EDUCAÇÃO E PSICANÁLISE

“A psicanálise tem influenciado na educação com uma teoria do desenvolvimento infantil”.

Com essa frase, iniciamos as reflexões sobre a relação entre a psicanálise e a educação. Se os grandes traumas do ser humano possuem como ponto de partida a infância e as relações da criança com ela mesma e as pessoas ao seu redor, estudar a educação passa a ter grande relevância para o desenvolvimento da prática analítica, afinal, a forma como a criança foi educada, em todos os sentidos, influenciará em todos os aspectos da vivência do indivíduo ao longo da sua trajetória.

Quando analisamos a questão da psicanálise na educação é possível questionar quais são os aspectos inconscientes envolvidos nessa relação, quais são os conteúdos inconscientes que a criança já traz consigo no ambiente escolar, por exemplo.

Mais que isso: esses conteúdos podem estar bloqueando algum aprendizado? Existe alguma informação que ela carrega e que possa bloquear algum aspecto do seu desenvolvimento intelectual, psíquico ou intelectual?

Outro ponto a ser refletido é a relação da criança com seus professores. A criança pode desenvolver e recalcar conteúdo da escola e levar para o seu convívio familiar? Essa relação poderá afetar a sua vida como um todo? Quais os aspectos que mais afetarão?

Falar da relação entre a psicanálise e a educação familiar e escolar e os seus impactos para a vida do indivíduo adulto será o objetivo deste estudo, sempre com foco no desenvolvimento infantil e a percepção da criança com relação à essa forma de educação.

PSICANÁLISE E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Ao longo do tempo, alguns autores dedicaram seus estudo sobre o desenvolvimento infantil. A psicanálise com crianças possui seu início em várias vertentes, destacando como pioneiros(as): Sigmund Freud; Anna Freud (filha); Sabina Spielrein (paciente de Freud e de Jung, amante de Jung); Melanie Klein; Françoise Dolto; Donald Winnicott; Maud Mannoni (analisante de Dolto) e Arminda Aberastury (esposa de Pichón).

Dois autores que devem ser citados ao refletirmos sobre o desenvolvimento das crianças e da educação são, sem dúvidas, Jean Piaget (1896 – 1980) e Sigmund Freud (1856  – 1939), pois ambos dedicaram relevante tempo de seus trabalho para o entendimento da relação da criança e o desenvolvimento da educação. 

“A infância é o tempo de maior criatividade na vida de um ser humano” – Piaget

Com essa frase, podemos resumir a importância que o biólogo e psicólogo suíço Jean Piaget (1896 – 1980) dava ao desenvolvimento da infância no processo de aprendizagem do ser humano. Até hoje, o chamado Método Piaget faz parte dos estudos acadêmicos nas áreas da educação e psicologia, impactando de forma direta a forma como os campos de estudo da mente humana enxergam o desenvolvimento infantil e pedagógico. 

Talvez a maior das descobertas de Piaget foram os chamados 4 estágios do desenvolvimento, conhecidos como “desenvolvimento piagetiano”. Segundo ele, a criança passa por quatro fases de desenvolvimento até chegar na adolescência. Esses estágios estão relacionados com a capacidade cognitiva do ser humano, ou seja, com a construção do conhecimento na psiquê, sendo São eles:

FASE 1 – (dos 0 aos 2 anos) – Estágio sensório-motor 

Ainda que a capacidade de cognição seja limitada, nesse momento, a criança já começa a perceber o mundo ao seu redor, dando início ao reconhecimento de objetos. O próprio nome já indica que nessa fase as sensações e a coordenação motora da criança começam a ser desenvolvidas. 

FASE 2 – (dos 2 aos 7 anos) – Estágio pré-operacional 

Aqui, começa também a ser desenvolvido o raciocínio, embora esteja em sua fase inicial. Com o desenvolvimento da fala, a criança começa a nomear os objetos que a rodeiam ao mesmo tempo em que passa a ter uma capacidade mental de lembrar deles, fazendo uma espécie de representação mental. 

FASE 3 – (dos 7 aos 11 anos) – Estágio das operações concretas 

Essa fase está intimamente relacionada à capacidade cognitiva de resolução concreta de alguns problemas. Aqui, a criança começa a ter uma capacidade maior de interpretação e já consegue resolver alguns problemas básicos. Alguns conceitos são interiorizados, por exemplo, dos números e das operações matemáticas.

