Doenças mentais afetam mais pessoas do que doenças cardiovasculares. Segundo dados de um estudo feito por Hans-Ulrich Wittchen, diretor do Instituto de Psicologia Clínica e Psicoterapia da Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, mais de 160 milhões de pessoas sofrem de doenças mentais na Europa, a maioria de ansiedade e depressão, os chamados distúrbios de humor. De acordo com ele, a tendência existe também nos Estados Unidos e no Brasil, e atinge mais as mulheres que os homens. [1]
De acordo com o estudo, nos últimos dez anos, um número maior de europeus passou a sofrer de doenças mentais. O grande problema é que os distúrbios são graves e afetam as pessoas por mais tempo, muitas vezes a vida inteira. Um fator que piora esse cenário é que houve um aumento da expectativa de vida das pessoas, que passaram a viver mais, o que também faz com que o tempo de duração da doença seja maior. Vale destacar que em quase todos os países a expectativa de vida aumentou em oito anos nas últimas décadas, e pessoas idosas são também mais propensas à depressão.
O relatório anual do Conselho Europeu do Cérebro, de 2011, revelou que 50% dos custos totais de saúde são investidos no diagnóstico e na terapia de doenças cardíacas ou diabetes, enquanto apenas 23% dos custos são gastos com os distúrbios mentais.
No Brasil, o cenário também é alarmante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país está na primeira posição em prevalência de ansiedade, com mais de 18 milhões de pessoas sofrendo do problema. Isso equivale a 9,3% da população. [2]
A Associação Brasileira de Psiquiatria, em estudo realizado recentemente, revelou que os médicos associados perceberam um aumento de até 25% nos atendimentos psiquiátricos e de 82,9% no agravamento dos sintomas, o que evidencia a urgência do tema. [3]
Este estudo buscará apresentar algumas das principais formas de psicopatologias através da metodologia de livre análise de um personagem do Filme “Fratura” (Netfliz – 2019) [4] buscará associar o distúrbio apresentado pelo personagem a uma psicopatologia conhecida, evidenciando através de comportamentos observados e justificando a análise feita.
PSICOPATOLOGIAS
As psicopatologias são doenças da psique, que demonstram anormalidade ou alterações nas condições normais da ordem psíquica, mental ou cognitiva, e podem ter causas determinadas ou não. Além de provocar comorbidades em diversos órgãos do corpo — devido à redução da defesa imunológica — elas também afetam a vida pessoal, profissional e social. São exemplos de doenças da psique: [1]
Transtorno bipolar
Provoca oscilações totalmente imprevisíveis no estado emocional de uma pessoa, afetando o humor. Suas principais características são: instabilidade psicológica, angústia, alegria e desânimo com impulsividade e extroversão.
Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
Esse transtorno provoca sentimentos e pensamentos obsessivos e compulsivos que comprometem o equilíbrio emocional do indivíduo e afeta a execução de suas tarefas de rotina. A maioria dessas pessoas tem mania de limpeza, tanto da casa como em relação aos hábitos de higiene pessoal.
Distúrbios alimentares
Em geral, uma das doenças ligadas a esse distúrbio é a Anorexia Nervosa: um problema caracterizado pelo emagrecimento intencional resultante da recusa aos alimentos. A pessoa chega a se ver de forma distorcida no espelho para justificar a necessidade de emagrecer. Há também a bulimia, em que que consiste no hábito de ingerir grandes quantidades de alimentos para, imediatamente induzir o vômito com a finalidade de eliminar as calorias que foram ingeridas.
Transtornos de Ansiedade
Esses desequilíbrios afetam um contingente cada vez maior de pessoas, principalmente no Brasil. Eles são caracterizados pelo medo sem causa aparente e geram preocupação excessiva com o que ainda não aconteceu. Como resultado, surge uma exagerada sensação de desconforto, mau pressentimento e tensão emocional bastante desagradáveis. A pessoa pode sentir: sudorese, tremores dos membros inferiores e superiores, palpitação, dores torácicas, sensação de sufocamento e de formigamentos nas mãos e nas costas, falta de ar, batimento cardíaco acelerado, medo, sensação de morte, entre outras.
Esquizofrenia
Um dos maiores problemas psíquicos e motivo de preocupação por parte da Saúde Pública, os sinais mais evidentes desse mal são os distúrbios da linguagem e a desorganização do pensamento. No grau mais avançado, ela também afeta a percepção da realidade e altera a expressão do pensamento.
