Uma análise sobre o tema
O SER HUMANO EM BUSCA DE SENTIDO
A religião é a busca de sentido às coisas. Desde o início da existência humana, as pessoas buscam explicar aquilo que as atormenta. No período pré-histórico, o som do trovão, o ruído dos ventos, as aflições do dia a dia, a morte, a vida, enfim, tudo aquilo que fugia ao controle do ser humano fazia parte das suas criações para tentar explicar: o que fazemos aqui?
É nesse sentido que na obra Totem e Tabu (FREUD – 1913) estabelece uma alinha do tempo, mostrando que nas sociedades tribais os primeiros seres humanos, embora estivessem separados por continentes, sempre criaram deuses (totens) e tabus (regras para seguir) com o objetivo de se sentirem mais protegidos, acalentados e abraçados por algo que lhes garantisse a própria vida.
Segundo Freud, essa criação sempre foi feita com base na relação que o ser humano já conhecia, principalmente a de pai e para filho. Alguns aspectos, embora acalentassem, também causava certo tipo de desconforto, como o desejo pelo incesto e o asco a essa relação caso ela fosse consumada. O mesmo filho que glorificava o pai também queria matá-lo para ficar com a sua mulher. Depois que matava, sentia o arrependimento por tal, saudade e, para se livrar da culpa, criava totens e tabus para compensar o feito e se livrar da dor.
E é nesse processo de carência, criação, agressividade, competição, aniquilação, culpa dor e sofrimento que a religião se estabelece com um dos principais pontos de neuroses do ser humano. Ser amado ou fazer o que se tem vontade? Eis a questão.
A RELAÇÃO HOMEM X RELIGIÃO
Pela ordenação biológica, todos os homens viveriam apenas pelo prazer: comer, beber, transar, matar, divertir. Mas a religião, como reconhece Freud na obra O mal-estar da civilização (FREUD – 1930), garantiu a criação de regras que protegem o homem do próprio homem. “Não Matarás”, “não roubarás”, não cobiçarás a mulher do próximo” são todas formas que o próprio homem criou para se proteger dele mesmo, colocando, ainda um adicional de supervisão de um ser que é pai de todos e que dita as regras, punindo ou recompensando de acordo com a sua atitude. Aliás, um ser que tudo vê e que tudo sabe, não sendo, portanto, possível você se esconder dele.
Caso não conte a ninguém, ele sabe e poderá puni-lo por conta disso. As mazelas da sua vida seriam explicadas, nos anos seguintes, pelos pecados que você cometeu e não confessou.
Para Freud, portanto, a religião não passa de uma ilusão. As experiências místicas são comparadas ao desejo reprimido ou originado no desamparo, enquanto Deus é a transferência do pai humano para o celestial, um ser glorificado e perfeito que sempre desejamos, mas nunca encontramos, inclusive em nós mesmos.
O conceito defendido por Freud, de que somos seremos biológicos, conflita com a ideia de seres sociáveis. Para ele, isso não existe. Somos individualistas, voltados ao prazer. Ao mesmo tempo, queremos ser amados, mas sempre pensando em nós mesmos. Isso quer dizer que não somos essencialmente sociáveis. Olhamos, primeiro, para os nossos próprios desejos, instintos. Contudo, ainda somos finitos, faltosos e vazios, sendo portadores de um verdadeiro rombo existencial, com u sentimento de vazio sem fim. Esse rombo também é conhecido como ferida narcísica, e é aí que buscamos o outro para preencher o nosso próprio vazio.
Essa ferida é a grande razão de uma pessoa passar a vida toda buscando amor, carinho, proteção e cuidado. Essa busca é projetada em suas relações e tudo o que o indivíduo busca é aquilo que o falta. Contudo, para que se consiga fazer tal empreendimento emocional, será preciso também renunciar ao seu eu biológico, das suas vontades, desejos, perversões, pulsões… É aí que surge o conflito: fazer o que se quer ou ser amado e aceito pelas pessoas ao nosso redor? A resposta ou a falta dela para si esmo é a grande causadora das neuroses e problemas psíquicos do ser humano.
O modo como o ser lida com esse rombo existencial diz muito sobre a sua saúde mental.
Para alguns autores, como Caio Fábio, pastor evangélico da atualidade, o rombo existencial do ser humano é exatamente do mesmo tamanho de Deus. Para muitos, a religião e a espiritualidade acabam por ser o preenchimento desse vazio, é o lugar onde elas encontram carinho, amor, compaixão e cuidado. É nela que há o preenchimento de um vazio que elas possuem através do cuidado, que muitas vezes é dotado de regras, religiosidade e grande repressão, mas que ainda assim também representa um alguém que cuida, protege e dá limites. O ato de dar limites significa, em segunda análise, o cuidado que um pai tem para com um filho. No fundo, isso também pode ser visto como acalento. Se o pai faltou na formação de um superego o ser o buscará na religião.
