Não seja resiliente

E nem antifágil.

É isso mesmo: não seja resiliente e nem antifrágil. Antes, seja apenas humano!
Nas últimas décadas, os conceitos de resiliência e antifragilidade humana têm tomado conta da sociedade, sobretudo no mundo corporativo. A ideia central de ambas as ideias é que devemos ser fortes o suficiente para levar uma pancada e voltar a ser como antes, como prega a resiliência, ou ficarmos tão fortes para sequer sofrermos com o impacto que levamos, como diz a antifragilidade.


O grande problema desses dois pensamentos é que eles possuem origem em campos que não são humanos. Tanto a resiliência como a antifraglidade buscam inspirações em campos da engenharia e de materiais. Percebe a problemática criada? Não somos máquinas, muito menos materiais, somos feitos de carne, osso e emoções. Como dizia Freud: somos feitos de história e afeto.


Outra problemática criada para esses conceitos é que, se levarmos uma pancada e voltarmos a ser como antes, nunca vamos evoluir, seremos sempre os mesmos. O mesmo acontece na antifragilidade: se não sentirmos o impacto, como poderemos ter autorreflexão para a evolução? Não há mudança para quem não vê problema nas próprias atitudes.


Quem se acha muito forte, no fundo, quer esconder uma fraqueza ainda mais potente.


Eu proponho uma nova reflexão, um novo olhar para esse ponto. Não seja resiliente e nem antifrágil, seja simplesmente humano. O ser humano tem dominado o planeta sendo, principalmente, humano, com suas emoções, angústias, tristezas e inquietações.

Como dizia Arthur Schopenhauer: a angústia faz bem, ela nos impulsiona para a mudança. Se estamos angustiados, é porque algo incomoda, é isso que nos fazer querer fazer diferente.


Leve a pancada e fique triste, sim! Receba o impacto e chore, sim! Sinta a pressão e perca o controle, sim! E com tudo isso, trabalhe o seu autoconhecimento, a sua autorreflexão, seus pontos de melhoria, traumas de infância, ego, vaidade, o olhar sobre si mesmo e sobre o outro.

Em seguida, não volte a ser como antes e nem queira fingir que não foi atingido, mas crie diariamente uma nova versão de si mesmo, que se conhece, sabe como se porta em momentos bons e ruins, e gerencie as suas emoções e pensamentos. Alguém que se conhece, sabe os seus pontos fortes, fracos e como deve reagir diante de cada um deles.


Não seja antifrágil e nem resiliente, seja conhecedor de si mesmo. Ninguém ofende que sem conhece.

8 respostas a “Não seja resiliente”

  1. Avatar de Daniela Pimenta
    Daniela Pimenta

    Profundo e real! Acredito que sofrer impacto é inevitável ao ser humano. E acredito também que a nossa transformação se faz de forma positiva dependendo de como sentimos e enfrentamos essas sensações. Fragilidade e fraqueza são diferentes. Somos frágeis e isso nos faz ser humanos. Sentir sentir e sentir … tudo se lapida. Muito bom! Obrigada pela vasta abordagem acerca de um tema tão interessante. Adorei!!!

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  2. Concordo!!! Esse tipo de reflexão precisa ser espalhada com grande intensidade. Maravilhosa reflexão, Júnior!

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  3. Meu amigo, é isso!
    Parabéns pela sensibilidade.
    Antes de tudo, somos seres humanos e não há como não sentir. Sentimos a todo momento e o mais importante, é o quanto aprendemos e evoluímos com isso.
    Obrigada por esse esclarecimento tão preciso!

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  4. Avatar de Selma de Lira e Silva
    Selma de Lira e Silva