Somatização
É a transferência da doença psíquica para o corpo. A somatização é definida como um distúrbio psiquiátrico em que o paciente apresenta variadas queixas físicas devido às dores em diversos órgãos ou membros do corpo. Porém, essas sensações não são diagnosticadas em exames e nem facilmente explicadas pelos médicos, já que não apresentam nenhuma alteração clínica perceptível.
Psicose [2]
A psicose é um transtorno mental que faz com que as pessoas percebam ou interpretem as coisas de maneira diferente das pessoas que as rodeiam. Isso pode envolver alucinações ou delírios.
Alucinações – onde uma pessoa ouve, vê e, em alguns casos, sente, cheira ou saboreia coisas que não estão lá; um tipo de alucinação comum é ouvir vozes.
Delírios – onde uma pessoa tem crenças fortes que não são compartilhadas por outras pessoas; uma ilusão comum é alguém acreditando que há uma conspiração para prejudicá-los.
NEUROSES
“As neuroses são determinadas pela história de amor do indivíduo”.
Talvez essa seja uma das frases mais provocativas e reais para que se possa dar início a este trabalho. Proferida nada mais, nada menos, do que pelo homem que é considerado o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, ela serve para ilustrar e tornar um pouco mais didática a formação das neuroses, principal objeto de estudo deste texto.
A neurose é umproblema psíquico causado decorrente das experiências de uma pessoa. Ela pode se tornar patológica, dependendo do nível que está instalada, mas, aqui vale uma ressalva: não existe ser humano que não tenha neuroses. Na prática, todos são neuróticos, uns mais, outros menos. A questão principal é saber exatamente o ponto em que elas se formam, como se desenvolvem e como lidar com todas elas para que não se tornem uma patologia mais séria, o que pode causar perdas consideráveis de qualidade de vida para a pessoa em questão.
Somos todos neuróticos e isso é muito bom, do contrário, poderíamos ser psicóticos, o que seria, de fato, motivo de preocupação. Diferentemente do que se pensa na sabedoria popular, a neurose nada tem a ver com loucura ou estado mental de perda da realidade, mas sim com a formação de comportamentos que surgem para proteger o ego do mundo externo. Por aí, já temos uma boa definição da formação de uma neurose.
Toda vez que o ego se sente ameaçado, lança mecanismos de defesa para se proteger do mundo externo. Esses mecanismos de defesa podem ser as mais diversas formas, como: agressividade, timidez, sensibilidade, choro, tristeza, angústia, superioridade, raiva, medo, sensação de pânico, ansiedade, entre outros distúrbios de comportamento. Uma pessoa que possui medo de baratas ou ratos, por exemplo, possui uma neurose do medo (neurose fóbica) com relação a esses dois bichos, o que é completamente normal.
Nesse caso, é possível fazer uma análise sobre a formação da neurose em questão. Em um consultório psicanalítico, o profissional em questão deverá se preocupar não com o sintoma, representado pelo medo, nem pela coisa em si, simbolizada pelo rato ou barata, mas com a raiz do problema, o momento ou motivo que causou o medo no indivíduo.
Partindo do princípio de que a neurose é uma defesa do ego que precisa se proteger do mundo externo, a pergunta que o psicanalista poderia fazer seria: o que um rato ou barata representa de risco para essa pessoa? Onde esse risco teve início? E então, tem-se início o processo de investigação analítica no processo terapêutico.
Geralmente, casos de medo como o mencionado acima têm raízes na infância, entre zero e sete anos de idade, durante a formação do ego do indivíduo. Nesse período, caracterizado por experiências marcantes tanto positivas como negativas, uma experiência com um dos animais mencionados pode ter lançado um mecanismo de defesa tão forte que, ao longo dos anos, foi intensificado e gerou a neurose na vida adulta. O adulto com medo do rato ou barata é, na verdade, a criança tentando se proteger. Aqui, é possível mencionar novamente a frase de Freud: “As são determinadas pela história de amor do indivíduo”.
Há diversas formas de neurose, como:
Algumas outras neuroses conhecidas pela psicanálise
- Neurose de Destino
- Neurose do Fracasso
- Neurose Narcísica
- Neurose Traumática
- Neurose Mista
- Neurose de Caráter
- Neurose de Compensação
- Neurose Depressiva
- Neurose Histérica Dissociativa e a de Conversão
- Neurose Obsessiva Compulsiva
- Neurose Fóbica
Contudo, vale reforçar e destacar novamente que não é possível mapear e quantificar o número de neuroses existente, uma vez que cada pessoa irá criar a sua forma de neurose para externalizar a energia gerada nas pulsões e que causarão o conflito ID X EGO X SUPEREGO.