RELIGIÃO COMO CRIAÇÃO DE UM SUPEREGO EXTERNO
A escolha da religião ou deus também será afetada pelas histórias de amor do indivíduo. Se lhe falta regras, a pessoa buscará criar um deus ou uma religião que a entregue isso. Se lhe faltar amor, a escolha poderá ser, então, por uma linha religiosa mais voltada para o cuidado e não tão castradora. Mas o fato é que o indivíduo projetará no deus que criará algo que já lhe exista, sobre ou falte. É tudo sempre sobre ele mesmo, uma projeção criada para lidar com o seu rombo existencial e a busca por sentido.
Estão todos tentando entender: por que eu sinto esse vazio?
O grande desafio do ser humano passa a ser, portanto, o diálogo consigo mesmo. A famosa frase “conhece a ti mesmo”, de Sócrates, passa fazer ainda mais sentido se pensarmos que será no diálogo interpessoal e intrapessoal que o ser humano conseguirá ter noção das suas virtudes, fraquezas, fortalezas e abismos para, então, tomar a sua decisão com base naquilo que conhece sobre si e não apenas com base naquilo que está recalcado e projetado de dentro para fora.
Uma palavra pode definir religião: culpa. Fazemos tudo o que fazemos porque, como dizia Freud em Totem e Tabu, matamos o nosso próprio pai por uma disputa para ficar com o poder e as melhores relações sociais. Com o tempo, essa disputa se transforma em saudade e culpa. É quando criamos o dia em que lembramos a morte do pai e ainda distribuímos parte do seu corpo (eucaristia e santa ceia) para nos livrar da culpa.
A religião pode desempenhar um papel de criação de um superego artificial, fruto de uma má criação na infância. Assim, quando adulto, o indivíduo poderá buscar uma religião mais opressora para suprimir a necessidade de regra para a sua própria sobrevivência.
Quando a formação do superego é problemática e faltosa, o que pode acontecer nos primeiros anos de vida da criança, o indivíduo pode ter uma de compensação na relação ID, EGO e SUPEREGO. É nesse processo que ele pode ficar muito centrado no ID, por exemplo, entregando-se aos prazeres desregrados, caóticos e totalmente desprovidos de regras. Nesse processo, a título de exemplo, podemos citar o uso excessivo de drogas, a busca pelos prazeres sexuais desmedidos e desregrados. Mas ele também quer ser amado.
Quando o indivíduo percebe o mal que está fazendo a si mesmo e que não é capaz de preencher o seu próprio vazio através dos prazeres, busca, então, uma religião que sirva como a sua própria castradora, alguém que lhe coloque limites e lhe diga o que pode e não pode fazer. Busca uma adoção. E então esse “nosso pai” passa a agir como um freio para os próprios instintos em troca de amor e aceitação, desempenhando o papel de pai que falou na infância.
Em alguns casos, esse freio pode ter aspectos de punição por todos os pecados já cometidos. É aí que a pessoa busca um freio cada vez mais ajustado, partindo muitas vezes para o autoflagelo emocional. Ela busca uma penitência para a sua própria ação. O grande problema pode acontecer no caso de uma grande decepção com a religião. Uma vez que o superego não existe e que o único juiz interno vem da religião, quando essa decepção de instala, a pessoa volta a fazer tudo aquilo que faz quando não existia a repressão religiosa. Seu superego nunca foi formado, mas foi simplesmente um elemento extra instalado.
RELIGIÃO E NEUROSES
A religião tem o poder de dar sentido, às coisas. A frase dita por Jacques Lacan resume um dos maiores preceitos da religião. Do latim, Religare, é ela que busca fazer com que o ser humano se ligue novamente a quem lhe dei a vida, no caso, a figura de Deus, um ser glorificado e portador de tudo aquilo que o ser humano gostaria de ser. Enquanto morremos, Deus não morre. Em quando somos falhos, fracos, medrosos e cheios de pecados, Deus é perfeito, forte, está além do tempo acima de todos os possíveis males. Mais que isso, ele pode nos proteger de todos esses problemas e medos que sentimos. É a figura do pai que, quando somos crianças, depositamos a imagem de um super-herói, alguém que tudo pode, tudo vê, tudo entende e que ainda pode amar ou punir de acordo com as nossas próprias atitudes, recompensando ou dando castigos de acordo com aquilo que fizemos.
Deus, para Freud, representa exatamente essa figura. É o pai que a criança sentiu falta ou ainda sente como adulto projetado em um ser glorificado após acriança ter crescido e visto que o pai humano também é falível, limitado e completamente humano, que também vai envelhecer e que não poderá proteger o seu amado filho para sempre.
Freud trata essas questões de forma bastante profunda nas obras “O mal-estar da civilização” e “Totem e Tabu”. Nesses textos, fica evidente o papel que a religião possui de devolver ou, religar, a relação da criança ferida e decepcionada com sua autoridade, restabelecendo uma aliança de cuidado e a sensação de que, em tudo que me acontecer, estarei protegido por um pai superpoderoso, forte e que comanda tudo. No fundo, somos uma criança negando o crescimento e buscando o cuidado.
Ao mesmo tempo que buscamos o cuidado, projetados também as punições, um resquício da relação com os próprios pais, consideradas as primeiras autoridades do ser humano. E essas punições chegam na mesma intensidade através da religião. Isso faz parte do cuidado que a criança queria sentir enquanto ser que precisa ser cuidado.
