Sonhamos com o príncipe, mas aceitamos engolir os sapos que a vida entrega.
Projetamos uma carruagem, sapatinhos de cristal, valsa e espumante, mas aprendemos a conviver com o andar a pé, de sapatos apertados e furados, dançando fora do ritmo e bebendo coisas amargas.
No âmbito dos sonhos, nós dizemos para as pessoas que queremos alguém fiel, que entenda, ame, proteja e compreenda as nossas dores. Alguém que seja capaz de ouvir quando preciso abraçar quando estiver frio e que possa planejar a vida.
A gente sempre fala que quer alguém pra amar e ser amado, pra envelhecer junto.
Mas é aí que a pratica vai contra o discurso e a gente aceita a traição, a mentira, a agressão, o controle, a possessão, o abuso psicológico e a toxidade de uma relação falida para manter aquilo que só existe em nossa mente.
A gente se apega àquilo que causa dor para não perder de vista a fantasia do amor romântico que nunca veio, nunca chegou, nunca esteve presente e nunca se concretizou nos olhos de quem só entrega dor e sofimento .
Mas nós insistimos em manter por perto pelo medo de perder a própria fantasia.
Compulsivos, repetimos o choro por algo que não existe.
Marília Mendonça resumiu em uma de suas músicas algo que a projeção freudiana disse há um século: eu me apaixonei pelo que eu inventei de você.
Neuróticos, no fundo nós não queremos abandonar a fantasia porque, sem ela, o que colocaríamos no lugar?
E então abraçamos a dor e a saudade daquilo que nunca existiu.
Eu me apaixonei pelo que eu inventei de você.


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