PSIQUIATRIA X PSICANÁLISE
Falar de psiquiatria e psicanálise é falar da história da evolução da saúde mental humana. Assim podemos resumir a importância do tema que será abordado por esse trabalho ao longo das próximas páginas, que buscarão mostrar através de fatos e levantamentos históricos as descobertas e evoluções observadas ao longo da história.
Parece falar de psiquiatria e saúde mental é preciso fazer, antes, um mergulho histórico e uma conceituação mais aprofundada sobre a definição de normalidade ao longo da história. Afinal é isso que vai definir e exemplificar a evolução ao longo do tempo das formas de tratamento e entendimento sobre os problemas da mente.
Durante muito tempo na história, desde a pré-história até antiguidade, acreditava-se que as doenças da mente eram castigos dos deuses. Naquela época, não havia outra explicação para males como epilepsia e a lepra, além das demais anormalidades mentais. Se uma pessoa apresentasse qualquer tipo de mudança de comportamento, em qualquer nível, ela era julgada e tomada por toda a sociedade como alguém que estava tomada por espíritos e que precisava de algum tipo de exorcismo ou ação espiritual para que os deuses pudessem intervir.
É a este tipo de contexto que este trabalho irá se dedicar para apresentar as formas de tratamento das doenças mentais e as suas evoluções ao longo do tempo.
A história da psiquiatria começa, por incrível que pareça, com aspectos espirituais, já que todo tratamento mental era feito com base em feitiços ou magias. Esse tipo de tratamento ganhou ainda mais força no período conhecido como sacerdotal. Com a igreja forte, comandando plenamente toda a sociedade, era ela quem decidia quem merecia passar por algum ritual mágico, de exorcismo ou de tratamento espiritual para ficar curado. Essa também foi uma ferramenta muito utilizada para perseguir inimigos que levantavam ideias contrárias à própria igreja, pessoas consideradas loucas, insanas ou possuídas. Muitas vezes, pessoas que decidiam mudar de ideia por medo eram consideradas curadas após algum ritual.
Normalidade, portanto, naquele período, era pensar exatamente como toda a sociedade.
Foi Hipócrates, 2000 A.C., considerado o pai da medicina, quem deu início ao movimento de quebra com relação às doenças como algo espiritual. Ele propôs pela primeira vez um momento de observação e conseguiu identificar um processo de adoecimento para pessoas acometidas de males como epilepsia e a histeria, além de outras doenças mentais. Através da observação ele conseguiu levantar a hipótese que tais doenças apareciam por conta das vivências e experiências de cada indivíduo e não por questões meramente espirituais. Naquela época, tiveram então início os estudos sobre as doenças mentais, reconhecendo doenças como a malária, a tuberculose, histeria, neurose, luxações e fraturas.
Na idade média, toda essa evolução foi colocada em xeque e o mundo viu um grande retrocesso no tratamento às questões das doenças mentais. Durante a inquisição, com a igreja forte e soberana sobre o mundo, muitas mulheres com comportamentos diferentes e consideradas histéricas foram perseguidas e mortas. Pessoas diferentes e com rituais que envolviam outros tipos de comportamentos contrários à igreja também foram perseguidas e mortas, tudo isso para que a igreja pudesse limpar a sociedade do grande mal espiritual. Nesse processo, todas as doenças foram eliminadas junto aos seus portadores.
Foi no período da pré-industrialização, por volta do século XVII, que a história da psiquiatria começou a mudar. Ainda que de forma precária e bastante lenta as pessoas consideradas com problemas mentais passaram para um novo estágio de tratamento. O desafio naquele momento era fazer com que os loucos, diferentes ou que não se enquadravam no perfil e padrão exigidos pela nova sociedade capitalista encontrar um lugar para ficar. É neste momento histórico que surgem os asilos e os sanatórios, lugares destinados para isolar as pessoas consideradas fora do padrão mental da maior parte da sociedade.
Nesses ambientes, chamados também de hospícios, eram feitos tratamentos da forma mais rudimentar possível: choques elétricos, tortura, agressões físicas e testes que levavam a quase nada ou nenhum tipo de progressão, gerando muito mais traumas e dificuldades para as pessoas com doenças mentais.