FASE 4 – (dos 7 aos 11 anos) – Estágio das operações formais 

Trata-se de uma fase de autonomia. Na adolescência, o raciocínio lógico se desenvolve e o indivíduo já começa a pensar por si só, ao mesmo tempo em que tem a capacidade de criar teorias e refletir sobre as possibilidades do mundo.

Sem dúvidas, Jean Piaget foi um dos maiores pensadores do século 20, sendo, inclusive, o maior influenciador da história quando o assunto é desenvolvimento da aprendizagem infantil, tornando-se sinônimo de pedagogia até mesmo atualmente.

FREUD E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL 

Para Freud, tudo faz parte de processos inconscientes. Uma das imagens mais famosas da psicanálise é a do Iceberg, em que a mente humana é classificada entre consciente, pré-consciente e inconsciente. 

A mente consciente é aquela que está ao alcance, a parte racional, aquela que o indivíduo tem consciência. Quando se fala ou faz uma conta matemática, por exemplo, é utilizada essa parte da mente. É importante notar, pela imagem, essa é a menor parte, aquela que aparece, representando cerca de 10% das ações diárias de uma pessoa. 

A maior parte das ações está no nível inconsciente, sendo este o responsável por mais de 90% das ações de uma pessoa.

O mais curioso é que essa parte não pode ser acessada com facilidade, mas é ela quem determina quase toda a vida de uma pessoa, daí a importância de se tornar consciente o que está inconsciente no processo terapêutico. 

Segundo Freud, o inconsciente contém coisas que podem ser desagradáveis ​​ou até mesmo inaceitáveis ​​socialmente. Por causarem dor ou conflito, elas são armazenadas no inconsciente. O grande problema é que elas não desaparecem e, mais cedo ou mais tarde voltam em forma de neuroses. 

Mais tarde, Freud dividiu a psique humana em três partes: Id, Ego e Superego. Para ele, todos os problemas humanos surgem do conflito entre essas três instâncias, que possuem objetivos e modos de agir completamente diferentes. São elas:

Id: Chamado de “o verdadeiro eu”, o id contém todos os desejos inconscientes, básicos e primitivos do ser humano, é a parte instintiva e irracional, caótica e voltada à satisfação do prazer a qualquer custo. 

Ego: Este é o “eu que a sociedade pode ver”, aquela parte da mente humana que deve lidar com as exigências da realidade. Ela ajuda a controlar os impulsos do id e faz a pessoa se comportar de maneiras que são realistas e aceitáveis. É o ego quem controla o Id, buscando ser aceito e amado pelo mundo externo. 

Superego: São as regras, crenças e valores, o chamado “juiz” da mente. É o superego que julga quando alguém quer fazer sexo toda hora ou dormir até mais tarde, por exemplo, sempre baseado em regras morais. 

Segundo Freud, a pulsão pelo prazer é presente nos seres humanos desde muito cedo e, ao longo da infância, vai se transformando. Ele constatou cinco fases da formação do ser humano:

  • Fase oral (0 a 1 ano): prazer pela boca, leite materno, mamadeira, chupeta e objetos;
  • Fase anal (1 A 3 anos): prazer pelo ânus, fezes, excreções, massas e produtos gelatinosos, se sujar, etc.;
  • Fase fálica ou genital (3 a 6 anos): o prazer se estabelece nos órgãos genitais e zonas que os estimulam.
  • Fase de latência (6 à puberdade): nessa fase, a libido está adormecida. Freud pensou que a maioria dos impulsos sexuais é reprimida durante o estágio latente. Assim, a energia sexual é sublimada. Isso quer dizer que grande parte da energia da criança é canalizada para o desenvolvimento de novas habilidades e a aquisição de novos conhecimentos.

Fase Genital (puberdade à fase adulta): É um momento de experimentação sexual adolescente, cuja resolução bem-sucedida é estabelecer um relacionamento amoroso com outra pessoa nos nossos 20 anos. O instinto sexual é direcionado ao prazer heterossexual, ao invés do prazer próprio, como no estágio fálico.

A influência da psicanálise na educação

Freud, através da psicanálise, chocou o mundo com muitas de suas teorias no fim do século XIX  e início do século XX, mas também exerceu forte influência em correntes da ciência como a arte e a filosofia.

Contudo, o fato de sempre apresentar suas ideias como uma verdade absoluta também fez com que diversos Psicólogos, Filósofos, Psiquiatras e outros profissionais fizessem diversas objeções e rejeições às suas ideias, muitas vezes sem conhecimento profundo. 

