Durante muito tempo da minha vida, eu achei que os traumas que vivi serviam apenas para me destruir.
Eu cresci ao lado de um pai com transtornos mentais profundos. Essa convivência, marcada por medo, silêncio e insegurança, deixou marcas. Mas essas marcas — hoje eu sei — não foram apenas cicatrizes. Foram guias. Direções. Convites silenciosos para algo maior. Convites que a dor me fazia todos os dias, até que eu parei de resistir e comecei a ouvir.
Freud, o pai da psicanálise, já dizia que todo sintoma tem um sentido. Nada no nosso sofrimento é por acaso. Existe um desejo por trás da dor, uma pulsão reprimida, uma história que quer ser contada — e transformada. O trauma, segundo Freud, é um rompimento do fluxo natural da energia psíquica. Um impacto tão forte que o psiquismo não dá conta de elaborar na hora. Mas o fato é: a energia não some. Ela precisa ir pra algum lugar. E é aí que muita gente se perde.
O lugar errado da dor
Quando não escolhemos conscientemente o lugar para projetar a dor, ela escolhe por nós. E quase sempre escolhe o pior caminho: adoecimento. Ansiedade, depressão, fobias, compulsões, vícios, relacionamentos destrutivos. Você pode até dizer que está “vivendo a vida normalmente”, mas se não estiver colocando essa energia em algo criativo, ela vai encontrar uma forma destrutiva de se manifestar. O inconsciente, afinal, não perdoa. Ele cobra.
Eu demorei a entender isso.
Demorei a perceber que a dor que eu carregava por dentro — por ter visto meu pai perder a si mesmo, por ter crescido sentindo que o chão podia desaparecer a qualquer momento — precisava de um lugar. Um lugar onde ela pudesse se transformar. E não estou falando de um lugar simbólico apenas. Estou falando de um trabalho, de um propósito real, de uma profissão com alma.
O trauma é um chamado disfarçado
Eu falo com você agora como alguém que descobriu que os maiores traumas não são apenas feridas abertas — são chamados disfarçados. O trauma pode ser o maior convite que a vida faz para você encontrar o seu propósito. Porque ali, onde mais doeu, é onde você mais entende. Mais sente. Mais tem empatia.
É o seu lugar de escuta profunda.
Foi por isso que, ao invés de me anestesiar, eu escolhi mergulhar. Fui estudar o psiquismo. Fui entender o que se passa no silêncio de uma mente atormentada. Fui descobrir o que a alma humana precisa para se curar. E, aos poucos, fui percebendo que aquela criança com medo do pai não estava apenas perdida. Ela estava sendo formada. Ela estava desenvolvendo a escuta, a sensibilidade, a compaixão, a análise, a curiosidade. Tudo isso, sem saber, já era a base do meu chamado.
Hoje, minha missão é ajudar pessoas a se curarem. E eu não tenho dúvida: meu propósito nasceu da minha dor.
A profissão como lugar de sublimação
Na psicanálise, chamamos de sublimação esse processo de transformar a energia da dor em algo construtivo. É quando você desloca a energia da pulsão, que poderia ser destrutiva, para uma atividade socialmente aceita e criativa. Arte, ciência, religião, trabalho. Tudo isso pode ser campo de sublimação.
Mas o trabalho, a profissão, talvez seja o campo mais potente.
Quando você encontra uma profissão que serve como canal para a dor que viveu, você para de sofrer. Não porque a dor sumiu, mas porque ela ganhou sentido. Ela começou a servir a algo maior. E é por isso que tantas pessoas encontram cura na vocação. Porque é ali que a energia que estava presa, repetindo sintomas e criando sofrimento, finalmente se move.
Ali, ela flui. Ela serve. Ela cura — o outro e a si mesmo.
Mas e quem ainda está patinando?
Se você está lendo esse texto e sente que está perdido, sem propósito, numa profissão que não te representa, talvez seja porque você ainda não ouviu sua dor com atenção. Talvez esteja evitando olhar para ela, ou tentando racionalizá-la demais. Ou pior: tentando fingir que não foi nada demais. Mas foi.
E se foi, deixou rastro.
A psicanálise nos ensina que aquilo que reprimimos, nos domina. Recalcamos uma dor e ela volta em forma de sintoma. Fingimos que não fomos feridos e, inconscientemente, sabotamos nossas relações, nossa carreira, nossa alegria. Por isso, o primeiro passo é parar de fugir. E começar a perguntar: “O que a minha dor está tentando me mostrar?”
Essa pergunta pode mudar a sua vida.
Pode fazer você perceber que o seu maior dom nasceu exatamente onde você mais sofreu. Pode revelar que sua sensibilidade para ouvir o outro vem de não ter sido ouvido. Que sua facilidade em acolher nasce do abandono que viveu. Que seu desejo por justiça é fruto de uma infância onde tudo parecia injusto.
Nada é por acaso. A dor molda o destino, sim. Mas só se você deixar.
O perigo da profissão errada
Quando não escolhemos uma profissão com base no nosso chamado interior, acabamos escolhendo com base no ego, no status, no dinheiro, ou nas expectativas alheias. E isso, a longo prazo, gera vazio. Frustração. E muitas vezes, doença.
Conheço gente extremamente competente, ganhando muito bem, com status e reconhecimento, mas profundamente infeliz. Porque nunca parou para se perguntar: “De onde vem esse meu desejo de fazer o que faço?” — ou melhor — “Será que isso que eu faço está a serviço de algo maior em mim?”
Se a resposta for “não”, tem algo errado.
E talvez a cura da sua vida esteja justamente em mudar essa direção. Não estou dizendo que é fácil. Nem que todo mundo pode largar tudo e começar do zero. Mas estou dizendo que você pode — e deve — começar a olhar para sua dor com respeito. Ela tem algo a te dizer. Ela quer te conduzir. E se você escutar com atenção, ela vai te mostrar qual é o seu verdadeiro lugar no mundo.
O que você faria com a sua dor se ela virasse potência?
Pense agora: e se você transformasse toda a sua dor em serviço? E se tudo aquilo que mais doeu fosse usado para aliviar a dor de outras pessoas? E se a sua profissão deixasse de ser apenas um meio de sobrevivência e passasse a ser um instrumento de transformação?
Eu fiz esse movimento. Não foi da noite pro dia. Mas foi libertador.
Hoje, cada vez que atendo alguém, cada vez que escrevo, cada vez que ensino, eu sinto que aquela criança ferida em mim está sendo cuidada. Porque eu dei a ela um lugar. Um papel. Uma função. Ela deixou de ser fantasma para se tornar guia. E é por isso que eu digo: a profissão certa pode curar sua alma.
Porque quando trabalhamos com propósito, o trabalho deixa de ser obrigação e passa a ser missão.
A dor é o início da jornada
Se eu pudesse te dizer uma única coisa hoje, seria isso: não despreze a sua dor. Ela não é o fim. Ela é o começo. O começo de uma jornada que pode te levar ao centro do seu ser. E, de lá, irradiar algo para o mundo. Algo que só você pode oferecer. Porque ninguém viveu o que você viveu. Ninguém sentiu o que você sentiu. Ninguém foi ferido como você foi. E, por isso mesmo, ninguém pode curar como você pode.
O trauma não é só uma ferida. É um mapa. Um mapa que aponta para o seu dom, para sua vocação, para o seu chamado mais profundo.
Ouça. Caminhe. Sirva.
E, assim, cure.


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