Os doentes eram trancafiados nesses asilos e hospitais aos cuidados de irmãs de caridade que tentavam cuidar das pessoas, mas de forma bem rudimentar e com tratamentos que misturavam repressão, tortura e tratamentos mágicos ou espirituais. O saber científico só passa a ganhar força a partir do iluminismo no século XVIII, nascendo na Europa. É neste momento que a medicina começa a entrar em cena e que alguns autores começam a levantar a possibilidade de que as doenças mentais nada tem a ver com problemas espirituais.
Ainda no século XVIII, Philippe Pinel na França, propôs classificar os doentes, separando os desvios sociais das doenças, criando um ”tratamento moral” aos loucos que passaram a nova linguagem da nova especialidade que surgiam e se instaurava, a psiquiatria, a serem chamados de “alienados”. Nascendo, então a assistência psiquiátrica como instituição repressiva-assistencial, o hospital asilar.
No século XIX, surge a medicalização da loucura, através da instituição médica, junto à lei de 30 de junho de 1838 a fixar por mais de um século o alienado num completo estado de minoridade social .Na França influenciada pelos mais célebres alienistas do período torna esta a primeira lei europeia sobre os alienados, reforçando os aspectos de periculosidade e de ordem pública sobre o alienado.
Pinel foi o primeiro formulador da ciência alienista, cuja, se consistia em observar o curso natural dos distúrbios mentais, dirigindo a atenção para os sinais e sintomas da loucura procurando onde se incidia no organismo. Anos mais tarde, outro europeu, desta vez austríaco, viria lançar luz sobre outras possibilidades relacionadas às doenças mentais: Sigmund Freud, o pai da psicanálise.
A psicanálise foi, sem dúvida, um dos maiores avanços na história no que diz respeito ao tratamento das doenças mentais. Com uma abordagem que defendia “a cura pela fala”, Freud foi o primeiro a levantar a possibilidade de quem entre o real e a mente humana, existia muito mais do que se podia imaginar. Foi ele quem indicou a existência, por exemplo, do inconsciente, dando a possibilidade ao ser humano de explicar parte das suas ações fora da vida consciente.
A psicanálise é um método de tratamento de transtornos mentais, moldado pela teoria psicanalítica. Sigmund Freud (1857-1939) foi o fundador da teoria e da abordagem psicodinâmica da psicologia. Essa filosofia de pensamento enfatizava a influência do inconsciente no comportamento humano, dividindo a mente em três partes principais: o id, o ego e o superego.
Para a psicanálise, o inconsciente é a parte mais significativa dos processos mentais, influenciando todo o modo de viver das pessoas. Para Freud, ele é constituído de desejos e pulsões que, quando reprimidos, podem gerar efeitos nocivos à saúde psíquica da pessoa envolvida, as chamadas neuroses.
A análise foi o processo de cura desenvolvido por Freud as neuroses. Assim, busca-se através da fala e da relação entre analisando e psicanalista revisitar a origem das dores para que, ao serem verbalizadas, possam ser vistas com os olhos do “hoje”, curando a pessoa de um trauma que, muitas vezes, nem ela mesma sabia da existência, já que tudo é processo inconsciente
A origem da psicanálise se funde com a vida de Sigmund Freud, seu fundador e maior representante até os dias atuais. Embora muitos especialistas considerem que seus métodos já caíram desuso para os dias atuais, não se pode negar que ele é o maior influenciador do pensamento.
Para criar a psicanálise, Freud se utilizou de experiência empíricas, baseadas em observações feitas em seus próprios pacientes. Então, o jovem doutor buscou compreender e explicar a histeria, a psicose e a neurose com base em suas observações. Ele também fez explanações sobre o que denominou de composição da mente humana. Todos esses estudos e os métodos de terapias por ele criados resultaram no que hoje chamamos de psicanálise.
A sexualidade humana foi algo que Freud logo esbarrou ao elaborar os seus estudos. Foi a partir disso que, então, ele criou o conceito de inconsciente, que seria uma das partes da mente humana. Além dele, Freud também apresentou a constituição do aparelho psíquico humano, o complexo de Édipo, a análise, o conceito de libido, a teoria da incompletude, entre outras, o que resultou em toda a conceituação básica do campo de estudo.