Contudo, essas regras também acabam a entrar em conflito com o ser biológico, que, como dizia Freud, vive em busca de prazer. Viver na busca pelo prazer enquanto se quer ser punido por ele causa uma grande dor e um gigantesco sofrimento para o ser humano.
Ter prazer ou ser amado? Eis a questão, eis as neuroses.
O MUNDO PÓS-MODERNO
Freud viveu em um período dominado pela ideia de modernidade, em que o ser humano acreditava que conseguiria romper com aspectos religiosos, substituindo-os pelo conhecimento, a tecnologia e a ciência. Para os modernistas, o ser humano atingiria um grau tão elevado de conhecimento que poderia explicar tudo através da ciência, assim como fez com a gravidade. Tudo seria explicado de forma clara, preto no branco, não deixando mais espaço para a criação de ilusões religiosas ou subjetivas. Tudo seria mais objetivo.
Freud fez parte de um movimento que, podemos dizer, deu início ao pós-modernismo, embora também tivesse aspectos modernistas em seu discurso. Foi ele quem, primeiro, disse ao mundo que havia um tal inconsciente que tinha o poder de fazer com que as pessoas agissem de forma subjetiva e não tão objetiva, sendo, portanto, impossível o homem migrar para um mundo cada vez mais objetivo e apenas científico.
A partir dos anos de 1980, o mundo entrou de vez no mundo pós-moderno, colocando a subjetividade humana em pauta em quase todas as suas relações. Nesse contexto, o homem precisou se deparar consigo mesmo, olhando cada vez mais para o buraco existencial em que está metido, sendo obrigado novamente a responder a questões como: quem sou eu? O que faço aqui? De onde vim? Para onde vou? Entre aspectos psicológicos, filosóficos e psíquicos, o homem, então, volta as suas atenções ao mundo religioso, buscando novamente na religião as respostas que sempre afligiram o ser humano.
A expulsão do ventre (o paraíso perdido) continua sendo a grande causa da busca de sentido e, sendo essa busca respondida através da ciência, da tecnologia, da filosofia, da psicanálise ou da região, o homem continua a buscar a resposta para o seu buraco existencial. E cada um aceita a que mais lhe convém.
É exatamente esse conflito e esse tipo de situação cultural e social que chegará para a clínica. Caberá ao analista ser o ser agnóstico que tratará todas as questões de acordo com cada indivíduo, não tomando partido ou defendo ideias, mas olhando para como a pessoa irá preencher o seu vazio existencial, atenuando a sua dor e tendo o mínimo de qualidade de vida.
CONCLUSÃO – O PACIENTE RELIGIOSO E O PAPEL DO ANALISTA
O paciente religioso possui algumas características específicas, como: como forte convicção de sua crença e submissão a ela; mitificação sacerdotal; demonização; resistência ao novo. Esses aspectos precisam ser trabalhados com bastante cuidado pelo analista no consultório, pois são valores fortes e extremamente importantes para o paciente. Retirá-los de vez pode significar o desmoronamento de todo o eu do indivíduo.
Quando um paciente chega num consultório de um analista, por exemplo, o que importa não é a história em si, mas sim o sentimento que o paciente possui com relação a ela. O psicanalista será, então, o mediador na ação de transformação uma dor histérica em comum, sendo o ouvido imparcial, técnico, ativo e analítico, desempenhando o papel de terceira via para análise do mesmo fato. Já que do ponto de vista do analisado, tudo terá uma grande relevância, caberá ao analista auxiliar o paciente no entendimento do real peso que o fato possui, transformando a dor histérica em comum ou suportável.
Entender o significado que cada história, dor ou situação possui para o paciente é o grande objetivo do analista. Para uns, uma família pode significar aconchego, segurança, amor, carinho, troca, parceria, etc. Para outros, ela pode significar dor, abuso, trauma, sofrimento etc. Geralmente, é esse tipo de família que entrará no consultório analítico, na verdade, é esse tipo de versão que o paciente trará, afinal, o sofrimento está na diferença entre aquilo que se idealizou e o que realmente aconteceu ou sentiu que aconteceu. É aí que entra o papel do analista de auxiliar o paciente a enxergar a sua ilusão, assim como verificar se a realidade condiz com o seu sentimento, trazendo, através da elaboração, a razão para os fatos.
BIBLIOGRAFIA
(OLIVEIRA, VIEIRA E ANDRADE, 2006).
A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS. Freud, 1900.
UM CASO DE HISTERIA, TRÊS ENSAIOS SOBRE A HISTERIA. Freud, 1906.
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https://www.google.com/search?q=frase+de+freud+sobre+neurose&rlz=1C1GCEA_enBR913BR913&oq=frase+de+freud+sobre+neurose&aqs=chrome..69i57j0.5338j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8. Acesso em: 08 de fevereiro de 2021.
TOTEM E TABU (Freud, 1913)
O MAL-ESTAR DA CIVILIZAÇAO (FREUD 1930)


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