    Se partimos do príncipio da compreensão e da aceitação de que não somos nenhuma divindade, que somos seres humanos e que nessa condição estamos propensos à todas as adversidades da vida, sobretudo, aquelas que envolvem a conduta, os valores éticos,  morais e que orientam nosso modo de agir de forma harmônica e respeitosa perante a sociedade, jamais cometeríamos o equívoco de cair no fatalismo ou querer ser o Messias, assim como também não cairíamos na armadilha de sermos resilientes ou antifrágeis, muito menos de sermos neutros em inúmeras situações que nos são postas, principalmente profissionais, dentre as quais, para adotar tal conduta é preciso abdicar do nosso humanismo, tornando-nos pouco a pouco frios e indiferentes em prol de responder aos anseios mesmo que de forma indireta ao que é posto historicamente pelo sistema capitalista de produção. A ideia de perfeccionismo, de produzir sistematicamente e automaticamente está introduzida na mente das pessoas de modo que se sentem insuficientes quando não dão conta das inúmeras tarefas que quotidianamente lhe são confiadas, acrescidas ainda, do exército industrial de reserva que termina contribuindo para que o profissional, mesmo diante de um trabalho precarizado, na condicão de polivalente, multifacetado, aceite todo tipo de excesso no âmbito das corporações para não serem substituídos. E o pior de tudo isso é que esse mecanicismo humano desenfreado incorporado por muitas pessoas tem contribuído para desencadear o surgimento de várias doenças e problemas em diferentes campos de suas vidas, tais como problemas de saúde, entre outros: físicos, psicólogos, intelectuais; e no âmbito de suas relações, comprometendo negativamente sua funcionalidade nos respectivos setores de atuação, assim como na resolução de problemas distintos, quer seja no que tange a área profissional, quer na vida pessoal.
    Desse modo, a ideia central de resiliência e antifragilidade pregada atualmente, nada mais é do que uma nova roupagem desse sistema desumano e perverso que vem perdurando a décadas e se infliltando no âmbito das corporações de diversas formas através de sua ideologia dominante que leva as pessoas a acreditarem que são como máquinas, inclusive, sem sentimentos! Afinal, é corriqueiro o errôneo discurso pregado de que “problemas de casa não se leva para o trabalho”. Mas, como dissociá-los? Existe algum método ou mágica capaz de fazer tamanha façanha? As respostas à essas indagações requerem ponderações porque certamente a resolução de problemas dessa magnitude sai muito caro para as corporações, que ao invés de investir em cursos na área de Recursos Humanos e afins, optam por aquele profissional “sem problemas”, competente, imbatível, com um histórico exemplar perante à empresa e outras áreas equivalentes. Logo, como bem prega a resiliência devemos ser fortes o suficiente para levar uma pancada e voltar a ser como antes, ou ficarmos tão fortes para sequer sofrermos com o impacto que levamos, como diz a antifragilidade. Mas como a vida é uma via de mão dupla, cabe a nós decidirmos se queremos ser escravos de nós mesmos e do sistema ou buscar nos conhecer melhor, rever nossos conceitos, nos priorizar no sentido de valorizar o que realmente é importante para ficar e estar bem, porque daí provém todo o resto. Não se pode externizar aquilo que não existe no nosso interior. Portanto, é preciso se conhecer e ter a sapiência para conduzir  com cautela nossos passos, bem como, conciliar conflitos conforme nosso entendimento e autoreflexão, objetivando sempre a evolução, já que é justamente desse processo que resultam as consequências da tomada de decisões e atitudes daí provenientes, que influenciam e impulsionam nas mudanças e resultados, quer seja negativa ou positivamente da vida de todos nós.

    Enquanto o ser humano pensar e agir como máquinas, não conhecendo suas fragilidades e sem enxergar seu próprio valor; enquanto se permitir ser objeto e não se reconhecer como ser transformador, como uma dádiva divina cujo bem maior é a sua vida, estes continuarão sendo controlados como fantoches pelos donos do poder e viverão num caos de angústias e autoprovação, presos em um mundo de perdição e incertezas.

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  5. Avatar de Ana Paula Rodrigues de Oliveira
    Ana Paula Rodrigues de Oliveira

    Primeira vez que vejo um texto tão coerente e com tanto sentido. Porque não podemos deixar que saia e exploda todo esse sentimento de dor, tristeza, frustração? Porque temos que estar tampando tudo a todos momentos e fingir que esta tudo bem? O mundo ja anda muito pesado! Ta difícil carregar o fardo.

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  6. Avatar de Valter Graciano
    Valter Graciano

    Gostei, você falou muito bem, somos humanos.

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  7. Avatar de Valéria Patriani
    Valéria Patriani

    Olá Vieira, tudo bom?
    Excelente texto. ..gostei muito e vou repassar adiante!

    Apenas a última frase precisa ser corrigida…há im erro de grafia:
    ^Ninguém ofende QUEM SE conhece^
    Correto? Bjs

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  8. Me desculpe a ousadia, mas vc é o Cara! Eu tenho grande admiração por vc. Deus te abençoe sempre.

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