Hoje, toda a teoria básica da psicanálise é fundamentada nas descobertas de Freud. Portanto, é preciso que entendamos um pouco mais sobre a vida deste importante pensador, que chegou a ver seu nome sendo colocado como um dos principais do século XX, que chegou a ser chamado de por muitos de “século freudiano”.
Médico por formação na Universidade de Viena em 1881, Freud se formou especialista em psiquiatria, tornando-se um renomado neurologista. E foi em seu consultório que, ao se deparar com pacientes que sofriam de crises nervosas, que percebeu que a medicina tradicional não daria conta de ajudá-los. Diante desta percepção, Freud foi a Paris, entre 1885 e 1886, para realizar um estágio com o neurologista francês, Jean-Martin Charcot, que parecia demonstrar sucesso no tratamento de sintomas de doenças mentais através do uso da hipnose.
Para o francês, os pacientes histéricos haviam sido afetados por traumas, sendo a hipnose uma das formas de tratamento, o que chamou muito a atenção de Freud. De volta a Viena, na Áustria, Freud começou, então, a tratar seus pacientes utilizando o método que aprendeu na França, fazendo-os lembrar de situações do passado e as trazendo-as para a consciência. Foi aí que ele percebeu, de fato, ser possível eliminar os sintomas através da revisitação do passado.
No entanto, Freud ainda se mantinha um pouco inseguro ou até mesmo imaturo em sua nova técnica. Foi então que ele procurou, entre 1893 e 1896, o médico Josef Breuer, que descobriu que era possível reduzir os sintomas das doenças mentais apenas pedindo aos pacientes que descrevessem suas fantasias e alucinações.
Através do uso de técnicas de hipnose e também do relato por pacientes dos traumas vividos foi possível ter acesso a memórias traumáticas dos pacientes com mais facilidade e, dando voz a esses pensamentos, o que era oculto foi trazido à tona, ao nível consciente, o que permitiu o desaparecimento do sintoma.
O caso de Anna O., citado no início deste trabalho, foi o mais emblemático de todos, já que deu início à comprovação de que era possível se ver curado de um sintoma através da fala.
E foi desta forma que Breuer e Freud começaram a trabalhar juntos, desenvolvendo e disseminando uma técnica de tratamento que permitisse a liberação de afetos e emoções ligados aos eventos traumáticos do passado através da rememoração das cenas vivenciadas, que culminaram no desaparecimento do sintoma.
A obra Estudos sobre a Histeria (1893-1895) é fruto desses experimentos iniciais bem-sucedidos. Foi em 1896 que Freud utilizou pela primeira vez o termo Psicanálise, na intenção de analisar os componentes que formam a psique e, assim, captar as informações do inconsciente, trazê-las ao consciente e analisá-las. A cada avanço, alguns pontos de discordância apareciam entre Freud e Breuer, principalmente no que diz respeito ao foco que Freud dava às memórias do paciente e as origens e conteúdos sexuais da infância. Então, 1897 eles rompem a parceria, e Freud seguiu seus estudos, abandonando a hipnose e utilizando a técnica de concentração como principal metodologia, na qual a rememoração era realizada por meio da conversação normal, com o paciente em estado consciente.
Muitos avanços aconteceram através e após as teorias criadas por Freud. Anos depois, muitas foram as contribuições de outros pensadores, que trouxeram inúmeros ganhos para o campo de estudo, mas, numa comparação, Freud está para a psicanálise assim como Sócrates está para a filosofia.
Outros autores importantes no desenvolvimento da psicanálise:
- Carl Jung
- Karl Abraham
- Wilhelm Reich
- Anna Freud
- Melanie Klein
- Margaret Mahler
- Heinz Kohut
- Donald Winnicott
- Jacques Lacan
- Wilfred Bion
A mente inconsciente
Uma das imagens mais famosas da psicanálise é a do Iceberg, em que a mente humana é classificada entre consciente, pré-consciente e inconsciente.

A mente consciente é aquela que está ao alcance, a parte racional, aquela que o indivíduo tem consciência. Quando se fala ou faz uma conta matemática, por exemplo, é utilizada essa parte da mente. É importante notar, pela imagem, essa é a menor parte, aquela que aparece, representando cerca de 10% das ações diárias de uma pessoa.
A maior parte das ações está no nível inconsciente, sendo este o responsável por mais de 90% das ações de uma pessoa. O mais curioso é que essa parte não pode ser acessada com facilidade, mas é ela quem determina quase toda a vida de uma pessoa, daí a importância de se tornar consciente o que está inconsciente no processo terapêutico.
