No último fim de semana, ganhei um presente da minha namorada: ela me levou para assistir ao filme “É Assim Que Acaba” (It Ends With Us), filme baseado no livro de Colleen Hoover. Posso dizer que foi um dos maiores presentes que já recebi na vida.
Claro que ir ao cinema já seria, por si só, um presente e tanto, já que sou do tipo que valoriza mais as experiências do que as coisas. Mas a grande surpresa é que eu imaginava encontrar um filme romântico típico, daqueles em que tudo acaba bem no final, após muitas mudanças por parte de um homem que nunca foi bom, mas que decide mudar após encontrar a mulher da sua vida.
Muito pelo contrário! E aqui, já quero avisar a você que lê esse texto que, se decidir continuar, haverá spoilers.
O filme apresenta uma história intensa e complexa que envolve temas como o amor, a violência doméstica e o narcisismo. Como um psicanalista, ao analisar esse filme, é possível identificar como o comportamento do agressor, Ryle Kincaid, exemplifica as características clássicas do narcisismo. A análise das suas ações ao longo do filme revela como essas atitudes tóxicas são profundamente enraizadas em seu comportamento e como elas impactam negativamente a vida da protagonista, Lily Bloom.
A Estrutura do Narcisismo no Filme
O narcisismo é uma condição psicológica marcada por uma obsessão com a própria imagem, uma necessidade de admiração excessiva e uma falta de empatia pelos outros. Ryle, no filme, é apresentado inicialmente como um homem charmoso, ambicioso e apaixonado, mas com o desenrolar da trama, suas atitudes revelam uma personalidade controladora e manipuladora, típica de um narcisista.
Primeiros Sinais: O Encanto Superficial
Logo no início do filme, Ryle é retratado como um neurocirurgião bem-sucedido e encantador, o que facilmente conquista Lily. Esta é uma característica comum de indivíduos narcisistas: eles costumam ser altamente charmosos e encantadores, especialmente nas fases iniciais de um relacionamento. Durante seus primeiros encontros, Ryle demonstra um comportamento envolvente, e sua atenção parece completamente focada em Lily. Essa fase inicial de “idealização” é típica de relacionamentos narcisistas, onde o agressor faz o parceiro se sentir especial e único.
A Emergência do Controle
No entanto, conforme o relacionamento progride, Ryle começa a mostrar sinais de comportamento controlador. Uma cena-chave que exemplifica isso é quando ele expressa ciúmes e tenta controlar as amizades de Lily, especialmente com seu antigo namorado, Atlas. Ryle se mostra possessivo e tenta isolar Lily, um comportamento típico de um narcisista que busca controlar o ambiente de seu parceiro para manter sua posição de poder.
A Violência Como Expressão do Narcisismo
O ápice do comportamento narcisista de Ryle ocorre durante os episódios de violência. A primeira vez que ele agride Lily, ele rapidamente tenta minimizar a gravidade da situação, justificando seu comportamento e pedindo desculpas de maneira manipuladora. Ele promete que não acontecerá novamente, o que é uma tentativa clássica de manipulação emocional, comum em narcisistas que alternam entre abuso e pedidos de desculpas para manter o controle sobre suas vítimas. Uma das cenas mais impactantes é quando Ryle, em um acesso de raiva, empurra Lily, resultando em um corte em sua cabeça. Ao invés de reconhecer plenamente a gravidade de suas ações, ele tenta justificar seu comportamento com argumentos sobre seu passado difícil e traumas, desviando a responsabilidade e culpando fatores externos, uma característica narcisista evidente.
Manipulação e Gaslighting
Outro aspecto do narcisismo de Ryle é sua constante tentativa de manipular a percepção de Lily sobre o que está acontecendo. Ele frequentemente minimiza os abusos, fazendo com que Lily questione sua própria percepção da realidade – um fenômeno conhecido como gaslighting. Em uma cena específica, após um episódio de violência, Ryle tenta convencer Lily de que ela exagerou a situação, tentando distorcer sua percepção e fazê-la acreditar que o problema não é tão grave quanto parece.
Falta de Empatia
Uma característica fundamental dos narcisistas é a falta de empatia, e isso é claramente visível no comportamento de Ryle. Apesar de suas promessas de mudança e de amor, ele continua a repetir os padrões abusivos, demonstrando que suas preocupações estão centradas apenas em si mesmo. Quando Lily confronta Ryle sobre o impacto que suas ações estão tendo nela, ele parece incapaz de entender verdadeiramente o sofrimento que está causando, evidenciando sua incapacidade de se conectar emocionalmente com as necessidades e sentimentos dela.
O Ciclo de Abuso e a Decisão de Lily
Lily, ao longo do filme, passa por um ciclo de abuso onde o comportamento de Ryle alterna entre agressões e arrependimentos. No entanto, a repetição desses ciclos e a deterioração emocional que ela enfrenta levam-na a perceber que a mudança que ela deseja em Ryle talvez nunca aconteça. A cena em que Lily decide finalmente deixar Ryle é um ponto crucial do filme e reflete uma das lições mais importantes: não há como reformar um narcisista dentro do relacionamento. A decisão de Lily de abandoná-lo é um ato de extrema coragem e representa a quebra definitiva do ciclo de abuso.

Não Há Meio Termo
O filme “É Assim Que Acaba” ilustra perfeitamente a conclusão que eu defendo: quando se trata de um relacionamento com um narcisista, não há meio termo. Não se pode esperar que o narcisista mude ou que o relacionamento melhore com o tempo. A única solução real e saudável é o abandono. Lily, ao decidir deixar Ryle, exemplifica essa verdade dolorosa, mas necessária. Não se pode curar um narcisista, mas é possível se curar ao se afastar deles. Como o filme sugere, é assim que acaba: abandonando.



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