Naquela terça-feira nublada, Aline chegou ao consultório com o semblante pesado. Ela tentava sorrir, como fazem aqueles que aprenderam a sobreviver fingindo que está tudo bem. Mas bastaram alguns minutos de silêncio — aquele silêncio acolhedor que só a escuta psicanalítica oferece — para que as lágrimas começassem a cair.
“Eu tenho medo”, ela disse. “Medo de mudar, medo de ser julgada, medo de fracassar. Eu não sei o que fazer com tanto medo.”
Ali, diante de mim, estava uma mulher inteligente, sensível, cheia de potencial, mas prisioneira de algo que não se pode ver nem tocar: o medo.
Aline e seus fantasmas
Aline não era diferente de tantas outras pessoas que chegam à análise esperando uma fórmula para “melhorar”, mas trazendo uma mala cheia de fantasmas — a maioria herdada da infância. Quando começamos a reconstruir sua história, foi ficando evidente o quanto ela havia sido moldada por expectativas alheias.
Seu pai, um homem rígido, sempre dizia que “emoção é fraqueza”. A mãe, sempre ansiosa, dizia que “o mundo é perigoso”. Crescer nesse ambiente fez com que Aline se tornasse uma adulta que questionava tudo — menos seus próprios medos.
Ela havia aprendido a desconfiar de si mesma. Quando tinha vontades, desejos ou impulsos criativos, logo vinham os pensamentos sabotadores:
“Isso é besteira. Você não vai conseguir. Vai passar vergonha. Todo mundo vai rir de você.”
Essas frases, tão presentes em sua mente, não eram dela — mas ela acreditava que eram. E aqui entra um ponto essencial da psicanálise: a distinção entre o eu verdadeiro e o eu moldado pelo Outro.
O medo como construção do Superego
Sigmund Freud já nos alertava que dentro de nós habitam forças em conflito: o Id, o Ego e o Superego. O Id deseja, o Ego negocia com a realidade, e o Superego impõe as regras morais e sociais que aprendemos com nossos pais, professores, religião, cultura…
No caso de Aline, o Superego se tornara um tirano. Toda vez que ela queria algo, o Superego surgia dizendo “não pode”, “isso é errado”, “isso é perigoso”.
Mas não era a realidade que a limitava — era essa instância psíquica que ela havia introjetado ao longo da vida, com base em vozes que não eram suas.
Como analistas, não julgamos o medo. Nós o escutamos. Porque o medo, assim como os sonhos, fala. Ele revela o que está oculto, o que foi reprimido, o que não pôde ser vivido.
Com o tempo, Aline foi percebendo: não era o mundo que a impedia de viver, era o modo como ela o interpretava. E essa interpretação estava contaminada por dores antigas, por traumas não resolvidos, por palavras que ela ouviu na infância e nunca questionou.
A função protetora e ilusória do medo
É importante entender que o medo tem uma função. Ele é uma defesa. É o nosso sistema límbico tentando nos proteger. Mas, na vida adulta, ele frequentemente se torna uma prisão. Como dizia Jacques Lacan, “o real não é o que nos ameaça, é o que não conseguimos simbolizar”. E quando não simbolizamos algo, tendemos a temê-lo.
Aline tinha medo do novo, do incerto, do julgamento — mas, no fundo, tinha medo de si mesma. Medo de descobrir quem ela realmente era, para além das máscaras que aprendeu a usar.
Quando começou a nomear seus desejos, a falar sobre eles na análise, algo lindo começou a acontecer: o medo foi perdendo força.
Descobrimos, por exemplo, que ela queria trabalhar com arte. Mas jamais havia dito isso em voz alta. Quando ela finalmente disse: “Eu quero pintar. Eu sempre quis pintar”, ela se emocionou.
Naquele momento, sua voz saiu trêmula, mas verdadeira. Era o nascimento do sujeito.
Viver é arriscar — e é por isso que o medo aparece
Não é possível viver de verdade sem encarar o medo. Não porque ele vai embora, mas porque aprendemos a caminhar com ele. Aline achava que precisava vencer o medo para agir. Mas a verdade é o contrário: a ação vem primeiro, e o medo se desfaz depois.
Começamos a trabalhar esse ponto de maneira prática. Toda semana, ela deveria fazer algo que lhe causava medo — mas que, ao mesmo tempo, era desejo.
Na primeira semana, ela ligou para uma galeria para perguntar sobre cursos.
Na segunda, postou seus primeiros desenhos na internet.
Na terceira, fez sua primeira aula de pintura.
Na quarta, me disse com um sorriso: “É estranho… parece que o medo está indo embora”.
E eu disse:
“Não, Aline. O medo não está indo embora. Você é que está deixando de acreditar nele.”
A psicanálise como caminho de escuta e liberdade
A análise não retira o medo. Ela te ensina a olhar para ele sem fugir.
Como dizia Winnicott, “é no espaço potencial — esse lugar entre o mundo interno e o externo — que o verdadeiro self pode se expressar.” E foi exatamente isso que Aline reencontrou: seu verdadeiro self, seu desejo genuíno, sua liberdade criativa.
Na última sessão antes de escrever este texto, ela me disse:
“Eu percebi que tudo o que me impedia era uma história que eu repetia na cabeça. Uma história de fracasso que nem era minha.”
E então completou:
“Eu estou escrevendo uma nova história. Agora, do meu jeito.”
O medo é só uma ilusão
E aqui está a grande revelação que aprendi com a jornada de Aline — e que vejo todos os dias em meus atendimentos: o medo é uma ilusão.
Não estou dizendo que ele não existe, mas sim que ele não é real da forma como acreditamos que é. Ele é uma construção. Um eco de vozes antigas. Uma distorção da realidade.
Na maioria das vezes, o medo é uma defesa exagerada do ego, uma resposta automática baseada em experiências passadas que não necessariamente se repetirão.
Quando escutamos o medo sem sermos dominados por ele, algo mágico acontece: ele revela o desejo escondido por trás de sua máscara.
Sim, por trás do medo, quase sempre existe um desejo.
O medo de falar em público esconde o desejo de ser ouvido.
O medo de amar esconde o desejo de ser amado.
O medo de errar esconde o desejo de realizar.
Aline descobriu que a vida começa depois do medo
Aline hoje vive uma vida mais leve. Ela ainda sente medo, claro. Todos sentimos. Mas agora ela sabe que ele não manda mais.
Ela assumiu o volante da própria existência.
Começou a se permitir.
Começou a se ouvir.
E, sobretudo, começou a viver.
Ela é a prova de que, quando temos coragem de mergulhar em nós mesmos, encontramos ali dentro tudo o que precisamos para caminhar.
Ela é a prova de que, mesmo com medo, é possível seguir.
E você?
Está esperando o medo passar para viver?
Não espere. O medo não vai embora. Mas você pode deixar de acreditar nele.
Comece agora.
Dê o primeiro passo.
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