Segundo Freud, o inconsciente contém coisas que podem ser desagradáveis ou até mesmo inaceitáveis socialmente. Por causarem dor ou conflito, elas são armazenadas no inconsciente. O grande problema é que elas não desaparecem e, mais cedo ou mais tarde voltam em forma de neuroses.
O Id, o Ego e o Superego
Freud dividiu a psique humana em três partes: Id, Ego e Superego. Para ele, todos os problemas humanos surgem do conflito entre essas três instâncias, que possuem objetivos e modos de agir completamente diferentes. São elas:
Id: Chamado de “o verdadeiro eu”, o id contém todos os desejos inconscientes, básicos e primitivos do ser humano, é a parte instintiva e irracional, caótica e voltada à satisfação do prazer a qualquer custo.
Ego: Este é o “eu que a sociedade pode ver”, aquela parte da mente humana que deve lidar com as exigências da realidade. Ela ajuda a controlar os impulsos do id e faz a pessoa se comportar de maneiras que são realistas e aceitáveis. É o ego quem controla o Id, buscando ser aceito e amado pelo mundo externo.
Superego: São as regras, crenças e valores, o chamado “juiz” da mente. É o superego que julga quando alguém quer fazer sexo toda hora ou dormir até mais tarde, por exemplo, sempre baseado em regras morais.
CONCLUSÃO
Quanto mais frágil o ego, mais ele precisará lançar mecanismos de defesa para se proteger do mundo externo. Quanto mais mecanismos de defesa, mais neuroses formadas, fortalecidas e aperfeiçoadas o indivíduo terá ao longo de sua vida. A chave, então, é o fortalecimento o ego através do autoconhecimento, sendo que uma das ferramentas para se fazer isso se dá no processo terapêutico, onde o profissional psicanalítico buscará, junto do paciente, visitar os traumas e experiências da infância para trazer do inconsciente ao consciente todas essas vivências, facilitando e promovendo o processo de elaboração dessas experiências, visitando o passado, mas com a visão do presente para melhor compreensão da realidade.
A psicanálise possui extrema importância no ganho de qualidade de vida dos pacientes considerados com doenças mentais. Ao longo da história, é importante perceber como as pessoas com problemas mentais padeceram por falta de tratamentos adequados e dedicados ao verdadeiro problema que elas enfrentavam. Além do Iluminismo e do reforço à medicina, a partir do século XVIII, foi a psicanálise que propôs o olhar para o ser humano com ser individual e cheio de complexidades.
Atualmente, a psicanálise é a base para todas as ciências que trabalham com a saúde mental, como a psicologia, neurociência e psiquiatria. O melhor é quando todas elas se unem para o cuidado de uma pessoa.
[1] Disponível em:
https://hospitalsantamonica.com.br/quais-as-principais-doencas-psiquiatricas-entenda-como-trata-las/#:~:text=As%20doen%C3%A7as%20psiqui%C3%A1tricas%20s%C3%A3o%20conceituadas,vida%20pessoal%2C%20profissional%20e%20social. Acesso em: 08 de março de 2021.
[2] Disponível em:
https://www.vittude.com/blog/psicose/#:~:text=Psicose%20%C3%A9%20um%20transtorno%20mental,de%20contato%20com%20a%20realidade. Acesso em: 08 de março de 2021.
[1] Disponível em:
https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/o-impacto-das-doencas-mentais-maior-que-das-cardiovasculares-diz-pesquisador-6548541. Acesso em: 08 de março de 2021.
[2] Disponível em:
https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/bbb-preconceito-contra-transtornos-mentais-esta-enraizado-na-sociedade/#:~:text=Mesmo%20antes%20da%20pandemia%20de,%2C3%25%20da%20popula%C3%A7%C3%A3o%20brasileira. Acesso em: 08 de março de 2021.
[3] Disponível em:
https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/bbb-preconceito-contra-transtornos-mentais-esta-enraizado-na-sociedade/#:~:text=Mesmo%20antes%20da%20pandemia%20de,%2C3%25%20da%20popula%C3%A7%C3%A3o%20brasileira. Acesso em: 08 de março de 2021.
[4] Disponível em:
https://www.netflix.com/br/title/80223997. Acesso em: 08 de março de 2021.


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