Isso aconteceu, por exemplo, com ideia de que todo sonho é a realização de um desejo, em que Freud precisou, anos mais tarde, explicar melhor o conceito em obras posteriores após receber inúmeras críticas.

Até hoje, diversos transtornos psíquicos continuam a ter eficácia com o tratamento psicanalítico, sendo um apoio para pessoas que sofrem com problemas neuróticos e servindo como auxílio para que elas possam encontrar paz em suas lutas internas diárias.

Com relação à contribuição da psicanálise para a educação, podemos afirmar que a primeira pode ser uma importante ferramenta para que o educador possa compreender melhor a criança e o adolescente, principalmente no que diz respeito às fases do desenvolvimento criadas por Freud, muito semelhantes às citadas por Piaget.

Se isso acontecer, muitos problemas futuros poderão ser evitadas para o indivíduo. Seria o tratamento diretamente na raiz do problema, antes que ele ganhe força e se instale de forma definitiva.

Freud, na teoria analítica, propõe que haja no setting analítico a transferência e a contratransferência entre paciente e analista.

É nesse ponto que há o tratamento analítico em si, quando o profissional auxilia, com base na confiança conquistada (aliança terapêutica), o paciente a colocar seus sentimentos inconscientes para fora e devolve perguntas e reflexões que ajudam na ressignificação do afeito existente com relação ao fato externado.

Se trouxermos esse mesmo pensamento para a educação, veremos que o educador pode assumir, portanto, um papel de desenvolvedor psíquico do aluno, transformando-se no agente que recebe a transferência da criança (conteúdo inconsciente) e pode trabalhar essa informação para que a criança revolva o conflito interno apresentado já no início.

Podemos afirmar, ainda, que pelo fato de o professor ser o objeto de transferência e estar ligado à imagem do pai (autoridade), já conta com um altíssimo grau de confiança para que essa transferência aconteça.

Além disso, ele também pode representar a imagem da mãe, do irmão ou de pessoas que representem uma referência ou autoridade para a criança, assim como o analista representa, para o paciente, uma espécie de pai ou mãe, alguém que ele confia ou sente falta.

Se olharmos para a educação sob o olhar da psicanálise, veremos que o processo educativo para Freud nada mais é que a própria castração dos desejos, prazeres e das pulsões que levam o indivíduo a viver pelo prazer.

A educação se torna, portanto o agente que vai castrar, ensinar e trazer o indivíduo para a realidade social, mostrando que, que além dele e do seu prazer, existem leis, regras e outros seres. Para Freud, o princípio de todas as neuroses.

A entrada nesse em um universo que podemos chamar de simbólico para as crianças acontece através da linguagem, pela mediação das palavras. Quando a psicanálise coloca a linguagem como um marco do ser humano, possibilita a aproximação com as questões da educação, principalmente no que diz respeito à importância que o professor deve dar ao que a criança diz e ao que vai ser dito a essa criança.

A escola representa para a criança uma extensão da família.

Em casa, ela aprende o que deve ou não fazer. Na escola, esse papel também deve ser desempenhado, alinhado também aos ensinamentos técnicos e teóricos. É nesse ponto que o aluno se encontra numa relação de poder, sujeito a um desejo inconsciente do professor, que quer ensinar, e o desejo da criança, que quer aprender para ser amada e aceita, mas também precisa domar os seus impulsos.

CONCLUSÃO

A psicanálise possui, sem dúvida, um altíssimo potencial para contribuição com a educação.

Compreender a relação entre as fases do desenvolvimento infantil, as pulsões e os traumas que a castração pode causar para as crianças se torna, portanto, um grande diferencial no exercício pedagógico.

Quanto mais o educador compreender o seu papel de receber a transferência do aluno pela posição de autoridade que possui e conseguir lidar com a contratransferência para auxiliar já na infância com a ressignificação desses traumas, melhor será o desenvolvimento da criança, que conseguirá se tornar um adulto com muito menos problemas a serem enfrentados no que diz respeito às suas esferas psíquicas.

BIBLIOGRAFIA

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EDUCAÇÃO E PSICANÁLISE. Disponível em https://www.psicanaliseclinica.com/educacao-psicanalise-influencia-pedagogia/#Ha_quem_defenda_a_Psicanalise. Acesso em 05 de fevereiro de 2022.

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