Certo dia, um amigo me disse que estava angustiado por pensar no sentido da vida e ter chegado à conclusão de que, talvez, não houvesse sentido. Então, ele me perguntou: você acha que essa angústia faz sentido?
Então, tivemos uma conversa que considerei registrar nas linhas abaixo.
A angústia é um sentimento natural e sempre presente na história da existência humana. Somos seres angustiados e não há resposta para isso.
Na pré-história, angustiava-nos quando chovia e ficávamos doentes. O apagar do fogo, a fuga da caça e a falta de controle sobre o nosso próprio presente e futuro sempre nos angustiou. No fundo, a angústia está ligada intimamente a àquilo que não podemos controlar.
Kierkegaard, filósofo, teólogo, poeta e crítico social dinamarquês do século XVII, dizia que há dois tipos de angústia: aquela que nos paralisa e a que nos mobiliza.
“A pergunta que se faz é essa: o que você faz com a sua angústia?“
Se na pré-história a chuva nos angustiou, criamos cabanas. Se a caça não era constante, criamos a agricultura. E assim a angústia foi nossa grande parceira de evolução.
Mas há também a angústia que paralisa. Algumas pessoas gostam de sentar e abraçar suas angústias, fazê-las de companheiras e justificativas para serem confortadas, consoladas e amadas. E há prazer envolvido nisso, libido mesmo.
Fazer-se de coitado nos remete à infância, ao cuidado e amor que recebíamos dos pais em um mundo que, até então, não podia nos afligir sob a proteção dos progenitores. E ainda hoje tem gente que não sabe viver de outra forma se não for através da validação, do carinho, da atenção e da dependência do outro, repetindo a expectativa e a relação que tinha com os pais.
Com o tempo, projetamos essa mesma carência e essa mesma expectativa de proteção em pessoas, instituições, trabalhos, experiências, deuses…
Chegamos a criar os chamados “deuses de bolso”, que fazem tudo aquilo que nós não conseguimos fazer e que existem apenas para servir às nossas expectativas. Pessoas assim geralmente não aceitam a ideia de servir um deus sem esperar algo em troca. Existe sempre uma coisa a receber, seja cuidado ou bênção.
São deuses perfeitos, que são tudo aquilo que a própria pessoa não é. Nunca falham, não mentem, não pecam e, por isso, podem julgar e sentenciar, assim como os pais faziam. São “deuses de bolso” que criamos para suprir nossas carências, vazios, angústias e justificar o nosso fracasso em enfrentar, conhecer e dominar a si mesmo e o próprio destino.
É muito mais cômodo dizer “está nas mãos de deus” que assumir que todo fracasso ou sucesso das nossas vidas vêm de coisas que ora estão em nossas mãos, ora não estão, simplesmente acontecem.
“Nada faz sentido”, foi a frase repetida por Nietzsche, Freud, Salomão e Jesus.
E não faz mesmo. Mas isso não é angustiante, é libertador. A inexistência de sentido nos dá a possibilidade de libre arbítrio, de criar o sentido que quisermos.
“O ser humano é essencialmente livre”, dizia Nietzsche.
Para os angustiados que se paralisam, dói dizer que não há ninguém definindo ou decidindo quais os aspectos e atributos genéticos que teremos para definir a nossa capacidade física, intelectual ou perceptiva. Dói demais assumir que o sentido de estarmos aqui deve ser criado por nós e que os pais não estarão aqui para sempre para nos ajudar com isso. Dói dizer que está em nós tudo aquilo que precisamos, queremos e projetamos. Dói pensar que não teremos amor para sempre, a não ser que também entreguemos amor.
Dó pensar que todo amor é condicional.
“E o que fazer agora?”, perguntou meu amigo.
“E por que precisamos de um destino?”, indaguei. “E se a beleza da vida for justamente essa: dançar enquanto cai em um abismo?”, concluí usando outra frase de Nietzsche.
Na verdade, a angústia do ser humano é uma só: controlar. Ou melhor: não conseguir controlar e buscar sentido para aquilo que não se controla.
Somos o destino e a inexistência de sentido é o próprio sentido.
Gostemos ou não.
Angustiemo-nos ou não.


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