relação rígida com o controle e a vulnerabilidade.
O corpo como espelho da psique
O corpo não esquece o que a alma tenta esconder. E, muitas vezes, é no sintoma físico — como uma simples dificuldade de urinar fora de casa — que encontramos a porta de entrada para as feridas emocionais mais profundas.
Essa escuta sensível, que não julga nem corrige, mas acolhe e investiga, é o que a psicanálise propõe. Porque ninguém “trava” por acaso. Ninguém se fecha porque quer. Há sempre um motivo. E, quando compreendemos esse motivo, começamos a libertar o corpo e a alma de padrões que nos aprisionam há anos.
Parecia corriqueiro
O que parecia uma pergunta corriqueira — “por que algumas pessoas não conseguem fazer xixi fora de casa?” — se transformou, no consultório, em uma jornada de autoconhecimento.
Ali estava um homem adulto, aparentemente funcional, dizendo: “eu tenho medo de me expor”.
E o corpo dele estava ali para confirmar.
Somos feitos de camadas. Camadas de lembranças, repressões, frases ouvidas na infância, silêncios, censuras, ordens. E cada uma dessas camadas pode se manifestar na forma de sintomas, comportamentos, bloqueios.
Mas a boa notícia é: o que foi construído pode ser desconstruído. O que foi aprendido pode ser ressignificado.
Na escuta, na análise, na coragem de olhar para dentro, encontramos não apenas respostas — mas libertações.
Se você sente que o seu corpo também guarda memórias que você não entende, talvez seja hora de ouvir o que ele quer te dizer.


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