Hoje foi mais um dia difícil pra mim.
Dormi poucas horas, sendo acordado pelo próprio corpo em espasmos logo às 4h22, sem motivos, sem razão alguma.
Sem motivo e sem razão, também vi a minha estadia no sofá, olhando pela janela, observando o feixe de luz do poste que entrava pelo vão da cortina. Eu não queria estar nem dormindo e nem acordado. Eu queria não estar.
Acordado, o coração ameaçava sair pela boca, como se me pedisse para levantar e correr de algum mal. Mas os braços e as pernas não tinham firmeza ou qualquer tipo de reação que pudesse esboçar movimentos. Uma aceleração por dentro e um desânimo por fora.
Eu não queria sumir.
Eu não queria morrer.
Eu não queria fugir.
Eu só queria não estar.
Foi então que o relógio despertou. Hora de ir ao trabalho. Motivos? Nenhum, mas lá fui eu na esperança de que as obrigações do dia a dia preenchessem o vazio do coração e acalmasse a mente conturbada.
Foi aí que a noite mal dormida mostrou o seu resultado. Mais uma vez, sem energia por fora, mas acelerado por dentro.
Enquanto as pessoas falavam, eu sentia não estar ali. Dei inúmeros foras em vários momentos do dia, produzi pouco e fui muito mal em tudo o que me propus. Onde estavam os meus pensamentos? No futuro, no passado, no medo, na angústia, na saudade, no abandono… menos ali.
Fui para casa mais cedo. No caminho, uma vontade de bater o carro e terminar com tudo me veio, mas, mais uma vez, não era aquilo que eu queria. Eu queria só não estar, não ser. E estar morto já significa estar em algum lugar.
Eu queria não ser.
Eu queria não estar.
Chegando em casa, entrei no chuveiro e desabei.
Sentado no chão, eu chorava a ponto de não saber quem molhava mais, se as lágrimas ou a água do banho.
Foi um choro de lamento, de angústia, algo que saía lá do fundo. E foi tão forte, mas tão forte, que eu desmaiei por alguns segundos. Nesse momento, lembranças me vieram à mente como um filme em flashes. Eu vi minha mãe, meus avós, amigos de infância, meu pai, algumas professoras… parecia que eu estava, de fato, deixando de estar, partindo.
E aquilo foi tão bom!
A própria água do banho me acordou depois de não sei quanto tempo. Com o banheiro todo esfumaçado, levantei, fechei o chuveiro, peguei a toalha, enxuguei o rosto e saí.
Dentei em minha cama, o coração acelerou, as pernas e os braços perderam a energia e o sono não veio.
Será mais uma noite como a anterior, assim como foi mais um dia como o anterior.
O ciclo se repete e tudo o que eu continuo querendo é não estar, não ser, não existir.
Olha o feixe de luz no meu rosto de novo.
(Relatos de um paciente com depressão que se envolveu com uma narcisista. O paciente autorizou a publicação dessa história após se recuperar e, hoje, está bem. Se você se identificou com esse texto, busque ajuda, faça terapia)


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