Recebi, certa vez, em meu consultório, uma jovem chamada Carla (nome fictício). Ela chegou angustiada, com uma inquietação que a acompanhava há anos, mas que agora tomava proporções insuportáveis. Com os olhos marejados e a voz trêmula, ela me disse: “Eu não aguento mais. Sempre me envolvo com homens que me traem… e, pior, eu também acabo traindo. É como se eu estivesse repetindo um roteiro que nem entendo direito.”
Enquanto ela falava, era nítido que essa dor não era apenas sobre os relacionamentos atuais. Era uma dor antiga, enraizada, que exigia escuta e cuidado. Como psicanalista, minha função não é dar conselhos, mas ajudar o sujeito a encontrar o sentido do seu sofrimento — que nunca é óbvio, nunca é superficial.
A história de Carla me lembrou de algo que Freud pontua em seus escritos sobre repetição: “O paciente se comporta como se estivesse impelido a repetir o reprovável passado, sem ter consciência disso.” Essa repetição é uma tentativa inconsciente de dominar, controlar e transformar um trauma — que, na origem, foi incontrolável.
O trauma original: o falo que escapa
No decorrer da sessão, Carla relatou que, quando criança, viu o pai trair a mãe. Ela tinha apenas nove anos, mas a imagem ficou gravada na sua mente como uma tatuagem emocional. Ela não compreendia totalmente o que significava aquilo, mas sentia que algo nela havia sido profundamente violado.
Quando uma menina presencia o pai traindo a mãe, o impacto vai muito além do casamento dos pais. Para a criança, especialmente para uma filha, o pai representa o primeiro grande amor simbólico. Ele é, muitas vezes, o primeiro homem a quem ela deseja agradar, de quem espera reconhecimento e afeto. Quando esse pai trai a mãe, a criança não interpreta como uma quebra da conjugalidade. Ela se sente traída pessoalmente. É como se ele tivesse preferido “a outra” no lugar dela.
Esse sentimento de traição, que deveria ser elaborado no consciente, é intolerável. Assim, o psiquismo o lança para o inconsciente — onde ele continuará agindo, mas de maneira disfarçada. Como Freud afirma em “Além do Princípio do Prazer”, o sujeito tende a repetir compulsivamente a cena traumática, não por prazer, mas por uma tentativa desesperada de dominá-la retroativamente.
Tornar-se o pai: a identificação como defesa
A defesa inconsciente que Carla desenvolveu foi poderosa e sutil: ela passou a se identificar com o pai. Tornou-se aquela que trai — não mais a traída. Isso, paradoxalmente, dá a sensação de controle. Se ela é quem trai, ela não está vulnerável à dor da traição. Se ela antecipa a quebra do vínculo, ela se protege de ser descartada.
Essa identificação, no entanto, não é consciente. Ela não deseja ser como o pai — mas precisa sê-lo para não ser a menina impotente que viu sua mãe ser humilhada. Ao repetir os comportamentos do pai, ela tenta controlar a cena da dor. Ao viver a mesma história, sente que pode, enfim, resolvê-la.
Mas é uma ilusão. A repetição não cura — apenas reabre a ferida. Como Lacan nos ensina, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. E essa linguagem, no caso de Carla, era uma gramática de dor, culpa e desejo de reparação.
O sonho: o namorado que deseja uma mulher mais nova
Durante a sessão, Carla relatou um sonho recorrente: seu namorado a trocava por uma mulher mais jovem. Ela acordava angustiada, com medo de envelhecer, de ser substituída. Sonhos, na psicanálise, são caminhos reais para o inconsciente. E esse, em especial, revelava a cena originária: o pai trocando a mãe (e, simbolicamente, a própria Carla) por outras mulheres.
O medo de envelhecer está atrelado à fantasia de que, ao perder a juventude, ela perderá também o único trunfo que acredita ter para manter o amor masculino. Aprendeu, desde cedo, que a disputa com outras mulheres era inevitável — e que vencer essa disputa era questão de sobrevivência afetiva.
A mãe insuficiente e a fidelidade inconsciente
Outro ponto que emergiu com força foi a relação com a mãe. Carla rejeitava profundamente a imagem da mãe. A considerava fraca, submissa, “incapaz de segurar um homem”. Ocorre que, ao mesmo tempo em que a rejeitava, era profundamente fiel a ela. Essa fidelidade inconsciente a colocava em situações semelhantes às da mãe, numa tentativa de salvá-la retroativamente.
“Eu não quero ser como minha mãe”, ela dizia. Mas repetia a história da mãe com precisão: envolvia-se com homens desonestos, sofria e permanecia. A mente inconsciente opera com essa lógica paradoxal: para não ser como a mãe, ela precisa reviver a dor da mãe — e triunfar onde a mãe fracassou.
O que Carla buscava, sem saber, era convencer o pai (representado em todos os homens que encontrava) de que ela era diferente da mãe. Ela queria provar que era digna, que era boa, que merecia ser amada. Queria conquistar o “falo perdido” — esse símbolo que representa poder, reconhecimento e amor.
O foco da vida de Carla havia se tornado um projeto inconsciente: encontrar, consertar e convencer um homem (falo) a ficar. Como se, ao fazer isso, pudesse salvar a si mesma e redimir a história de sua mãe.
A sexualidade como campo de batalha psíquico
A repetição da traição, tanto sofrida quanto praticada, também precisa ser compreendida pelo viés do desejo. Na psicanálise, o desejo não é algo simples. Lacan afirma que o desejo é o desejo do Outro — e, no caso de Carla, o desejo dela foi colonizado por uma cena traumática. Ela aprendeu que ser desejável é estar em disputa, é competir, é vencer. E isso gerou um erotismo tóxico, sustentado pela insegurança e pelo medo da rejeição.
Ao trair, ela também busca reafirmar seu valor: “Se outro homem me deseja, é porque ainda sou válida.” Mas esse jogo é perigoso: alimenta o narcisismo ferido e aprofunda o abismo interno.
Atravessar a repetição: o caminho da cura
Não há cura fora do enfrentamento do trauma. Como dizia Winnicott, “A cura acontece na repetição, desde que esta seja contida por um ambiente suficientemente bom.” No setting analítico, ofereci a Carla esse espaço. Um lugar onde ela poderia repetir, mas, dessa vez, com consciência. Poderia reviver a cena da dor, mas agora com palavras, não com comportamentos destrutivos.
A análise se torna o campo simbólico onde o trauma é reinscrito, onde o sintoma é escutado, onde o sujeito é convidado a reescrever sua história — não com os mesmos personagens, mas com um novo enredo.
Conclusão: um novo lugar para o desejo
O caso de Carla é emblemático. Mostra como o psiquismo humano é complexo, como repetimos histórias antigas na tentativa de resolvê-las, e como, muitas vezes, nos tornamos aquilo que mais tememos — não por escolha, mas por defesa.
Na escuta clínica, pude ajudá-la a nomear sua dor, entender suas repetições e, aos poucos, construir uma nova relação com seu desejo. Um desejo que não seja apenas reflexo da ferida, mas expressão de sua verdade.
Ao final da sessão, disse a ela: “Você não precisa mais se tornar o pai para não ser traída. Você pode ser você — e isso é muito mais do que suficiente.”
E ali, entre lágrimas e silêncio, uma nova história começou.
Se você deseja saber o seus traumas, eu tenho um livro que pode te ajudar. Clique na imagem abaixo.



Deixe um comentário